Saturday, November 21, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 17


“ERAS FATAES” OU O CLUBE

Logo cedo Zelito e Sileno preparam-se para ir à praia: vestem seus calções de banho e põem a camiseta com o emblema do Castelo, tomam um café bem ligeiro e vão pegar o ônibus do Meireles na Praça. Eles costumavam ir para a praia do Náutico aos domingos e lá encontrar com Jorginho. Seu pai dizia que era bom para a saúde física e também para a mental e eles concordavam, mais com essa última idéia, se bem que ficavam calados. Eles ficavam na areia tomando sol e, ao mesmo tempo, ficavam de olho grudado nas meninas que se bronzeavam por ali. Nenhuma delas olhava para qualquer deles, mas isso não tinha a menor importância. Eles formavam um tipo estranho, pois namorada na capital não tinham; meninas, só as da Granja, talvez eles tivessem medo de se chegar às da cidade grande. (...)


Quando era para entrar na água só Zelito e Sileno iam, pois Jorginho tinha medo do mar, desde quando ele perdeu um jacaré e foi jogado na areia, ali mesmo em frente ao Náutico, vomitando água, todo arranhado e assombrado. Entrar na água, nunca mais! Ele era assim, meio que radical. Ele só gostava da água das piscininhas, feito menino. Enfim, estavam os três, nesse domingo, deitados na areia quando Jorginho falou:

- Vocês vão passar o Carnaval na Granja?

Ele não esperou pela resposta e foi logo dizendo:

- Eu acho que eu vou, já faz um tempão que não vou lá e Mamãe reclama o tempo todo. Vou ter de voltar na quarta de manhã.

Um dos gêmeos diz:

- A Mamãe também pediu pra gente ir, nem que fosse só no sábado para voltar no outro.

Sileno continuava calado, riscando a areia molhada com um graveto. Mas disse logo a seguir:

- Se a gente quer ir tem de procurar transporte, pois o caminhão lá de casa ta quebrado e não vai sair do conserto tão cedo.

Jorginho sugere que eles procurem logo na segunda as passagens de ônibus ou um transporte qualquer na agência do Seu Edson. E completa:

- Pode deixar que eu vou procurar amanhã; tem que ser quatro lugares, pois na certa o Raimundinho vai querer ir também e vai ser bom a gente ir junto.

Depois de baterem bola um pouquinho, entrarem na água de novo - isto é os gêmeos - e chuparem picolé os amigos tomam o ônibus de volta pra casa. Jorginho desce logo na esquina da Nogueira Acioli enquanto os dois vão até a Praça do Ferreira e de lá vão gramando até em casa, na General Sampaio.

No dia seguinte, no Liceu, Jorginho encontra o Raimundinho e diz que eles vão passar o Carnaval na Granja e se ele não queria ir também: ia ser bom os quatro juntos, na festa da Prefeitura! Aí Raimundinho, vê que Zelito e Sileno vão também e imagina que vai ser uma viagem legal. O amigo concorda, mas diz que vai ser difícil, pois dinheiro ele não tem, mas tinha certeza que Seu Pedão lhe arranjava, pelo menos o da passagem.

- Vocês estão pensando na festa da terça na Prefeitura, não é?

Jorginho diz que é mesmo e seria bom se fossem, pois na certa encontrariam as meninas todas e podiam pular à vontade com elas, quem sabe até... Ele lembra ainda que tem alguns problemas.

Os dois voltam para a classe para assistirem a última aula, de Matemática, do Prof. Alcy, que era muito exigente e meio sarcástico e de quem nem todos os alunos gostavam. Jorginho gostava das aulas de Latim, dadas pelo Osvaldo, ex-seminarista, mas também exigente como todo. Já o Raimundinho tinha um pouco de dificuldade e os colegas diziam que ele era meio burrinho. Eles não tinham muita idéia de como era a vida do Raimundinho, mas ele não tinha nada de burrinho.

Na saída os dois se encontram novamente e o Raimundinho diz:

- Vem cá Jorginho tu acha que eu vou entrar na festa da Prefeitura?
- E por que não? Tu deve alguma coisa lá?
- Sei lá... Tem sempre um probleminha...
- Olha, vamos mandar fazer a nossa fantasia que depois a gente resolve tudo.
- Fantasia, rapaz? É melhor só uma camisa florida, é mais barato.
- É, talvez, pode ser uma camisa bem colorida, com flores bem encarnadas, verdes, sei lá... A Raimunda pode fazer bem baratinho pra gente e ela ta na casa dos meninos.

Jorginho lembrou que a Raimunda, costureira afamada da Granja, estava na casa dos gêmeos, passando uma temporada para se curar de uma doença que ele não sabia qual fosse, mas que era meio braba. O bom é que ela continuava trabalhando, como sempre. Vai daí que ela talvez pudesse fazer as camisas deles. Os dois resolveram que iriam logo passar na casa dos meninos e combinar tudo. Eles tomaram o ônibus do Jacarecanga e desceram na esquina da rua onde morava o Coronel - ainda chamavam de Coronel o pai dos gêmeos. Eles já tinham chegado do colégio e já estava quase na hora do almoço, por isso os dois se apressaram para conversar sobre a viagem e a festa, pois não iam filar o almoço da Joana.

- Raimunda vem até aqui na sala! Gritou Sileno.

Logo chegou uma senhora de óculos sem aros, cabelos pretos e meio ondulados, de uma idade indefinida, e de tez acobreada como de resto quase todo mundo da Granja, pois a ascendência índia era patente na maior parte da população. Raimunda foi logo perguntando:

- Que é que vocês querem meninos?
- Mundinha – era assim que eles chamavam a costureira, amiga da casa – a gente quer que você faça as camisas pra gente ir pra festa do Carnaval.
- E quantas são?
- Quatro: a minha, a do Sileno, a do Raimundinho e a do Zelito, diz logo Jorginho. A gente vai pagar assim que arranjar o dinheiro.
- Para o Raimundinho, também?
- Sim, também. Responde Jorginho.
- Certo, mas e a fazenda? Você podia pedir à Maria Isaura para tirar na loja do Seu Jean, lá na Praça do Ferreira. Se ela mandar eu vou logo depois do almoço e trago.
- Ta certo, eu telefono daqui e peço a ela.
- Então ta certo e eu nem preciso tirar as medidas de vocês eu faço pelas medidas do Sileno que eu tenho aqui, vocês são tudo do mesmo jeito... Quarta ou quinta estão prontas.

Volta o Jorginho da outra sala dizendo que a irmã havia dado ordem para a Raimunda tirar as fazendas no Seu Jean. E quem iria pagar tudo seria a Maria Isaura da conta dela mesma ou da sua mãe.

Os dois colegas se despediram e foram caminhando até a Praça do Ferreira, onde ficou Raimundinho na merendeira do Seu Pedão e Jorginho tomou o ônibus, pois já estava passando da hora do almoço e ele não queria ficar sem comer, sua irmã não dava mole, quem não estivesse na hora do almoço não comia. Raimundinho comeu o normal, um cai duro e uma garapa de cajá e se aprontou para trabalhar até sete horas que é quando ele vai pra casa na Cachorra Magra.

Raimundinho morava na Cachorra Magra com seus pais; ele tinha nascido na pequena casa construída por seu avô sobre o casebre que sua família vinha ocupando desde que suas bisavós haviam chegado do sertão da Granja fugidos da seca de 77. Seus pais contavam, por ouvir falar, e mesmo pela comparação que podiam fazer com sua situação agora, que não era certamente muito melhor do que a da época, da miséria implacável que foram aqueles tempos da seca dos dois setes como todo mundo dizia. Pode ser que seja melhor, pensava o Raimundinho, mas pelo que ele vê na Cachorra Magra e no Barrocão, na Granja, ele perdia as esperanças de ver alguma mudança para os seus. Ele tinha certeza que iria batalhar toda a sua vida para ter uma vida melhor e levar os seus a terem uma vida digna como certamente tinham seus antepassados distantes.

Ele ia de vez em quando à Granja passar férias curtas com seus tios, o Tio Pintor (pintor de paredes e, nas horas vagas, retratista) era irmão do seu pai e tinha voltado para a Granja quando viu que não tinha nada pra ele na cidade grande. Lá seus tios moravam no Barrocão, na parte mais alta, isto é, na barreira entre a parte antiga do bairro e a miséria total de hoje, à beira do rio.

Pelo fato de estar saindo da adolescência, sendo quase uma criança, pois tinha um pouco menos de dezoito anos, Raimundinho ainda não havia se habituado com o jeito como era tratado por muitas pessoas, seja na Granja, seja na Capital. Na Granja, pelo menos ele era conhecido e tinha amigos de todos os jeitos como ele próprio dizia, mas os pais de alguns de seus amigos olhavam pra ele com um olhar esquisito. Quando conversavam Jorginho, Sileno e Zelito e ele não estava por perto, muitas vezes, discutiam esse assunto. Eles gostavam do Raimundinho, durante toda sua meninice, nas férias, eles foram muito ligados, pois iam juntos aos banhos de rio, e brincavam juntos de bila, papagaio e espiavam no bar do Santino os jogos de sinuca, proibidos para quase todos só não para ele, seu tio Pintor ia lá se incomodar com isso. Só pouco a pouco os três, que moravam no centro da cidade, descobriram que o Raimundinho era, por muitos, considerado diferente deles. Eles tinham a cor da pele quase igual a do amigo, os cabelos eram pretos e escorridos, talvez os gêmeos os tivessem um pouco mais claros, a estatura era a mesma e outros sinais iguais. Só que o Raimundinho era diferente, o conjunto, bem dizendo. Os sinais herdados dos antepassados índios eram bem mais evidentes e, pior, seus parentes nunca tinham podido sair do Barrocão e “apagar essas nódoas” que eles achavam ter e que poderiam apagar.

Na tarde daquele dia Jorginho foi pro trabalho mais cedo, pois tinha de fazer alguns pagamentos no Banco do Brasil e nessa história ele passava à tarde quase toda; apesar de conhecer uns dois ou três funcionários do balcão, muitos outros colegas tinham também seus conhecidos e daí ninguém tirava vantagem. Após voltar do Banco e de pegar alguma merenda na própria mercearia, pois o primo Flávio não lhe pagava coisa alguma – recomendação de sua mãe que o queria aprendendo a trabalhar, não precisava ganhar dinheiro... - ele foi para casa estudar um pouco antes da aula de francês.

- Já vou Seu Flávio, ta na hora! Era essa a maneira de tratar o primo de sua mãe, bem mais velho que ele, além disso, ele achava que assim mostrava respeito, o que era verdade.

- Vai Jorginho, estudar pra ser doutor!

No dia seguinte no Liceu, entre uma aula e outra, o Raimundinho lhe diz que estava ansioso para voltar à Granja, pois quer ver a Delinha, sua namorada de já alguns meses. Delinha também morava no Barrocão e seu pai era um marceneiro que tivera uma pequena oficina, e que vivia hoje mais de bicos, o que mal dava para a comida. Esta era uma das razões pelas quais os dois queriam apressar um casamento que todo mundo tinha como certo. Eles se preocupavam e ela queria que ele pedisse um emprego ao Dr. Severino, o chefe político. Raimundinho não queria, mesmo porque não pretendia se enterrar na Granja. O que ele queria era se formar, em qualquer coisa, para poder melhorar sua vida e a dos seus incluindo a família da namorada, pois ele já a incluía na sua própria.

Jorginho ouve o amigo e, atento para os problemas de rejeição e de pobreza e de milhares de dificuldades dele, não consegue se desviar dos seus próprios problemas. Ele deixa de falar na sua paixão do momento, pois sabe que o intervalo está terminando e ele não vai ter tempo para falar com o amigo sobre a Corina como quer. Ele prefere falar sobre sua família que é considerada como sendo “de brancos” quando na realidade o seu antepassado “branco” está perdido entre ladrões de cavalos do século XVI que se amasiaram com nativas da terra. Antes de qualquer outra distinção, certamente artificial, o que lhe preocupa é a situação econômica de seu pai. Ele conta para o amigo que em sua própria casa todo mundo pensa que tem dinheiro, aliás, na Granja todos pensam que sua família nada em ouro e ele próprio sabe que não é verdade, seu pai morre de trabalhar e os lucros do seu negócio são poucos para muitas despesas. Raimundinho olha o amigo e diz simplesmente:

- Besteira rapaz, todo mundo lá na Granja sabe que tua família sempre foi uma das mais ricas, do mesmo jeito que a dos gêmeos, vocês fazem é choramingar sem razão.

Toca a sineta e eles vão assistir a mais uma aula de Francês do Prof. Albano querido de todos e que iria falar sobre Vercingetorix, o Bárbaro.

Na saída Raimundinho lembra ao amigo para se informar hoje mesmo sobre as passagens, se tem e quanto vai custar, pois ele vai ter de pedir um adiantamento ao Seu Pedão. Jorginho concorda e logo que termina a aula ele vai até a agência Rio da Cruz na Praça da Estação. Seu Edson, o dono, diz que não tem mais passagens para o sábado, só para o domingo. Jorginho decide que ele tem de comprar logo, pois, do contrário, nem no domingo eles vão poder ir. Ele pede as quatro para o domingo no carro das cinco horas.

– Eu posso debitar para seu pai, pois a gente tem negócios.

Jorginho pede para fazer uma ligação e fala com sua irmã; volta para Seu Edson e diz:

- Está certo Seu Edson, a Maria Isaura diz que o senhor pode fornecer as passagens.

Ele vai pra casa e sua irmã lhe diz:

- Olha Jorginho você precisa falar antes comigo, pois este negócio de apresentar o fato consumado não dá certo. Se eu não tivesse dado a ordem para a Raimunda fazer as camisas de vocês e ao Edson para adiantar as passagens, o que seria? Além do mais esses meninos não tem dinheiro para desembolsar com isso? Vocês vão me pagar, pelo menos as passagens.

Jorginho escuta e, como de costume, baixa a cabeça e não diz nada, vai esperar por outra reprimenda.

Sileno e Zelito vão até a mercearia do Seu Flávio encontrar Jorginho e ver se tudo vai bem do seu lado, pois do deles vai: eles já conseguiram, não dizem como, duas caixas de lança-perfume Colombina para cheirar e lançar nas meninas durante a festa. Jorginho se alegra, mas conta para os amigos que agora eles só vão no domingo, pois não tinha mais passagens para o sábado. Agora tem que dizer para o Raimundinho, na certa ele não vai gostar muito, pois vai diminuir de um dia o tempo que ele vai passar com a Delinha.

No dia seguinte, no Liceu, em um intervalo, Jorginho diz ao Raimundinho que está tudo certo, mas que agora só no domingo, pois Seu Edson não tinha passagens para o sábado.

- Merda, Jorginho, agora essa! Vou ter de avisar para a Delinha que só vou no domingo!

O amigo ficou chateado mesmo, como eles previam.

Na sexta-feira à noitinha estava tudo preparado: camisas e calças engomadas, sapatos lustrados, calções para banho no rio, e o que mais se quer, só faltava arrumar a mala que seria feita na hora. Cada um levaria uma pequena mala de couro com poucas roupas, pois demorariam pouco na Granja.

Nessa sexta Sileno e Zelito encontram Jorginho na Praça da Lagoinha para conversar um pouco sobre a viagem e o Carnaval. Todos estavam preocupados com o Raimundinho, pois tinham desconfiança que o Dr. Benito não o deixaria entrar no salão. Parece que estava havendo um movimento forte na Granja para se criar um clube, pois ninguém mais agüentava aquela sujeira das mijadas por trás do biombo e em cima dos presos, se bem que talvez esse não fosse o motivo principal, pois mijadas e sujeiras os acompanhariam em qualquer prédio por novo que fosse. O prédio, quase centenário, havia sido construído durante a seca de 77 - com braços de flagelados vindos do interior - e servia, na parte de baixo, como cadeia pública e a parte superior era o espaço onde se faziam as sessões da Câmara Municipal desde quando esta detinha o poder. Podia até ser que os presos tivessem reclamado tanto do mijo como do barulho em dias de festa e o Prefeito e o Presidente da Câmara tivessem decidido não mais ceder o espaço. Mas também podia haver um motivo político para isso. Nuvens escuras parecem estar se aproximando do cenário público. De qualquer modo dizem que o irmão dos gêmeos, o que é arquiteto, já havia sido sondado para fazer uma planta para a futura sede do Clube, era só uma questão de tempo, talvez esse fosse o último Carnaval na Câmara.

- Vem cá Jorginho, o que tem tudo isso a ver com o Raimundinho? Pergunta Sileno.
- Ora rapaz! Pode ser que os novos tempos, novo clube, possam servir para aumentar o “branqueamento do povo” como diria aquele autor.
- Mas que autor é esse Jorginho? Tu lê muito e não lembra?
- O que importa é que existe esse enorme preconceito lá: nem preto, nem “caboco”, nem pobre entra. Agora se você é remediado e empresta dinheiro para os graúdos...
- E o que a gente vai fazer? O Raimundinho mesmo anda preocupado...
- Ele não é besta gente! Ele só parece, ele ta sabendo do que o Dr. Benito é capaz, ainda mais quando ele é mandado...
- Ora Jorginho deixa isso pra lá, tu fala demais. Nós vamos, os quatro, e entramos como se não fosse nada. O teu pai e o nosso são sócios e a gente tem o direito de levar um convidado. E o Raimundinho já não foi a festas na Prefeitura?
- Ta certo, vamos arriscar...

Domingo bem cedinho os quatro se encontram, ainda com escuro, em frente à agência dos ônibus do Seu Edson, na Praça da Estação. Logo chega o ônibus, um Mercedes que ta ficando velho, mas ainda dá pra botar até o Camocim que é o fim da linha. O ônibus está lotado e já tem gente em pé, o que é proibido, mas não tem ninguém para impedir o excesso de lotação. Saem enfim e, naquela vagareza que impõe o Duda o chofer acostumado com a estrada, mas criado guiando um caminhão carregado de sacos de cera, chegam a Irauçuba. Quase todo mundo desce para comer paçoca, coalhada e tomar um café com queijo. O Raimundinho vinha com o estômago roncando de fome, pois em casa só tinha mesmo o café preto que sua mãe tinha passado. Os outros comem somente para engordar, pois tinham se alimentado suficientemente. Eles conversam um pouco e mostram excitação com a próxima chegada à Granja. Lá eles vão ver a sua terra, a terra de seus antepassados que eles gostam e respeitam, mas sentem um nó na garganta, todos eles, quando a vêem maltratada como agora. O Carnaval pode ser uma boa oportunidade para não lembrar muito dessas coisas. Vai ser festa e só festa.

- Não é Raimundinho? Pergunta Sileno com um olhar de aprovação dos outros.

Raimundinho diz:

- É mesmo. Eu vou é me divertir com a Delinha. E tu Jorginho vai mesmo procurar a Corina? E os dois marinheiros vão continuar com a Lúcia e a Adília?

Os três só sorriram, pois seus namoros com as meninas estavam longe de serem mesmo verdadeiros; para Jorginho seu namoro com Corina parecia ser questão de coragem que sempre lhe faltava; para Sileno e Zelito na certa não haveria problemas, pois eles sabiam que as meninas estavam caidinhas por eles. Enfim, todos esperavam um Carnaval de sucesso, a não ser pelo problema que eles antecipavam para o Raimundinho e conseqüentemente para todos eles.

Chegaram à Granja às cinco horas da tarde e cada um foi para sua casa. Para contrariedade de todos eles não viram nenhuma das meninas quando o Duda parou em frente ao armazém do Quiquito que fazia às vezes de rodoviária, pois não havia esse serviço na cidade e todos sabiam que não haveria por muitos anos a frente.

De longe ele vê seu Tio Pintor sentado em um banquinho no chão batido em frente de casa e, como sempre, fumando seu cigarrinho. Ao chegar, Raimundinho pede a benção e senta ao seu lado para dar as notícias dos pais e dos seus que ficaram na Capital. Os dois se entendem bem, pois o tio é dessas pessoas que dá muita atenção a gente jovem e gosta de contar coisas que aconteceram com ele e seus parentes. Quando chega a Tia ele começa a perguntar sobre a Delinha e sua família. Tem boas notícias, pois, diz a Tia:

- A menina ta cada vez mais bonita. E eu acho que ela ta mesmo esperando pra casar com você. O Tio diz:

- A gente gosta muito dela, é de família boa e parece que trabalha muito. Vai ser um casamento que vai dar certo!

- E ela vem sempre aqui, ver vocês?

- Vem e ela gosta de ouvir as coisas que eu digo. Traz histórias da rua pra contar pra gente.

- E o pai dela? Vocês se dão, não é?

- É verdade o Velho é boa gente, mas só bebe uma cachacinha todo dia com os amigos no Bar do Tata. Mas quem não bebe... Só eu...

A Tia olha pro marido e dá um rizinho, mas diz:

- Filho entra para arrumar tuas coisas e se lavar para a gente tomar um café. Na certa você quer ir logo na casa da Delinha, não é?

Raimundinho e a Tia entram e ele põe sua sacola na sala aonde vai dormir. Vai “lá fora” e lava o rosto na bacia da cozinha. Os três sentam-se à mesa na cozinha onde estão as xícaras para o café, pois ele trouxe um quilo da capital, presente de sua mãe. Após mais um dedo de conversa Raimundinho troca de roupa, põe um pouco de Leite de Rosas debaixo dos braços e vai até a casa da Delinha que fica na rua de trás, que também, como a de seus tios não tem nome, pois rua de cunha e “caboco” não tem. Ele espera passar essa primeira noite com a namorada, mas certamente vai ter de dar uma palavrinha com Seu Raimundo. Ao chegar, como ele já era esperado, todos estão à janela e saem para recebê-lo:

- Boa noite Seu Raimundo, boa noite Dona Isolda, diz ele encabulado, olhando para a namorada que está na soleira da porta, olhando para ele embevecida.

- Delinha, como ta você?

Ela nem responde, mas vai logo arrumando os banquinhos de madeira em frente a casa para todos sentarem. Dona Isolda logo pergunta ao menino:

- Raimundinho como tão os seus? Sua Mãe ta boa?

- Todos estão bem e mandam lembranças, mas continuam a ter saudades das vezes que vêm aqui.

- E os estudos Raimundinho? Pergunta Seu Pintor.
- Vou bem nos estudos e trabalhando muito na merendeira do Seu Pedão. Parece que ele está gostando do meu serviço, pois até me arranjou um dinheiro adiantado para eu viajar.

A conversa vai de noite adentro os da Granja querendo notícias dos de Fortaleza e Raimundinho sem tirar os olhos de Delinha, com vontade de ficar só com ela, para ver se os dois ainda sentiam as mesmas coisas que sentiram da última vez que se viram e se tocaram. Os assuntos nessa noite vão morrendo entre eles e finalmente o Raimundinho convida a Delinha para dar uma voltinha na “Venida”. Ela olha alternadamente para o pai e para mãe e vê que eles dão assentimento. Levanta-se do banquinho, passa a mão na saia e saem os dois. Quando dobram a esquina ele logo tira um pacotinho do bolso: é o presente que ele trouxe pra namorada, um batom, bem vermelho. Ela fixa os olhos nos seus e sorri agradecida:

- Obrigado, Raimundinho.

Eles dão-se as mãos e caminham até a “Venida” com sorrisos de satisfação. Nessa noite Raimundinho diz à namorada que não vai querer trabalhar na Granja, de jeito nenhum; não vai se sujeitar a essa situação em que se encontra o povo da cidade. Ele prefere qualquer emprego na Capital e depois se formar. Qualquer emprego que lhe dê tempo de estudar. Ela concorda e fica olhando pro seu caboclinho com muita ternura e diz que já pode muito bem ajudar, pois na casa da Dona Zefinha ela já ta aprendendo mais do que varrer a casa e passar ferro na roupa, a filha dela está ensinando ela a cozinhar. Raimundinho sorri e tem vontade de perguntar se Dona Zefinha e a filha esperam que a Delinha vá passar o resto de sua vida lá. Eles se olham ternamente e se acariciam. Permitem-se um beijo na face que passa rapidamente, depois de olhares vigilantes, a quentes beijos que lhes queimam os lábios e as línguas. Eles param por aí, pois decidem que se forem mais adiante, nada os controlará. Voltam para casa onde os pais de sua namorada estavam à sua espera.

Enquanto o Raimundinho está namorando na “Venida” Jorginho passa em frente à casa de sua paixão, pois era assim que os amigos falavam das meninas com quem ele dizia que queria namorar. A Corina era uma garota um pouco mais velha que ele e não lhe dava muita bola, talvez fosse por isso que ela o atraísse. Nessa noite ele conseguiu falar com ela na janela de sua casa. Ela estava com os cabelos cada vez mais louros e lisos, mas estava também bem mais bonita do que sempre fora, ou seriam seus olhos, pensou Jorginho. Ele teve coragem e lhe perguntou:

- Você vai na festa da terça?
- Vou e você?

- Eu vou também e já estou pensando que a gente podia dançar...

- Dançar no Carnaval, Jorginho? A gente faz é pular até cair de cansada. Mas eu lhe prometo que a gente vai pular bem juntinho, o mais juntinho que o Seu Pedro deixar. Estão dizendo que ele vai vigiar todo mundo na festa. Coitado dele, eu vou enganar o tempo todo. Você topa? Se não...

- Se não o que Corina?

- Deixa pra lá Jorginho, depois que você chegou eu só tou pensando em você...

Jorginho tremeu e soube ali que não iria dormir sossegado essa noite.

Na segunda-feira os quatro amigos se encontram na Barragem que ainda escorre um pouco de água e dá para se tomar um banho sem muito sobrosso. A sujeira velha foi lavada e a nova ainda é pouca. Eles passam um tempão jogando cangapé e chupando remela que tem muito na beira do rio. Do local em que eles estão dá para ver as lavadeiras em sua lida com a roupa, ora batendo, ora esfregando sabão, ora pondo pra quarar sobre as pedras. O que chama a atenção de todos eles é exuberância dos seios das “índias” - assim dizia um dos primos sulistas dos gêmeos -, sem que estivesse totalmente errado, expostos sem nenhum falso pudor para todos que os quisessem ver.

Depois do banho e do almoço eles, novamente reunidos, foram “pernar” pelos bares e bodegas, reconhecendo e tirando prosa com antigos colegas do Grupo e amigos mais velhos. Andaram pelos bares do Santino, do Seu Pedro e outros na Praça do Mercado. No do Seu Pedro chega perto o filho do Seu Paulino, bem mais velho do que eles, e pergunta:

- Vocês vão pra festa amanhã na Prefeitura? Todos responderam:

- Vamos!

- Até tu Raimundinho?

- Até ele mesmo! Respondeu o Sileno, antecipando-se ao amigo, tendo os outros feito sinal de concordarem.

- Então é isso aí, a gente se vê na festa.

Andaram mais um pouco e combinaram que no outro dia iriam até a Lagoa Grande para ver as obras de alongamento da parede. Parece também que alguém estava fazendo uma obra no meio da Lagoa e eles queriam ver.

À noite os gêmeos e Jorginho foram passear na “Venida” e ver se as meninas apareciam por lá, pois não havia festa na segunda-feira e assim as chances seriam grandes. Quando eles se encontraram perto do Cruzeiro da Igreja eles olham para todos os lados e, vêm que, das três, somente Lúcia e Adília estão passeando de braços dados. Corina não está e Jorginho fica decepcionado. Ele pensa “o que será que ela está aprontando?”. E fica imaginando milhares de coisas. Enfim... Ele volta para sua casa e os gêmeos vão passear com suas namoradas e certamente acertar alguns detalhes da festa de terça.

Quando Jorginho chega em casa vê que seu pai ainda está lendo os jornais no quarto, deitado em sua rede. O velho, quando ouve os passos do filho, chama-o:

- Vem cá, Jorginho...

- O que é Papai?

Seu pai entra logo no assunto que está lhe preocupando:

- Meu filho você acha que o seu amigo, o Raimundinho, deve mesmo ir para a festa de amanhã?

Jorginho fica surpreso e pergunta:

- Porque Papai? Tem algum problema com ele?

- O Seu Paulino me pediu para falar com você e dizer que o Raimundinho não pode entrar na Prefeitura, amanhã, para a festa...

- Porque Papai? Que história é essa?

- Ele me disse simplesmente que é porque ele é de segunda, caboclo, e eles estão fazendo uma seleção na sociedade. Ninguém sem a aprovação do Presidente nem da Diretora vai entrar. Ele justifica isso porque pretendem construir a sede do clube e assim a sociedade já estará purificada quando ela for inaugurada.

Do alto de seus dezoito anos incompletos, Jorginho diz:

- Papai, que estupidez! E você, o que disse?

- O que você acha? Eu disse que estava parecendo a Alemanha Nazista, com suas leis raciais! Mas ele disse que o pessoal do clube estava irredutível.

Jorginho baixou a cabeça para que seu pai não visse seus olhos úmidos e disse:

- Boa noite Papai, até amanhã. Saiu e foi sentar-se na sala com um livro entre as mãos e pensando em soltar as rédeas de seus demônios íntimos...

Logo pela manhã cedo Jorginho foi até a casa dos gêmeos chama-los para o passeio até a Lagoa Grande. Foram os dois aparecendo e ele contou o que seu pai havia lhe dito na noite anterior. Os meninos ficaram horrorizados e preocupados com o amigo, como ele receberia a notícia. Os três foram logo até ao Barrocão encontrar o Raimundinho. Ele estava na casa da Delinha conversando com Seu Raimundo. Como sempre, o velho estava contando histórias antigas, dos tempos das secas, que foram muitas e cruéis. Os amigos não quiseram interromper mesmo porque eles também gostavam de ouvir histórias da Granja antiga e Seu Raimundo era um mestre nelas. Eles se abancaram e o velho continuou a história sem antes lhes por a par do essencial.
Ele dizia que seu bisavô tinha vindo do sertão da Palma, com toda a família, pois lá tava ruim mesmo. Ele era marceneiro na Malhada Vermelha e quando chegou arranjou um bico, que é como se chama hoje, nas obras da construção da Câmara Nova e do Mercado. Ele era um marceneiro fino e fazia móveis, portas e muitas outras coisas. Um dia o Chefão pediu-lhe para fazer um molde das letras e nomes que iam ficar, em alto relevo, por cima das janelas da Cadeia; deu um trabalho danado, mas ele dizia que aquele de que mais gostou de ter feito foi o daquelas letras que ficam por trás da Cadeia: “ERAS FATAES! DE 6 DE NOVEMBRO DE 1877 A 25 DE JULHO DE 1878”. Ficou bonito, ainda hoje a gente pode ver lá. Os outros eram só os nomes dos Coronéis do tempo.

Quando o velho deu por terminada a conversa os três amigos de Raimundinho se entreolharam e, demonstrando respeito, se despediram chamando o amigo para o passeio na Lagoa Grande. Já nas proximidades eles passaram por uma infinidade de casebres levantados à beira dagua e que tinham uma pobreza tão grande ou maior que os do Barrocão: eram casas de taipa, algumas com a frente de tijolos e pintadas de cores vivas. Parece que as cores pretendiam esconder o que havia de miséria. Os quatro amigos foram caminhando pela margem e logo estavam sobre o aterro da parte leste da Lagoa. Aí eles encontraram um cavaleiro dando banho em seu cavalo e algumas crianças dividindo a água com patos e porcos. Jorginho lembra de ter vindo, ainda bem pixote, acompanhando o Flávio e outros, a uma caçada de marrecas. É verdade que ele não deu nenhum tiro, mas divertiu-se bastante com as mentiras contadas pelos amigos; o seu primo, então, era mestre nesse ofício. Eles estavam agora deslumbrados com a grandeza da Lagoa quando Raimundinho chamou atenção dos outros para uma construção que se erguia bem no centro da Lagoa.

- O que é aquilo, vocês estão vendo?

Nenhum dos outros também sabia o que era aquela estrovenga. Eles chamam o homem que estava dando banho no cavalo e lhe perguntam se sabe o que é aquilo, ali no meio da Lagoa. O “caboco” coça a cabeça, como que relutando, mas fala:

- Dizem que aquilo é o “masolé” do Dr. Severino, mas eu num sei não, pode ser outra coisa.

- E o que diabo é “masolé”, homem?

- Parece que é pra quando ele morrer ser enterrado aí.

- Ahn! V'ambora, disse o Raimundinho e os outros concordaram.

Eles se despediram na Praça do Mercado e combinaram um encontro no bar do CH antes de irem para a Câmara. Foram os quatro para suas casas. Raimundinho foi conversar com Delinha e decidir com a namorada o que fazer: se ia ou não pra a festa. Ele já sabia que ela nem tentar queria, pois sabia que ninguém iria concordar com ela, empregada da Dona Zefinha na festa dos brancos. Nem se falava nisso. Depois de alguma pouca conversa Raimundinho concorda com ela que ele também não deve ir. Mas ele vai no sereno ver o povo que vai entrar para ver se tem alguém de segunda com coragem para subir as escadas. Além dos garçons, músicos e mais gente que ia servir.

Lá pelas nove da noite os dois foram e ficaram em pé na calçada do Grupo. Ele tinha avisado aos outros que não iria e, apesar dos protestos, ele tinha notado certo ar de alívio no semblante dos amigos. É isso aí, pensou ele, não tem jeito não, quem nasceu pra cangalha, não dá para sela mesmo.

Quando os amigos chegaram para a festa, lá pelas dez horas, eles foram até onde o casal estava para um dedo de prosa. Foi aí que o Raimundinho notou que todos três já haviam bebido mais da conta, mas ainda podiam subir os dois lances da escada...

E foi o que eles fizeram ao som de uma marchinha cujos acordes se perderam no tempo... Chegando ao salão, já completamente lotado, eles descobriram cada um suas parceiras. A Corina estava com uma saia bem curtinha e um decote generoso que incitava o Jorginho a ter idéias profundas sobre a anatomia das garotas. Lúcia e Adília vestiam fantasias bem comportadas o que deixava os gêmeos meio desanimados, mas pensaram eles, vamos o ver o que acontece com o desenrolar da festa. Após uns quinze minutos de rodopios e pulos cada vez mais exagerados, os três jovens pares, ébrios do lança perfume distribuído pelo Sileno – ele deu uma bisnaga para cada uma das meninas – estão animadíssimos. Em uma volta do salão enorme se aproxima deles o Seu Paulino e fala, com sua voz mansa:

- Meninos venham cá, as meninas podem ficar. E vai para perto do biombo do mijador. Os três o seguem, já esperando alguma coisa estranha.

- Vocês não podem pular o Carnaval desse jeito.

- Mas de que jeito Seu Paulino? Respondeu Jorginho pelos três, imaginando que fosse por causa do lança perfume.

- Todo mundo usa seu Paulino. Disseram os gêmeos.

- Num tem nada disso. Vocês não podem entrar no salão e nem dançar com essas camisas, - elas são de manga curta. O Dr. Benito e a Dona Arilda proibiram a entrada de qualquer pessoa vestindo mangas de camisa. Não pode e vocês vão ter de sair.

- Mas, Seu Paulino, nós viemos de Fortaleza só para pular o Carnaval aqui e vocês vêm com uma dessas! Não é justo...

- Olha os pais de vocês estão sabendo disso e é ponto final. Vamos descer. Eu levo vocês até o corrimão da escada. Vamos.

Os três se entreolharam e olharam para as ampolas de lança perfume e acompanharam Seu Paulo até a saída. Ao chegaram perto do corrimão onde se agrupavam muitos amigos do mesmo tempo do grupo e algumas meninas, inclusive suas namoradas eles levantaram as mãos com as bisnagas e as arremessaram ao chão fazendo um barulho como se fosse uma tremenda explosão. Todos os circunstantes se entreolharam, mas não disseram coisa alguma, certamente com receio de uma possível repressão pelo Seu Paulino e pelo Dr. Benito que havia se aproximado para ver o desfecho da obra que ele comandara de longe.

Os três desceram os dois lances da escada atropelando muitos dos que estavam subindo fulos, mas sem nada poderem fazer. Era essa a "lei" do Dr. Benito e de Dona Arilda e do Clube deles. Logo ao descer eles viram o Raimundinho que, nesta altura, estava sozinho, parece que a Delinha já havia ido embora com suas amigas. Ele aproximou-se dos três e soube da expulsão. Os quatro, agora indignados, mas principalmente muito tristes, comentam com sua experiência limitada, como sua querida cidade, sem sair da escuridão dos séculos passados estava mergulhando na escuridão complementar deste meio século. Com um conformismo que não foi compartilhado por Raimundinho eles dizem:

- Felizmente vamos voltar logo!

Raimundinho diz:

- Jorginho, vamos amanhã no ônibus das oito?

O amigo responde:

- Vamos, mas...

- Mas o que rapaz?

- Vamos dar uma voltinha agora? Vamos meninos?

Sileno e Zelito respondem que não, pois vão viajar bem cedo para a California com o Coronel que havia chegado a pouco de Sobral. Eles então se despedem e saem pra Rua do Riachão onde moram.

Raimundinho e Jorginho seguem em direção à Rua da Loca e, perto, na rua de trás, eles vêm o Renato sentado na beira da calçada. Jorginho diz:

- Ô Renato eu ainda não tinha visto você. Como está?

- Tudo bem amigo. Vou bem mesmo.

Aí Raimundinho diz:

- Olá nego rei Renato tu não foi ver a festa do Carnaval?

Renato retruca, rindo:

Ora Raimundinho em festa de branco nem no sereno eu vou...

Sem ter o que dizer os dois continuam em seu passinho na direção já determinada. Bem na esquina com a Rua Lívio Barreto está o cabaré da Chica Eliana e eles, olhando de um lado pra outro, dão como que um pulo e logo se acham no meio do salão iluminado, mas com zonas bem sombreadas. Tomam uma mesa mais ou menos na penumbra, pedem duas doses de gim com gelo e ficam observando as garotas que se oferecem em mesas. Daí a pouco Jorginho diz para Raimundinho:

- Será que aquela moreninha ali sozinha é também...

- Que é isso rapaz! Que diabo ela faz aqui se ela não é da casa? Tu quer ir com ela?

Jorginho assentiu com a cabeça e daí a pouco a Izinha, pois este era o nome da mocinha que estava com eles. Ela não era mais do que uma menina de seus vinte e poucos anos. Era bem bonita com uma pele de cobre brilhante e olhos bem repuxados, como se fosse uma indiazinha que tivesse saltado de uma gravura de Debret. Jorginho ficou entusiasmado e logo estava perguntando, sob o olhar crítico de Raimundinho, de onde ela tinha vindo e mais besteiras. Izinha parecia divertir-se com as perguntas infantis daquele meninão nervoso. Ela bebia um pouco de cerveja quente e, quando terminou o copo pediu um outro, no que foi prontamente atendida. Raimundinho já estava se cansando daquela conversa a dois e decidiu ir embora.

- Pois ta bem Jorginho, amanhã a gente se encontra no ônibus, as oito, hein? E olhando para Izinha lhe dá adeus.

- E agora? Perguntou Jorginho a Izinha.
- Agora, seu bobo. Agora é cum nóis. Vamo.

E saiu puxando sua presa pelo braço até o quartinho e uma rede que recendia a humores presentes e passados.


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Friday, November 20, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 92


O poema Os cajueiros foi dedicado ao Prof. Francisco José Garcez dos Santos e publicado em Dolentes. Apareceu no Jornal do Ceará em 29 de setembro de 1905.

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Thursday, November 19, 2009

Aforismos do Velho Inaço 7


Quem me engana não vai pra diente. Deus protege os inocente.

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Wednesday, November 18, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 29

CONTRATO DE SERVIÇO

Jorge,

Informado de que Diomedes tinha levantado um novo rancho, mandei um positivo verificar e este constatou que de fato estava levantado, não só rancho como também o quintal. Peço-te falar com o camarada que tem feito a destruição ali para ir lá novamente destruir o rancho, levando duas garrafas de querosene para tocar fogo em toda a palha da coberta e por abaixo também o quintal. Dá ordem ao mesmo para tirar tudo que tiver dentro do rancho para fora sem estragar cousa alguma. Instrua ao encarregado do serviço para dizer que está fazendo estas destruições a mandado de meus filhos em Fortaleza. Convém que ele vá logo amanhã ou domingo muito cedo. Seria conveniente justar previamente o serviço oferecendo-lhe R$ 300,00. Caso ele não aceite pague o que for razoável, porém deve justar o preço antes dele ir.
Antecipando meus agradecimentos me firmo
Amigo certo
José Gomes


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Tuesday, November 17, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 107


CONVERSA QUENTE

Os lugares não foram distribuídos antecipadamente de tal sorte que cada participante escolheria o que lhe fosse mais conveniente. Eles escolheram uma grande mesa circular que comportava umas doze pessoas. Os três ficaram um ao lado do outro e ela tinha do seu lado esquerdo um enorme e louro sueco. Daí a pouco o casal notou que ela já tinha se dado a conhecer com o jovem. Eles notaram que o moço estava entusiasmado e desconfiaram que a conversa estivesse esquentando. Quando disfarçadamente ele olha por baixo da toalha imaculadamente branca vê que ela está com a perna cruzada, sem sapato e já tocando a perna do jovem viking. Eles dizem que ela não devia se comportar assim, etc., etc. Ela responde perguntando:
- E o que é que tem? E daí?


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Monday, November 16, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 74


A MÁSCARA

A bela e loura Carla bateu à porta, a mando do amigo médico, para vender-lhe uma máscara que, segundo ele, seria sua salvaguarda. Ele tinha problemas com o sono e todos queriam que se cuidasse.
A loura chegou e foi logo falando:

- Carla, esta é uma máquina respiratória, de nova geração, vem direto de Tucson, é eficiente e é muito barata, pois custa só mil dólares. Ele viu que ela abria a embalagem, já meio gasta de outras visitas e continuava a falar:

- Pois é Carla, é uma máquina de fabricação americana que produz um fluxo contínuo de ar que penetra as vias respiratórias do paciente. Como você já sabe, ela aquece a água e leva o ar umidificado e aquecido à temperatura do corpo de tal sorte que o paciente vai estar passando uma noite tranquila. O freguês olha espantado para a loura quando percebe que ela está se dirigindo, não a ele, o candidato em potencial em adquirir a tal máquina, mas a si própria. Ela continua a falar e ele, evidentemente, a escutar:

- Carla, diga ao senhor que, se ele quiser, você poderá estar fazendo uma demonstração aqui mesmo em seu domicílio.
O freguês, ainda mais espantado, diz à jovem loura e bela que ele vai pensar, pois certamente o remédio, isto é, a máquina, nesse primeiro teste, ajudada por ela, vai mesmo é matá-lo. Texto completo.

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Sunday, November 15, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 147


ESCOVA DE DENTES PARA O BRUGUELIM

Quico chegou pra sua mãe e disse:

- Mãe o Mauro é um chato, não vou mais brincar com ele.
- Porque menino?
- Olha Mãe ele sabe de tudo...
- E o que foi agora?
- Ele disse que vai comprar uma escova de dentes pro sobrinho dele que nasceu ontem, pois os dentim do menino vão logo crescer e ficar sujinhos!
- Que história é essa, menino? Já se viu?

No dia seguinte entra o Quico vindo da calçada onde todos os moleques se reuniam para brincar – não havia parquinho... Ele entra alegre, assoviando uma cantiguinha. Sua mãe ficou olhando pro menino aguardando o que viria e ela sabia que boa coisa não era...

- Alegre porque Quico?
- É que o Mauro não vai mais comprar a escova de dentes para o sobrinho...
- E porque não?
- Porque ele morreu ontem de noite...

O texto está completo.

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Falta memória: Proclamação da República.


Hoje, 15 de novembro de 2009, é o aniversário de 120 anos da Proclamação da República do Brasil. Ninguém lembra. Veja alguns poucos textos: da sempre presente Wikipedia e uma justa reclamação.


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Saturday, November 14, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 16


O MENINO


O menino acordou cedo, como de costume, pois não gostava de se atrasar para as saídas com o Renato. Hoje eles iriam pegar canário pros lados do Cemitério. O amigo lhe dizia que já tinha pegado muitos por lá com seu alçapão e, se eles levassem dois, seria bem mais proveitosa a saída. O menino tinha ganhado um bem novinho do Zé Costa, caixeiro da bodega do seu pai. (...)


Sentou-se à mesa e esperou que a Rosilda terminasse de por seu café, pois os adultos já tinham tomado o seu e ele, apesar de ter acordado cedo, viu, mais uma vez, que os outros madrugavam. Seu pai já tinha ido para a bodega no Mercado e a Mãe estava na cozinha metida no preparo do doce de caju para mandar para Fortaleza.

Ele gostava das tapiocas que a Rosilda fazia, pois eram bem fininhas e sequinhas e ele abusava da nata, de coalhada, para torná-las ainda mais gostosas; chegava a comer cinco ou seis com café de leite. Tinha ainda queijo de coalho e um pãozinho celestial – ele não dizia esta palavra – feito pelo padeiro da vizinhança; esse pão era bem pequeno, quase do tamanho de um dedo indicador, escurinho, e torradinho – o pão do Pompe. Desses, ele comia uns três ou quatro, agora com manteiga Patrícia, de lata.

A negra Rosilda adorava servi-lo e ficava ao seu lado, em pé, pois era sempre uma oportunidade de falar sobre o que se passava na cidade. Ela sabia que ele gostava de saber das novidades e ela podia, sem susto, expressar seus dotes de alcoviteira e fuxiqueirinha, como todo mundo em casa dizia. Certamente na cidade todos sabiam desses seus dotes.

Nessa manhã ela contou pro menino de treze anos que a Nicinha havia chegado à cidade, vinda pelo trem de Sobral, à noitinha.

- Você não a conhece? Ela é filha do Senhor Pereira. Ela falava escandindo as palavras, o que se notava bem na palavra S-e-n-h-o-r-r-r-r-r.

- Nunca ouvi falar nessa Nicinha. Ela é filha de quem mesmo?

- Do Senhor Pereira e eles moram no Parazinho. Ela é bem bonitinha. Dizem que ela foi fazer uma operação na Santa Casa e lá demorou bem um mês. Não se sabe que operação foi essa...

- Quantos anos ela tem? Perguntou o menino interessado.

- Acho que ela é assim da sua idade. Começando a rir e mostrando sua dentadura perfeita.

O menino logo perdeu o interesse, pois ouviu que o Renato estava chamando por ele da rua, mas disse:

- Rosilda, eu vou sair com o Renato e os meninos, mas quando chegar eu quero saber mais dessa história...

Saiu correndo levando a baladeira e o alçapão novo. Ao chegar ao portão da rua ele viu que o amigo levava o alçapão pendurado ao ombro por uma vara e viu também a baladeira de liga de borracha preta. Renato estava usando o seu inseparável chapéu de palha de carnaúba verde e encarnado.

Logo que o viu, Renato foi dizendo:

- Rapaz porque você não está usando um chapéu? Olha que eu sou preto e uso um o tempo todo e você, “um guardanapo”, vai se queimar todinho. Com isso ele queria chamar a atenção para a pele bem clara do amigo.

- É mesmo eu ainda não tenho um chapéu. Eu acho que não fico bem de chapéu, não.

- Que frescura é essa rapaz? Mais tarde você vai no Mercado, lá na bodega do Haroldo e compra um. Vamo logo!


Em casa, Vicente tomou seu café com um pedaço de pão seco, sobra de ontem. Sem falar com sua mãe, sempre ocupada na cozinha lá atrás ou no quintal dando de comer às galinhas, ele saiu logo e às carreiras pelo aterro. Ele volta rapidinho e grita:

- Mamãe eu vou tomar banho na Barragem com os meninos!

A mãe não o viu mais quando chega na frente da casa, pois saiu em nova carreira desabalada e chegou à estação antes do trem. Todos os dias, nas férias e no inverno, quando o Rio estava cheio, ele fazia essa aventura. Ia para a estação esperar o horário que vinha do Camocim e, escondido atrás de um monte de pedras bem pertinho de onde o trem parava, Vicente dava uma carreirinha e pulava para alcançar o último carro, assim que este passava, sem que o chefe da estação ou qualquer guarda o visse. Ele ia até a ponte onde havia uma parada para o trem tomar água. Essa manobra lhe economizava as energias para as aventuras no Rio com os colegas por quase todo o resto do dia, pois todos estavam de férias no Grupo.

Nesse dia ele tinha combinado com a turma do Barrocão e mais o Renato que morava na Rua Sete e o menino amigo dele que iriam se encontrar na Barragem. Tomariam banho e brincariam de jogar cangapé e depois pulariam da ponte, pois o rio estava muito cheio e era bom pra se pular até da última cruzeta, não tinha perigo nenhum. Ao chegar à Ponte os meninos do Barrocão já estavam tomando banho na Barragem e ele se juntou à turma nas brincadeiras e na busca de ramela que tinha muita mesmo.

A Barragem estava tão cheia que não dava para nadar perto da Ilha do Hugo, se eles quisessem nadar teriam de ir um pouco mais acima, a um dos poços, talvez o Pucu ou o Paraíso; lá as águas eram mais mansas, mesmo com o Rio muito cheio. Mas eles tinham de esperar pelo Renato e pelo menino, pois promessa é dívida.

Quando todo mundo achava que os amigos não viriam mais, pois já estava ficando tarde, os dois apontam lá na curva da estrada que vem da Praça da Matriz. Eles traziam os alçapões suspensos pelas varinhas de marmeleiro nos ombros e quando chegaram perto todos viram que só o Renato tinha um canário. O menino não tivera sucesso na sua caçada, mas certamente o nego rei iria lhe dar o que pegou.

A turma toda tinha ciúmes da amizade entre esses dois. Sem muita razão, pois o Renato, sendo filho da Dona Heráclia, lavadeira da casa do menino há muito tempo, era tido como de casa e os dois eram mesmo muito amigos. Deixa pra lá.

Como os dois estavam vestidos com calções por baixo das calças, foi só tirá-las e cair na água e se integrar às brincadeiras dos outros.


Lá pelo meio dia eles resolveram subir para o tabuado da ponte e pular nas águas revoltas e barrentas do Rio. Todos pularam e quando já estavam bem excitados um deles, parece que o Fernando, aquele menino que mora na Rua Sete perto do Renato e que tinha vindo com a turma do Barrocão, junto com um primo convida todos para pularem das cruzetas e lá do alto mesmo. Só ele próprio Fernando, o Vicente – sempre afoito – e mais um outro menino do Barrocão disseram que pulariam e começam a subir as cruzetas sem antes jogarem um olhar de desafio para os outros. O menino não resiste e, apesar dos apelos do Renato, acompanha os outros.

Forma-se como que uma fila de garotos subindo, um atrás do outro, até chegar à cruzeta apropriada, aquela de onde podiam saltar para o Rio e cair entre as pedras que todos sabiam existir, mas que estavam submersas agora e que eles desafiavam. A fila de garotos se movimenta a medida que cada um pula para as águas revoltas do Rio e, cada um a sua vez, emerge do fundo estampando um sorriso de vitória. O Fernando, o Vicente e o menino do Barrocão nadam para a enorme pedra que fica um pouco fora do centro. Todos agora ficam de olho grudado nas águas à espera do menino que havia pulado por último.

Passa o tempo e o menino não sobe. Talvez um, dois, cinco, dez, minutos. Nada. Não há sinal do menino. Ele não subiu. Todos se entreolham e começam a pular de volta às águas agora com uma tristeza imensa estampada em seus rostos infantis. Mergulham e sobem e nada. Renato que não havia pulado pula agora do tabuado e começa também a procurar o amigo. Nada. Após, talvez, uma hora eles estão mortos de cansados e desesperados. Nada. Somente a certeza que o menino, amigo de todos, desapareceu, é completa.


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Thursday, November 12, 2009

Aforismos do Velho Inaço 6


Velas acesas finanças alcançadas.

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Wednesday, November 11, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 28


SERVIÇO

Jorge,

É preciso notares que temos que mandar fazer aquele serviço antes que termine as férias do foro, para aproveitarmos a ausência do Juiz e promotor que deverão chegar antes do término das férias. O capitão Pádua está muito interessado pelo caso e foi ele que veio me dizer ontem para eu providenciar tudo antes da chegada daquelas autoridades. Podes lançar mão de automóvel ou caminhão por minha conta e tudo mais que for necessário para a efetuação do que pretendo fazer. Lembro-te que Fernando Silva e Joaquim Pedro, talvez pudessem indicar pessoas a altura para realizar este serviço.
Creio que quatro camaradas dispostos serão suficientes, pois se trata de uma única pessoa e não parece ter disposição para luta. É bastante atrevido e se acha influenciado pelos comunistas. Acho conveniente a pessoa indicada vir até aqui para eu dar instrução. A estrada que vem de Pereiro para Almofala, tem rodagem muito boa até a casa e a distância dali para a casa é menos de um quilômetro. Fica aquém do cemitério do Cocorote vindo de Pereiro. Aguardo, pois tuas providências com toda urgência.
Do amigo certo
José Gomes


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Tuesday, November 10, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 106


GIZ

O rapaz era duplamente estudante e professor. Cursava o último ano de Biologia e era professor dessa matéria em diversos colégios. Muito inteligente e muito arrogante. Chegava a ser insuportável. Certa ocasião assistia aula da disciplina ministrada por um professor sem muitos atributos didáticos. Ao fim da aula, quando o professor punha de lado o toco de diz que usara, ele levanta-se e diz:

- Um momento professor, não largue o giz, pois o senhor ainda vai precisar dele para me responder a essa pergunta...

O professor, adepto do contratudismo, retrucou:

- Vou largar o giz e não vou responder à sua pergunta...


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PRAGA


A cidade é conhecida como a das “cem torres” e é considerada como uma das mais bonitas do mundo. Praga, capital da República Checa, está situada às margens do Rio Vltava, na Boêmia Central, no centro da Europa. A cidade é famosa por sua arquitetura – O Castelo, sua cultura – nomes como os de Dvořák, Smetana, Kafka, Rilke, Mucha e muitos outros. Não esquecer da cerveja do país (Pilsner Urquell).


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Monday, November 09, 2009

O MURO DE BERLIM CAIU HÁ 20 ANOS


Há vinte anos no dia de hoje (9 de novembro) caia o Muro de Berlim. Esta estrutura foi construída em 1961 a fim de isolar o lado ocidental – capitalista - da Berlim dividida, do seu lado oriental - comunista. Durante a existência do Muro famílias foram separadas, foi proibido o trânsito e as pessoas proibidas de sequer visitar o lado ocidental. O fim da Guerra Fria criou as condições para a derrubada do Muro em 1989.

Há uma extensa literatura sobre o acontecimento e um grande número de sites onde se pode ler sobre a Construção e a Queda do Muro. (Wikipedia; g1; vídeo Globo). Leia também "Sete minutos que abalaram o mundo."


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Sunday, November 08, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 146


VOVÔ

Era muito querido por seus sete filhos e sete netos. Quando os filhos perceberam ele havia entrado em um processo de depressão muito grande. Quase não falava e aparentava não ouvir. Não lia, o que era seu hábito preferido e nem conseguia ouvir seus clássicos, costume mais recente. Também não conseguia mais andar, perdera forças nas pernas. Ficava todo o tempo em uma cadeira de rodas movimentada por todos na enorme casa. Seus netos desconfiavam de que ele ouvisse as exclamações de todos:

- Bota o vovô no sol! Ou então:
- Tira o vovô do sereno!

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Saturday, November 07, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 15


A FESTANÇA

O Secretário veio lá da terra do sol e do caju só para procurar um local adequado para a grande festança que a turma iria promover pela permanência do Nosso Guia no trono. Na verdade quem iria promovê-la eram os Poderes Públicos, todo mundo sabia, entretanto ninguém falava, pois mais uma vez se diga que sobre essas coisas não se fala podendo até pensar, mas só poucos e infelizes lá pensam, daí não havendo problema. (...)


Mas de qualquer forma a turma apoiava o que não era de admirar, pois todos já apoiavam o Homem o tempo todo. Tinham o rabo preso em algum gancho. O Secretário encontrou e alugou logo, com muita antecedência, - outros poderiam passar-lhe à frente, apesar de ainda estarmos em novembro, de 2012 o ano do que infelizmente poderia ser o último do reinado do Dr. Tal - a cobertura do Hotel Des Fleurs na Beira Mar para a grande recepção que os Poderes Públicos dariam. Com mais uma eleição do Nosso Guia, a enésima, todos na Cidade estavam eufóricos. A perspectiva de continuarem a se locupletar pelos próximos quatro anos e de se empanturrar, agora, na janta preparada pelas grandes cozinheiras e doceiras da Cidade, ajudadas por maitres dos melhores restaurantes como o L´e, com sua chef Marie Dobamá, enchia a boca de todos de uma saliva espessa e orgulho desmesurados. Grande também era a expectativa de beber do melhor uísque e do melhor vinho, ambos escolhidos pelo próprio Dr. Tal.

Para o povo rude ele escolheu uísque Jóquei Clube – para lembrar dos anos 1950 quando tudo começou – e vinho Sangue de Boi, este para homenagear sua esposa, a prefeiturável na próxima eleição, que era gaúcha de Pelotas, onde o único filho do casal, o Herdeiro do Trono, tinha nascido. Para si próprio o vinho escolhido era um Romanée Conti da safra de 1960 e o uísque era um Dimple de 15 anos, na falta de um melhor, pois o seu contrabandista preferido não chegara a tempo trazendo a primeira opção que era um Laphroaig de 18 anos. Na noite aprazada Nosso Guia sentou-se, feito um imperador persa e parecendo Alexandre Magno, em sua cadeira de espaldar alto, encimada por um florão que era ver uma coroa imperial e toda forrada com cetim branco imaculado, tendo ao lado sua esposa preciosa, consorte de todas as horas, a espera dos convidados. Estes foram chegando, a princípio os secretários e suas famílias, em carruagens, ou melhor, em carroças que devido à decoração diversa distinguia cada um dos clãs da Cidade. Eles vinham de lá, parecendo até que haviam cronometrado a marcha, pois chegaram minutos antes da abertura dos salões, sendo virtualmente despejados em frente ao hotel onde estavam à espera o Filho do Homem, como todos chamavam e o Primeiro Casal aprovava assim como os secretários mais acachapados de seu Glorioso pai. O secretário das Finanças chegou em carruagem vermelha, brilhando de luxo, trazendo uma pasta 007 que ninguém sabia o que continha, mas todos imaginavam; o Secretário da Agricultura, este chegou em um carro último modelo usando combustível ecológico do tipo animal, mas mal cheiroso; o Secretário da Cultura, que já tinha recebido o bilhete azul, veio carregado por uma carruagem de deslumbrante azul piscina para, apesar de tudo, render tributo a seus patrões, os donos e detentores do eterno saber na região; um carro branco como as nuvens trouxe a Secretária da Educação, sabia-se - ela não fazia mistério -, que sua missão na pasta era a de negar toda a velha, tradicional e pouca história do lugar, pois seu patrão, o Glorioso, só admitia história de sua família e mesmo, somente a dos últimos vinte anos, para trás era tudo irrelevante. Em seguida entram as pessoas que haviam chegado cedo e estavam esperando pelas ordens do Príncipe de Gales – ôps, ato falho! - e seu ajudante o Joaquimzão, - que não tinha nada de “zão”, pois ele era quase um anão e ademais por que esse camarada chegara a essa posição se ele estava antes do “outro lado”? São, então, introduzidas no Grande Salão Oval as professoras e professorinhas dos diversos grupos e escolas, estes, é bom salientar, tinham todos os nomes de parentes e aparentados do Nosso Guia. Não importa. Foi introduzida, Dona Francisca, a Sábia da Cidade, pois ela tinha mania de corrigir todos os documentos que chegavam às suas mãos bem como os livros didáticos usados pelas crianças, alunas de toda a Cidade, isto por mandato da Secretária da Educação; foram admitidas também as demais lentes. Essas outras professoras, como não tinham expressão própria, se é que se pode dizer assim, formaram grupos concêntricos ao redor do trono, pois era mesmo um verdadeiro trono como se estava vendo. Chegou a vez dos profissionais liberais, como os médicos, que quase não os havia na Cidade; dos farmacêuticos, entre esses se destacava o casal nota vinte, dez mais dez, pois não há nota de vinte, só oncinhas e peixinhos, famoso na Cidade por sua rápida ascensão financeira e pela projeção social; dos veterinários, pois havia um bom número desses, dado o enorme mercado para eles uma vez que era grande a quantidade de gatinhos e gatinhas e cãezinhos de estimação o que compensava a falta de rebanhos, pois estes só fazem sujar as ruas; e dos gerentes de bancos e poucos de seus funcionários; chegou a vez dos titulares dos diversos cartórios e dos cartorários, principalmente aqueles que faziam as transcrições de documentos, enfim boa parte da “soit disant” classe média da Cidade. Todos esses formaram mais um círculo em volta do trono de Nosso Guia. Para não alongar muito, vamos encerrar a lista dos entrantes de valor, mas sem antes deixar de citar os empreiteiros amigos que tinham aberto filiais na Cidade para ajudar em sua reconstrução, pois eram eles que estavam fazendo o embelezamento dela, derrubando casarões dos séculos XVII-XIX para construir prédios modernos. Por fim foram admitidas pessoas da plebe rude, era assim que o Dr. Tal se referia ao povo que havia votado nele e sempre o elegia e reelegia e a quem ele não gostava de homenagear de maneira nenhuma.

A festança começou com a distribuição, pelo Nosso Guia, de muito uísque Jockei Clube e vinho Sangue de Boi aos homens e mulheres que estavam organizados em filas ao seu redor. Após receber sua ração de bebida homens e mulheres continuavam organizados assim e se dirigiam para a mesa do bufete para pegar salgadinhos às mancheias, como é o costume nessas festanças, ninguém esperou, mas havia salgadinhos volantes para as personalidades mais importantes. Após uma meia hora as pessoas, já desinibidas, começaram a formar grupinhos de 5 -10 para melhor conversarem, e elas comentavam quase unanimemente a toalete dos membros da Primeira Família – ôps quase que se diz Família Imperial – toda ela mandada fazer nos maiores estilistas da capital. Nosso Guia vestia uma guayabera branca do tipo usado em Cuba feita em linho S120 e impecavelmente engomada. A Primeira Dama portava um longo preto brilhante da lavra de Dona Raimundinha que era da Cidade, mas tinha uma butique na capital, o vestido brilhava intensamente devido aos milhares de lantejoulas e lampadinhas chinesas de Natal que acendiam e apagavam em uma produção do Pedrinho o eletricista mais importante da Cidade. Quando todos estavam quase melados Nosso Guia deu a ordem para o início do jantar, isto é, início da passagem das pessoas pelas mesas com os diversos pratos expostos e postos à disposição dos famélicos. Havia de tudo, saladas de legumes frescos, frutas da estação, arroz brunido e arroz tipo carreteiro e Maria Isabel, feijão de corda com jerimum, feijão preto cheio de carnes, quase uma feijoada, vitelo ao molho de pimenta, carnes nobres com cortes argentinos, filés em diversos molhos, perus de Natal, galinhas secas da Palma, capotes, carne de criação, carne de porco, camarão ao molho de coco, lagosta com creme de mandioquinha, sirigado em manteiga e fines herbes. Era, enfim uma infinidade de pratos que daria para alimentar um grupo de umas mil pessoas que era bem mais do que aquele que rodava em seus círculos, agora uma grande espiral, na cobertura do Hotel Des Fleurs na Beira Mar.

Enquanto o Sangue de Boi e o Jóquei Clube corriam soltos o Príncipe Herdeiro recebeu ordens de seu Querido Pai e Mentor para o início da rodada de doces e docinhos. Estes eram queijadinhas, rosinhas, rosquinhas de açúcar e muito doce de banana e caju, todos produzidos nas futuras instalações das fábricas que já lhe pertenciam e que iriam exportar para a China e outros paises do Bric. Quando a rodada de docinhos terminou Nosso Guia tomou o microfone e fez um discurso de cerca de meia hora quando falou de seus planos para o futuro que incluíam asfaltamento de todas as ruas e das rodovias que chegavam até a Cidade, reconstituição da estrada de ferro, estabelecimento de linhas de metrô de superfície ligando os diversos bairros, abertura do aeroporto com um heliporto anexo e muitas outras obras. Quando ele estava enumerando todos esses futuros benefícios de seu próximo mandato o Príncipe de Gales aproximou-se e cochichou em seu ouvido e foi aí que o Dr. Tal acrescentou ao grande número de obras a climatização do estádio de futebol local com a instalação de um poderoso sistema de ar condicionado central. Quando ele terminou ouviu-se uma salva de palmas muito grande que foi interrompida a seu pedido quando então ele comunicou que todas essas obras seriam financiadas pela grande indústria de lamparinas de folhas de flandres que a iniciativa privada em associação com o poder público estava para inaugurar no bairro da Várzea. Nessa altura houve um ruído vindo de alguns setores insatisfeitos que reclamavam da falta de uma banda de forró que lhes permitisse arrastar os pés e balançar os quadris; infelizmente Nosso Guia, como não gostasse de sambar, não tinha permitido a contratação de uma banda. Após mais palmas Nosso Guia pediu a todos que debandassem em silêncio e tomassem suas carruagens coloridas para voltar à Cidade e retomar seus múltiplos afazeres público-privados.




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POEMAS BARRETO/XAVIER 91


Um poema de Lívio Barreto (1870 – 1895)

PARA ESCREVER

Mergulho a pena no tinteiro... cismo...
Em quê? e a pena entre os meus dedos presa,
Como uma alma suspensa sobre o abismo
Da dor, treme de frio e de surpresa.

Caos de pensar! Nevoeiros da incerteza!
Silêncio! Calmaria!... atroz mutismo!...
E o coração é uma fornalha acesa,
Uma cratera a vomitar no abismo!

E neste vácuo, neste desespero,
Quero debalde, inùtilmente quero
Dizer... nem sei o que dizer, Jesus!

Tenho o mar sob o peito e a tempestade
N´alma, e sou mudo! ó santa, tem piedade!
Surge, beija-me e diz: - faça-se a luz!

- 92 -




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Thursday, November 05, 2009

Aforismos do Velho Inaço 5


É mior depois da enchente, pois é quando o Home come mais nos cocho do gunverno.

continuação do texto/postagem

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Wednesday, November 04, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 27


PAPAGAIO

Todas as manhãs ele saia de seu negócio e dava uma volta pela Praça do Mercado entrando em quase todas as bodegas. Em quase todas ele tomava emprestado, - a alguns amigos e, às vezes somente conhecidos -, dinheiro para pagar as compras de couros de bode, cera, algodão que havia feito desde cedo a seus fregueses no grande armazém que fora de seu avô. Esses fregueses, muitos deles compadres, mesmo sabendo que ele estava quase falido, não tinha mais posses, como no passado glorioso, continuavam a descarregar dos burros e caminhões os produtos de sua lavra no armazém de Jorge. Ao fim do dia ele levava a um desses amigos fiéis, para endosso, um papagaio que seria descontado no dia seguinte no Banco.


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Tuesday, November 03, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 105


CLIQUE !

Ele era um jovem professor, mas já tinha um currículo de fazer inveja a qualquer um. Tinha feito um pós-doutoramento em Boston com renomado professor adquirindo prática em novas técnicas de Biologia Molecular. Estava, portanto, aparelhado para trabalhar e produzir muito e com grande qualidade. Logo após sua volta instalou-se em um apartamento no bairro mais chique da cidade, comprou um carro do ano e ganhou um laboratório espaçoso na Universidade. Conseguiu reunir um grupo de jovens e entusiasmados estudantes. Avisou ao diretor que ficaria em casa à espera de um clique que lhe indicaria o momento de ordenar a seus estudantes iniciarem um novo experimento.


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GRANJA - 155 ANOS


Há 155 anos a Granja era elevada à categoria de cidade. O povo da antiga Macaboqueira, representado por alguns poucos de seus habitantes, mostrados na montagem, deveria estar de parabéns, mas não está. Até quando?

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Monday, November 02, 2009

BUDAPESTE


A antiga Panonia dos romanos deu origem a atual Hungria que tem por capital a cidade de Budapeste às margens do Danúbio. A cidade é formada em sua origem por dois povoamentos, Buda e Peste, que somente no ano de 1873 foi definitivamente fundida em Budapeste, a capital.

A cidade é excepcionalmente bela e conserva muito de sua arquitetura antiga à qual se mescla uma moderna. O Palácio de Buda, o Parlamento, a Ponte das Correntes, o Mercado, o Memento Park (Parque das estátuas) são atrações da cidade, entre muitas outras.

Aqui estão links para ler e ver mais sobre a capital húngara (I, II, III).

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Sunday, November 01, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 146


DONA JOANINHA

Ela era muito eficiente quando se tratava de atender jovens estudantes à procura de moradia na cidade grande. Americana, ela havia sido funcionária de seu governo no Rio de Janeiro. Gabava-se de ter conhecido pessoalmente o presidente e sua família. Vinte anos depois suas feições lembravam às de D. Joaninha e pareciam ser o próprio retrato da primeira dama.


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Saturday, October 31, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 14


CINEMINHA

Marco era um voltante do Maranhão onde fora em busca das origens do Coronel; ele procurara os registros de casamento no velho cartório do primeiro ofício e o registro de firmas dos primórdios da Associação Comercial e tivera algum sucesso, pois agora ele sabia que o Coronel Carvalhedo havia casado com uma das filhas de João Pinto Ribeiro, um abastado comerciante na praça de São Luis. O que restava a ele agora era colocar tudo em seu devido lugar para a apresentação que faria no Gabinete de Leitura do Doutor Antonio Augusto no próximo sábado. E esperar que aparecesse alguém para ouvir o que ele tinha para contar. (...)


Sentado em frente ao micro ele olhava a parede branca ou seria melhor dizer de um creme bem claro, mas sem dúvida imaculada, sem qualquer mancha de dedos ou riscas de lápis. Ele comparava essa pureza ou limpeza com o estado atual, exaurido, de sua mente: após ter fechado os arquivos Word onde gastava tempo escrevendo contos, histórias, lembranças e impressões do que lhe acontecia diariamente, após fechar o dicionário no qual tirava suas inumeráveis dúvidas, ele que não sabia nada da língua, após fechar os sites de jornais - sempre abertos, os blogs de política, pró e contra o governo, que ele não era radical; os blogs dos amigos e das amigas, um destes tornou-se um ponto de apoio e reflexão importante; sites de humor e de mulheres bonitas, somente a tela de proteção restou brilhando no monitor. Por mais que procurasse alguma coisa de importante gravada em sua mente nenhuma mensagem se apresentava. Para que havia ele passado boa parte de sua vida alisando bancos de escola? Agora, quando se aproximava seu inarredável encontro com Ella acontece-lhe o inesperado, talvez alguma coisa que traga um pouco de animação para esses dias tão secos por que tem passado. Aconteceu que súbita e vagarosamente a tela brilhante do monitor se iluminou como se fosse uma projeção cinematográfica. Certamente não como em um cinema, que se tem um escurinho aconchegante, mas tão forte como se ele estivesse em uma sala com um moderno projetor. Ele caminhava na calçada da morada e, do lado oposto, abria-se uma porta com cenas nítidas como se fossem as cenas iniciais de um filme, mas só que sem os créditos, que esses muitas vezes atrapalham o espectador ansioso pelo início da projeção. Vagarosamente aparece na tela uma figura quase que angelical, com seu cabelo bem preto e curto ainda assim amarrado no arremedo de um coque preso com uma pequena fivela preta. Ela, em câmara lenta, mexe e remexe as peças de roupa que tem para vender. Com o continuar do filme Marco até adivinha que ela vai virar a cabeça em direção à frente da tela como que procurando por seu olhar. Ela o fez e com um bônus: sorriu para ele. Ele então devolve o sorriso acompanhado de um curto aceno que ela logo retribui. O filme é interrompido pela porta ondulada de ferro que fecha a loja de eletrodomésticos vizinha à lojinha onde ela trabalha. Em frente ao micro ele tem um sobressalto e acorda desse sonho estranho, mas delicado. Marco não consegue mais tirar os olhos do monitor que pisca o tempo todo. Subitamente a sua sessão de cinema recomeça e, agora, ele resolve avançar até a lojinha. Depois de algum debate interno ele decide que essa seria a melhor solução, pois ele não iria deixar a daminha – assim ele passou a chamar a garota do coque curtinho - sair de seu trabalho só para falar com ele. Ele chega à frente do balcão e ela o encara com um leve sorriso e pergunta o que ele deseja. Ele responde:
- Eu mesmo não sei. Talvez uma roupinha para criança.
- É, mas eu acho que você não quer mesmo uma roupinha para criança, não...
- Verdade. Eu só quero conhecer você, pois esta é minha primeira experiência com uma daminha que me lembra muito a Rosa do Cairo. Você já ouviu falar na Rosa do Cairo?
- Não. É algum filme?
- É e você parece com a Rosa.
- Será que tem esse DVD na locadora? Se tiver então podemos vê-lo juntos lá na casa da minha madrinha.
- Então ta. Eu vou alugar o filme. Até a noitinha.




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Friday, October 30, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 90


Este é um poema de Lívio Barreto (1870 – 1895)

MANHÃS DE OUTUBRO

Frias manhãs de Outubro, neblinosas,
Cheias de aroma, cheias de tristeza
Para minh´alma que se estorce presa
Nas rôscas das saudades angustiosas,

Sois para mim como esfolhadas rosas
Cobrindo o altar onde minh´alma reza,
E onde arde noite e dia sempre acesa
A lâmpada das dores tormentosas.

Frias manhãs de Outubro, eu vos adoro
Mesmo cheias do pranto das neblinas
Que é como o pranto que eu de noite choro.

As vossas névoas trêmulas e finas
São como contas pálidas; e eu oro
Vendo-as descer, as pálidas neblinas!

- 93 -


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Thursday, October 29, 2009

Aforismos do Velho Inaço 4


Os voto dos finado ajuda os negóço do Home.

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Wednesday, October 28, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 26


COSTA SUJA

O caso da família Cerqueira Vale é interessante. A mãe da jovem Joana, Dona Ana Francisca Pereira esposa do Coronel Viriato Raimundo da Costa queria casá-la, mas isto não era fácil, pois faltavam pretendentes adequados. Certo dia apareceu na Ribeira um moço bonito chegado da terrinha e que havia sabido da vontade da mãe da jovem em casá-la. Ao apresentar-se à matriarca ela lhe pergunta o nome de batismo:

- É Tomas Cerqueira da Costa, Senhora.
- Pois não casa com minha filha com esse nome!
- ...
- O Senhor vai ao Cartório do compadre Miguel Polycarpo e diz que eu lhe mandei trocar seu nome para Tomas Cerqueira Vale que é o nome que o Senhor vai dar para a família que formar com minha filha. Eu já tou cheia de tanta Costa suja na minha.

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Tuesday, October 27, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 103


VENENO CRUEL

Eles eram bem considerados na cidade e por isso tinham um grande número de afilhados, como era o costume. Esses afilhados e seus pais, os compadres e comadres, vinham da roça ou dos matos, como se dizia, para fazer compras, ir à Igreja, procurar médicos ou outros recursos de saúde e demoravam alguns dias hospedados na casa grande. Uma dessas afilhadas, uma menininha veio, acho do Recanto, para se tratar, pois tinha tomado acidentalmente, com certeza, uma solução de soda cáustica usada para lavagem de garrafas. Ela ficou em uma camarinha escura, e raramente se mostrava às crianças. Passaram-se alguns poucos dias e soubemos pelos adultos que ela havia morrido. Depois soubemos que seu nome era Hilária...


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Monday, October 26, 2009

ISTAMBUL

(Clique sobre a figura para melhor visualização)


Afora as primeiras povoações do Neolítico a cidade de Istambul, atualmente com ca. de 12, 5 milhões de habitantes, originou-se como Bizâncio, colônia grega dos anos 600 AC. Após ter sido tomada pelos romanos e renomeada de Nova Roma, a cidade, agora Constantinopla – cidade de Constantino – foi sede do Império Bizantino ou Império Romano do Oriente. Os turcos otomanos tomaram a cidade em 1493 transformando-a na capital seu império que durou até o século XX.

Istambul, a “Pérola do Bósforo”, é uma cidade fascinante por sua história, arquitetura e pelo povo. Aqui postarei de minha escolha, algumas imagens tomadas em viagem recente. Por outro lado há textos interessantes sobre a cidade aos quais remeto à consulta do leitor: na Wikipedia, “A Istambul de Orham Pamuk” entre milhares de outros.


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Sunday, October 25, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 145


NO CÉU-DA-BOCA

Ele era um famoso Biologista Molecular, com grande experiência em clonagem de genes de plantas. Certa ocasião fazia uma conferência para uma assistência superior a duzentos cientistas de diversas nacionalidades. Já quase ao final da demorada palestra ele a interrompe para beber água. Afirmou então que iria “tomar um copo d’água antes que minha língua pregue no céu-da-boca”.


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CONTOS DA RIBEIRA 13


A HISTÓRIA DE DARLAN

Sentado no banco da pracinha subitamente João é interrompido por um barulho, barulho mesmo - não é ruído - de uma moto preta que ele logo identifica como uma Honda Titan ES que risca à sua frente e para. De dentro do capacete também preto logo retirado sai a cabecinha bem formada de Anahí (bela flor do céu). Ela lhe dá um bom dia alegre dizendo: (...)


- Oi! Eu ainda não lhe havia visto! Quando você chegou?
- Oi! Que prazer! Eu cheguei há uns três dias e até perguntei por você...
- Olha, eu passo os dias trabalhando, quando não é no escritório viajo para o interior vendendo esses cavalos de ferro!
- Ôps! E você gosta do trabalho? Pelo menos dá dinheiro?
- Dá sim, pois estou bem melhor de situação do que naquela época da Faculdade.
- E o namorado? Ainda é aquele mesmo?
- Não... Estou com outro. Bem mais velho, talvez seja assim da sua idade!
- E eu, hein?
- Ah! Nem lembra! Me dá uma saudade daquela época em que a gente ia ao Campus todos os sábados... Escuta o que você faz aqui?
- Ué! Estou lendo aqui nesse sossego. E você vai para onde?
- Vou na casa de uma amiga, nós vamos alotar por aí...
Anahí faz um gesto de quem vai colocar o capacete e ele vê e quer que ela se despeça:
- Então ta... A gente se vê por aí...
- Tchau.
- Tchau.

Não havia muita escolha, ou melhor, não havia escolha alguma, pois a única praça na cidade que havia sobrado da fúria destruidora era a da Igreja de São Benedito. A praça é tão pequena que não tem mais de seis bancos e um outro tanto de algarobeiras. Pois foi para lá que ele se dirigiu na manhã do domingo para continuar a leitura do romance que havia interrompido já antes da viagem. Ele retomaria a leitura de “Vidas Secas” e estava curioso para ver como Graciliano Ramos contaria a história de Fabiano e de sua família de retirantes. Na verdade a pracinha tinha mesmo sobrado da destruição quase total das praças da cidade. Ele até se perguntava se essa faina destruidora tinha alcançado os distritos. Será que ela tinha chegado a Paraubina, terra de gente influente? Ou a Ibutira, onde até a Informática e Internet tinham chegado com tudo? Havia lá um moço que vendia materiais de informática e outro que tinha um blog, isso no distrito com somente 8000 habitantes. Estes novos equipamentos poderiam ser um freio para esses desmandos que todos vêm, mas ninguém diz ou faz coisa alguma. E há quem diga ser isso democracia. Restava conferir, como dizem os jovens, talvez sem noção de que se pode conferir muita coisa. Pois bem, ele sentou-se em um banco, desses antigos, de concreto, reminiscência dos primórdios da nova era, talvez do início da década de 1960. João não estava sentado comodamente, mas contraditoriamente ele se dispunha a esperar que alguém passasse a caminho das compras, pois a praça ficava no caminho do Mercado, o reconhecesse e parasse para um dedo de prosa. Não precisava nem reconhecê-lo, era só estar interessado em trocar ideias com alguém tão estranho que, para ler um pouco, tivesse tido a coragem de sentar-se em plena manhã, - noves horas, mais precisamente, - de um domingo ensolarado, mas fresco, pois havia chovido na noite anterior. E tinha sido até agradável dormir em sua rede vermelha.

Como fazia já bem mais de uma semana que ele havia interrompido a leitura de Vidas Secas e não havia marcado a passagem interrompida João demorou algum tempo para localizar o trecho que lhe interessava. Após reiniciar a leitura ele descobre que Fabiano vai em cana porque um meganha não simpatiza com ele e convoca o destacamento para lhe dar uma surra.

Nisso um carro preto, rebocando enormes caixas de som, estaciona a cinco metros, se tanto, de onde ele está. Ao descer do carro o motorista se dirige ao reboque e começa a mexer em fios e tal. Mais que depressa João abandona o banco que o havia recolhido desde cedo e vai em direção a, nem mesmo ele sabe aonde. Pois não há mais praças nas proximidades. Ao ouvir o barulho que vinha da pracinha em que estivera até ha pouco ele sabe que um dos candidatos a prefeito vai fazer propaganda enganosa pelas ruas da cidade, em pleno domingo. Ele acertou, mas não totalmente, pois o carro sai vomitando seus sons ensurdecedores e deixa a pracinha e seu banco livres para estacionar bem mais lá longe. Ele volta para continuarar a leitura interrompida.

Daí a pouco e ele já empolgado com as aventuras de Baleia, aparece-lhe à frente um senhor alto, com a barba por fazer e vestindo camisa e calças surradas que o cumprimenta:

- Bom dia. E faz menção de ficar ali em frente estático. João diz:

- O Senhor não quer sentar?

- Não obrigado, vou passando, pois vou até a padaria ver se compro pão e leite pro café. Ele continua: - Como é seu nome? Eu já lhe vi pela rua...

- Eu sou o João, filho do Sebastião Cunha.

- Ah! Conheci muito seu pai, um homem honrado e muito instruído.

- E o Senhor qual seu nome?

- Eu sou o Darlan, filho do Antônio Bento. Sou primo do Francisco Bento. Eu acho que este trabalhou no Armazém do seu Pai, no tempo antigo.

- É, pode ser, mas eu não lembro. E o que você faz?

- Eu sou aposentado pelo Estado. Eu era carpinteiro, mas fazia de um tudo. Trabalhava de empreitada e quando aquela ponte grande estava sendo construída o engenheiro responsável soube que eu era capaz e me chamou para fazer os moldes dos pilares de concreto.

- Ah! Legal!

- Pois é. Tive muito trabalho, mas como eu era bom mesmo no meu ofício a ponte foi inaugurada no prazo. Eu não tive muito estudo sabe? Mas saber fazer os cálculos todos eu sabia. Ainda trabalhei alguns anos em construção com esse engenheiro, mas aí tive um problema de saúde e fui aposentado.

- E a aposentadoria dá para o sustento de sua família?

- Dá o que Seu João! As despesas são muito grandes. Meu filho mais velho tem problema nos rins e precisa tomar muitos remédios que são caros como todos. Imagine o Senhor que só uma caixa custa quase cem reais e dá só para quinze dias. O dinheiro não dá pra nada. O pior é que eu fui enganado por essa história de aposentadoria consignada.

- Como assim? Não pode esquivar-se João.

- Nem queira saber. Apareceu um dinheiro na minha conta, pouco mais de mil reais, e no Banco disseram que era o empréstimo que eu tinha feito! Se eu não fiz empréstimo nenhum...

- E então?

- Aí não teve jeito, pois o dinheiro ficou sem ser meu! Mas, o pior foi que minha mulher quis gastar o dinheiro e eu fui no Banco e tirei...

- E agora?

- Pois é agora estão-me cobrando e eu não tenho como pagar...

- O Senhor já foi no Defensor Público?

- Já e ele me disse que não pode fazer nada, pois eu tirei o dinheiro.

- Ah Seu Darlan...

- Pois é Seu João. Bom, eu vou embora pegar o pão e o leite. Foi muito prazer conhecer o Senhor.

- O prazer foi meu. Até logo.

João voltou para a tragédia de Fabiano e sua família que, pelo menos estava só nas letras de Graciliano Ramos.




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Sunday, October 11, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 144


ENCONTRO NO AVIÃO

Ele foi quase o último a entrar no avião. Encontrou seu lugar no corredor e se ajeitou com a bagagem e o casaco. A cadeira vizinha estava ocupada por uma pessoa, mulher jovem, de quem, a princípio ele não viu o rosto. Quando o avião estava em velocidade de cruzeiro e a cabine mergulhada na escuridão, só com claridade da tela onde o filme da noite estava para começar, a jovem se mostrou em toda sua beleza. Ela era morena, alta, cabelos pretos, lisos e longos; os olhos eram dois poços de uma escuridão mais negra do que qualquer coisa que fosse possível imaginar. Logo depois era ele quem dormitava. Algum tempo depois ele sente uma pressão sutil em seu braço e desperta de um semi-sono. Levanta os olhos e vê aquele rosto lindo sorrindo para ele. Ele a reconhece e responde à sua indagação silenciosa: - É! Dormi...


O texto etá completo.

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Saturday, October 10, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 12


A CHEGADA D´ELLA

São seis horas e ele ouve um carro parar em frente e logo seguem dois toques breves de buzina. Ele sabe quem está lá e dá uma ordem com sua voz que está bem fraca:

- Ô Maria Inês vai lá fora e diz que eu vou já. Que estou terminando umas coisas e vou num minuto. (...)


A empregada, um misto de governanta e enfermeira olha pra ele e hesita em cumprir a ordem. Jorge insiste e ela vai intrigada. Quando volta entra no escritório e diz que a pessoa que o procurava tinha ido embora. Ela aproveita para dar-lhe um copo de suco de caju diet sem gelo que é como ele gosta, ou melhor, suporta. Maria Inês não traz mais as frutas cortadinhas com mel de que ele gostava tanto. A dieta do Patrão, como ela o chama, está restrita a sucos e de vez em quando uma barrinha de cereais, também de baixas calorias. Ela não sabe mais o que fazer, pois ele está emagrecendo a olhos vistos, com olheiras e, para piorar não se cuida mais. Ainda há dois dias ela transmitiu pra ele o telefonema que atendeu:

- Patrão a Marcinha do salão ligou e disse que estava-lhe esperando.

Ele tirou o olhar da tela do micro e balançou a cabeça em sinal de negação.

Maria Inês mantinha seus filhos informados de tudo. Eles vinham visitar o pai, mas nada, o velho era teimoso e não os atendia. Ele parece ter desistido de tudo e só se alegrava um pouco quando os netos apareciam. Mesmo assim ele só suportava a visita de um de cada vez.

Jorge quer por força fugir d´Ella, mas está parecendo que é muito difícil. Quem ele acha que poderia dar-lhe apoio nessa fuga está se afastando, talvez as pessoas já estejam enjoadas dos apelos silenciosos que ele faz. Pudera Jorge não verbaliza esses pedidos e, como é normal, as pessoas não lhe prestam atenção. Para um camarada de oitenta anos vividos sem nenhum sobressalto ninguém desconfia que ele precise de ajuda. Talvez uma ou outra. Talvez. Mesmo aquela bela figura que o acompanha desde que a viu pela primeira vez na Malhada naquela tarde ensolarada e quente, parece ter-lhe abandonado.

Ele resolve viajar. Sempre que Jorge vai passar alguns dias na Malhada ele imagina que resulte em alguma coisa boa. Ele espera ver sua “bela figura”, como ele se acostumou a pensar na menina entrevista na tarde ensolarada. Mas, nem sempre é agradável ir na Malhada. Ao contrário ele tem muitas contrariedades, dissabores. É uma merda mesmo. Já fazia anos que ele não dirigia para lá, pois tinha receio de não terminar a viagem e por isso chamava o Pereira para suas viagens; às vezes este lhe levava até o interior onde visitava parentes ou o suposto túmulo de seu avô, lá no Pé da Serra. Logo que o motorista chegou eles viajaram, pois Jorge estava nervoso, impaciente, achando que, dessa vez, alguma coisa de bom lhe aconteceria na Malhada. Quando chegaram a Irauçuba ele nota que havia esquecido de pedir ao Dr. Airton uma receita para seu remédio, sem o qual não se afastava mais de um instante; se lhe faltasse teria que voltar, pois o Tropital só se vende com receita médica e obter uma não seria coisa trivial. Enfim, ele foi arriscando; se ele visse que iria precisar do remédio ele voltaria e, em quatro horas estaria de volta à civilização. Na Malhada, na casa de sua irmã e cunhado, ele esperava se alimentar melhor e pegar uns quilos. Com isso talvez enganasse a Ella que o vinha assediando com mais frequência ultimamente. E sempre havia o consolo de ver a “bela figura”. Mas ele a via constantemente, como agora, projetada nas copas das árvores que passavam enquanto o carro seguia velozmente.

Chegaram à Malhada no domingo à tarde Jorge ficou conversando com a irmã e o cunhado até bem dentro da noite, comendo ostras frescas acompanhadas de um bom vinho, sempre levado por ele, pois o casal gostava bastante, tanto do vinho e ostras como, talvez principalmente, da conversa com a qual todos renovavam os laços de amizade que sempre tiveram. Os três já eram bem entrados em idade e tinham tido as mais diversas experiências, principalmente as familiares, estas sempre desgastantes; discuti-las e aprecia-las sempre foi objeto dessas conversas no Grande Casarão herdado de seus avós.

Jorge decide, ainda no domingo, viajar até ao Pé da Serra visitar alguns parentes para uma boa prosa; muitos dos tios de seu pai ainda moram lá, apesar das inúmeras dificuldades que tinham para manter as pequenas nesgas de terra herdadas de seus pais e avós. Ele sabe que o Pereira não pode levá-lo até lá, ademais seu carro não pode penetrar as estradas de barro sempre esburacadas e tortuosas; seu cunhado telefona para o Martinho e combinam a viagem para cedo na manhã. Este é um motorista eficiente e prestativo que conhece não somente as estradas, mas todo o mundo pras bandas da Serra. Quando chegam à casa do Velho Inácio, na Furna da Onça, Jorge está muito cansado e perturbado; todos na casa notam isso e a um aviso do Martinho preparam uma rede branca, bem limpa e a armam na varanda e levam-no para ela. Jorge consegue dormir um pouco não sem antes ter mirado a “bela figura” que o acompanha sempre projetada na parede branca da varanda. Ele se anima quando as primas que rodeiam o avô o acordam para o almoço. Ele não deixa de apreciar a juventude e beleza dessas primas, distantes herdeiras das velhas tradições familiares e tribais e que também lhe dão atenção especial. A conversa é agradável e, pelas três horas é servido um café gordo, mas rápido, pois os visitantes têm de voltar para a Malhada para não chegar com noite alta.

Martinho se apressa na direção da D20 e tomam logo caminho, pois eles têm de subir um pouco a serra e entrar pelo Socavão do Sancho para depois pegar a estrada que os levará até a cidade. Ao chegar ao Socavão que traz o nome de um antepassado Jorge sente uma necessidade estranha de descer e procurar alguma coisa que ele mesmo não sabe o que é. Encabulado pede a Martinho que pare o carro diante de uma casa em ruínas bem dentro do socavão e desce.

A casa está abandonada, caindo aos pedaços, suja, imunda. Jorge entra e se depara com salas e quartos em abandono completo. Um dos quartos tem uma porta encimada por uma placa, um frontão, com os dizeres “Bem-querer”. É um quarto de crianças com uma penteadeira tendo um espelho grande, vertical, todo enferrujado. Ao aproximar-se do mesmo ele vê a imagem de uma menina – é quase uma menina – de olhos redondos, grandes, aquela “bela figura” de sempre, que lhe sorri e lhe aponta para seu cabelo curto e negro amarrado em um coque. Jorge quer abraçar a figura, mas encontra a lâmina do espelho que se desfaz em inúmeros pedaços. Somente nesse instante ele sente a presença definitiva d´Ella, mas aí não havia como evitar seu chamado. Ele também não queria mais.

Martinho vem correndo ao ouvir o som de vidros quebrados e encontra Jorge abraçado a um pedaço do espelho.

5/6 jan 2009


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Thursday, October 08, 2009

Aforismos do velho Inaço 3


Quero vê tu comê quando o Ináço morrê!

continuação do texto/postagem

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Wednesday, October 07, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 25


LENDO “SCIENCE”

Jorge conheceu Rivanda quando precisou de uma arquiteta para planejar a casa que queria construir na Prainha. Ele tinha comprado o terreno há muito tempo, quando ainda era casado. Ele queria muito ter uma casa onde fosse passar os fins de semana com filhos e netos que estavam começando a chegar. Eles tiveram diversas entrevistas com essa Rivanda e, por fim, chegaram a um acordo sobre o projeto, o orçamento e o detalhamento final. O plano de construção da casa teve de ser adiado por alguns anos, mas foi retomado e Rivanda permaneceu como a construtora, pois fazia parte de uma firma que também se encarregava disso. Ela frequentemente levava a ele no apartamento detalhamento de plantas, orçamentos e folhas de pagamento para ele dar sua aprovação. (...)


Nesse sábado quando ela chegou Jorge estava dormitando em sua cadeira de rodas na varanda com uma revista aberta sobre as pernas. Pé ante pé ela foi dar uma espiada nele. A revista estava aberta em um artigo sobre sinalização em plantas e Rivanda foi logo pensando:

- O velho está devagarzinho voltando a se interessar por Ciência. Será bom isso?

Alguma parte de seu pensamento respondeu:

- Como é que vou saber? Talvez ele não devesse se interessar muito...

Ele estava no laboratório quando uma de suas estudantes veio lhe entregar um envelope volumoso com a marca inconfundível do “Express Post”. Ele logo adivinhou o que iria ver. Quando abriu viu que era o manuscrito que havia enviado para publicação em “Plant Physiology” acompanhado de uma carta do editor da revista e mais algumas folhas soltas que deviam ser os pareceres dos revisores. Ele folheou o manuscrito enviado há duas semanas e notou logo, por sua experiência, que havia sido rejeitado, pois estava todo marcado com lápis vermelho, cheio de pontos de interrogação e de exclamação. Leu a carta do Editor e ficou pasmo com a frase escrita no final: “This manuscript can not be published in this journal in anyway!” Procurou nos pareceres recebidos e percebeu a arrogância e ignorância desses camaradas. É certo que o tema em que eles estavam trabalhando era novo, mas nem por isso deixavam de ser verdadeiras as experiências que eles fizeram. Em um dos pareceres o “referee” afirmava que certamente os autores haviam inventado os dados! Foi muito duro deglutir mais uma recusa; ele já estava acostumado a isso, mas sempre que acontecia ele se revoltava, algumas vezes sem razão, mas muitas, coberto delas. “Pode deixar”, ele falou em um de seus monólogos solitários, “Vamos enviar para outra revista, para outra, e outra mais até que essa droga seja publicada!”

- Leluli chama teu avô. Está na hora do almoço!

Quando o menino aproximou-se da cadeira viu que o avô estava com um sorriso maroto nos lábios.

- Vô você tava sonhando com alguma coisa boa?


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Tuesday, October 06, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 102

TESE MISTERIOSA

Ele era estressado, como se diz hoje. Estava sempre a pensar que alguém queria enganá-lo, roubar-lhe as ideias. Foi para os Estados Unidos fazer doutorado. Passou seis anos para defender uma tese. Quando voltou para assumir seu lugar na Universidade, todos perguntaram sobre os trabalhos que ele publicara a partir dos resultados de sua tese. Ele sempre se esquivava. Certo dia resolveu abrir o jogo e contar o que havia acontecido. Como ele desconfiava que seu orientador quisesse lançar mão de seus resultados e publicá-los como sendo só seus, ele resolve fazer o “copyright” de sua tese. O resultado dessa atitude é que nem mesmo o orientador pôde publicar o trabalho, mesmo com o nome do seu aluno estressado.


O texto está completo.

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MUNDO MÁGICO NO INSTITUTO JOSÉ XAVIER


O Instituto José Xavier de Granja (CE) abriu (5 de outubro) a exposição Mundo Mágico, uma mostra de brinquedos antigos como, rói-rói, bonecas de pano, trapezistas, pipas.

A exposição objetiva resgatar brinquedos desconhecidos das crianças de hoje, além de mostrar os trabalhos de desenho e histórias produzidos pelas crianças que participam do Projeto Cantinho da Leitura e na oportunidade do Dia da Criança.


continuação do texto/postagem

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Monday, October 05, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 73


SOPA JAPONESA

Ele estava sentado diante de uma mesa tomando uma sopinha, dessas instantâneas, quando chegou um japonês com seu prato de sopa e também se sentou. Este começou a tomar a sua e ele então viu que havia um pequeno peixe vivo no prato do outro e que o camarada tentava leva-lo à boca. Ele falou alguma coisa, reclamando. Subitamente um compatriota do japonês toma as dores do primeiro e diz que ele tivesse mais respeito com os costumes deles, porque no seu país era assim. Ele balançou a cabeça e continuou a tomar sua sopa sem peixe um vivo.



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Brasileiro é 80% europeu


A FOLHA DE SÃO PAULO de hoje (5/10/2009) apresenta matéria de Reinaldo José Lopes sobre a ancestralidade dos brasileiros:

Dados de DNA das cinco regiões do país mostram impacto prevalente de ancestrais brancos, com indígenas em último. Características como cor da pele, dos olhos e dos cabelos correspondem a pequena parte do legado genético que a população carrega


Leia matéria no link da FLSP

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Sunday, October 04, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 143


FRANCISCO CÉSAR

O Chico, além de ter uma fixação em nomes e seus significados, era um sonhador, vivia nas nuvens. Sonhava com épocas gloriosas e grandezas do passado mesmo sendo seu passado muito simples. Certo dia ele apareceu no bar com uma história fantástica. Contou que havia sonhado ser um guerreiro gaulês, sob o comando de um chefe ligado a Vercingetórix, em luta contra uma legião romana. Depois que seu comandante morreu eles se dividiram e passaram a agir isoladamente e a fazer guerra entre si. O Chico continuou a contar o seu sonho e disse que, após ter vencido uma batalha e de ter ganhado a posse de uma grande região na Aquitânia, foi coroado rei, dando início a uma nova dinastia. O nome que ele escolheu foi Cocisfran Rasec I, passando à História com o apodo de O Sonhador.

O texto está completo.

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Saturday, October 03, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 11


OLHOS NEGROS

Sentado em sua cadeira no estúdio ele pensava, pois entre muitas outras coisas Jordão também fazia isso, era uma de suas ocupações. Mas, o que se passava agora é que ele só pensava nela, mesmo ao fazer a barba, todas as manhãs; o pior é que Jordão não só pensava, mas a via no espelho, isto é, via sua imagem no espelho do banheiro; ele continuava a vê-la por todo o dia, ao virar uma página do livro que estava lendo, ao olhar para a parede coberta de quadros dos mais diferentes artistas – reproduções, bem entendido – ao olhar para as portas e por aí vai. (...)


(...) Quando saia de casa a imagem dela o acompanhava em cada rua e esquina, em cada sinal, em cada vitrine de loja e em cada café, na bilheteria do cinema. Era uma verdadeira perseguição. Ele via sua imagem com os olhos e com a mente – não seria o mesmo? - e, ele a via também quando, no quarto, deitado em sua rede vermelha, em completa escuridão e com os olhos fechados ele via seu rosto redondo, os olhos negros e brilhantes, o cabelo curto e preto com um coque minúsculo preso com uma pequena e estreita fita vermelha. O pior eram os olhos negros, pois eles emitiam um brilho forte, magnético que o atraíam particular e irremediavelmente. Atraiam para onde e para o que? Ele não conseguia ter uma resposta para essas duas simples indagações. Nessa noite ele via seu corpo de costas e a reconhecia perfeitamente, pois ele tinha, muitas vezes, mirado e admirado suas curvas quando repousava nua, deitada na cama no apartamento da Rua do Azevedo. Agora, quando depois de pigarrear, ele consegue atrair sua atenção para ver seu rosto brilhante e ela se volta em sua direção ele não vê mais que uma face sem nenhuma definição de rosto, boca, nariz e os grandes olhos negros com os quais ele estava acostumado a se mesmerizar.

Fza 18mar09

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Friday, October 02, 2009

FÓSSIL DE ARDI, DE 4,4 MILHÕES DE ANOS, FOI ENCONTRADO NA ETIÓPIA



Esqueleto antigo pode re-escrever o mais antigo capítulo da Evolução Humana.

Pesquisadores descobriram o mais velho esqueleto conhecido de um provável antepassado humano. Ardi - fêmea de 4,4 milhões de anos foi desenterrada na Etiópia e é mais velha que Lucy, 1 milhão de anos mais jovem. A espécie habitava florestas e podia viver no solo ou sobre árvores (Veja matérias na revista "Science" e no "Jornal do Brasil").


Texto completo; leia mais no link.

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Thursday, October 01, 2009

Aforismos do Velho Inaço 2


Velho não pode gastar, pois tem de economizar para seu futuro.

Texto completo.

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