Monday, August 31, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 68


DEVANEIO

Estavam todos reunidos no pátio da Universidade para ouvir o Homem. Ele falou por mais de uma hora e depois as pessoas ficaram por ali conversando. Subitamente ele me chamou e disse que Carlito e o Zeferino são os que estavam atrapalhando as coisas. Mas aí ele disse: - Eu tenho uns pranos prá ajudar a Universidade. Faria isso e aquilo e mais aquilo outro e construiria sobre aquele terreno de brejo que ficaria duro como um cimento. Nisso ele bate numa chapa de cimento (toc, toc) para mostrar como ia ficar a obra: forte como quê. Então ele disse: - Agora eu quero que você se encarregue de por esse negóço prá funcionar. Não me lembro o que respondi, mas ele chegou até mim, bem perto mesmo – eu senti cheiro de cana - e me abraçou dizendo: - Agora rai. Eu passei a achar que essa seria uma ótima oportunidade de alguma coisa para me ocupar na aposentadoria sem precisar voltar para o sertão. Quando estou nesse devaneio aparece ao meu lado o Zeferino e balança a cabeça, entre estupefato e incrédulo...

(Fotografia Raul Touzon)

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Sunday, August 30, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 139



CACHORRO DOIDO

“Zerantonio cachorro doido não compre carne de porco”
foi assim que o Coronel leu o telegrama chegado do Açude e enviado por seu padrinho, ele mesmo um Coronel. Como ele não entendeu o significado do texto pediu a seu compadre Charriel que lhe explicasse. O compadre, - sabido que só ele, sugeriu que o seu padrinho, lá do Açude, estava prevenindo ao afilhado que não comprasse da carne do porco que havia morrido da mordida de um cão hidrófobo e enviada para o açougue do Chico Mende.

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HISTÓRIAS DA BIOQUÍMICA NO CEARÁ


Devido a problemas de administração o acesso ao site José Xavier Filho (http://www.jxavierfilho.hpg.com.br/ ) hospedado no portal hpG está bloqueado. Sendo assim, o download dos textos dos livros HISTÓRIAS DA BIOQUÍMICA NO CEARÁ e ACEITES E REJEIÇÕES tornou-se impraticável.

Com relação ao primeiro texto, HISTÓRIAS DA BIOQUÍMICA NO CEARÁ, o autor está providenciando sua publicação em outro site, o que será anunciado oportunamente. No entanto, para interessados, pode-se providenciar a remessa se for solicitada ao autor no endereço
jxavierfilho@yahoo.com.br.

Em 30/8/2009

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Saturday, August 29, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 6


ÁGUA DE LURDES


Margarida havia chegado à noitinha de Fortaleza, ela vinha de sua terceira viagem à Europa fazendo parte do grupo do Padre Misael, da Paróquia de São Bento. Esse amigo professor dos tempos do colégio gostava de organizar grupos de viagem e ela tinha se associado a um deles. Era uma turma boa com muitas ex-colegas e rapazes amigos da Capital. Ela sempre conseguia alguns dias de folga na Coletoria com o Seu Quintino, amigo de seus pais e também dela. Fazia poucos anos que seu pai conseguira essa colocação, a única que seu amigo e compadre Senador Otávio tinha oferecido. Este velhote mulherengo, só queria saber das meninas do Cariri, pois as da Zona Norte ele não precisava conquistar para que seus pais continuassem a votar nele. (...)

O que se há de fazer! De qualquer modo o ordenado dava para suas despesas e suas poucas viagens e ainda ajudava um pouco em casa. No dia seguinte à sua chegada, ao passar pelo quarto dos meninos, vindo do seu, - o Chiquinho já havia levantado - ela vê a Rosilda fazendo uma trouxa do lençol e do pijama do menino. As duas se olham e balançam a cabeça. Ela vai para a mesa da varanda onde já estão todos reunidos, - os que estão na Granja -, para o café da manhã. Após o café ela abre as malas e passa a distribuir as lembrancinhas que trouxera da viagem. Há uma animação geral, pois sabem que a Margarida não esquece ninguém, ao contrário de seus irmãos quando vêem da capital ou mesmo de uma viagem mais longa, nunca trazem presentes para ninguém. São uns pães-duros! Com a mala no chão ela vai tirando as peças de roupas sujas de mistura com as limpas e passando para a Rosilda que tenta separa-las, mas desiste e reúne tudo, finalmente, numa trouxa para lavar. Há seu tempo todos recebem sua lembrancinha: a Mãe ganhou um Escapulário do Carmo, de Roma, o Pai uma piteira de casco de tartaruga, comprada na Estação Termini, a Letícia, a irmã mais nova, ganhou um “gigolete”, na moda por aí afora, o Chiquinho ganhou uma caneta esferográfica das novas. Os outros irmãos estavam em Fortaleza e, por isso, não iriam receber presentes. Margarida trouxe muitas medalhinhas compradas nos diversos santuários em que estivera: São Pedro em Roma, Lourdes e a Igreja da Madeleine em Paris. A Rosilda ganhou uma dourada, assim como a Maria das Graças, a Raimundinha, a Rosa e a Diva. Ela trouxe outros presentes, como pequenos frascos de perfume comprados às dúzias em Paris, na Galeria Lafayette e que faziam um enorme sucesso, esses ela daria para colegas do trabalho. Para ela mesma um montão de blusas e sapatos e broches – não se sabe mesmo onde ela arranjava tanto dinheiro para isso tudo, é o que parecia pensar a Rosilda, sempre observando tudo. Ela tirou da mala também, meio que escondido, uma garrafinha azulada, de vidro, com água benta de Lurdes que, dizem, servia para de um tudo, e um pequeno pacote contendo selos. Quando foi depois do almoço ela foi para a Coletoria, sabendo que deveria ter ido logo pela manhã, mas sem se importar com o possível carão do chefe. Ela foi recebida com alegria e inveja, nesta ordem ou na ordem inversa, tanto fazia, e ficou satisfeita. Ela trouxera presentinhos para as companheiras de trabalho e também para o Seu Quintino.

2

Ninguém imaginaria que o pacotinho com selos que ela escondia, era o presente que a moça tinha trazido para seu chefe. Ele ficou babando quando Margarida passou-lhe o pequeno pacote com o logotipo da Filatélica Delcampe, de Roma, contendo uns selos triangulares da Etiópia, com leões e cobras, em verde, vermelho e azul, raríssimos. Ele era um filatelista e ela era uma das poucas pessoas na cidade que sabia dessa sua mania. Imagine se sabem que Seu Quintino coleciona selos! Ele tinha herdado a paixão por eles de seu pai e de seu avô. Este fora um homem importante no começo do século, pois fora advogado, professor no Liceu e um político, infelizmente oposicionista. Cargos na família eles nunca tiveram e só com o trabalho puderam galgar alguns poucos postos na administração. O forte da família era o ensino – professores e donos de colégios – e participações no comércio. Seu pai fora sócio de uma das grandes firmas importadoras de automóveis da capital. Seu Quintino havia seguido carreira na burocracia estadual, na Secretaria de Fazenda, e tinha chegado a Coletor. Para assumir a Coletoria ele, ou melhor, seu pai teve que dar garantias ao Estado. Ele estava agora em Granja e às vésperas de ser transferido para Fortaleza. Estava satisfeito. Ele havia feito boas amizades na cidade, principalmente entre os comerciantes de quem tinha de cobrar os impostos – sempre mais altos e que os fazia quebrar, ele sabia. O que fazer, pois ele tirava daí o sustento de sua família. Quando a filha do Seu Artur conseguira a colocação na Coletoria ele ficou animado, pois sabia que a família dele era gente muito boa e muito inteligente, se bem que isso não contava muito na maioria dos círculos. Mas ela se mostrou uma garota trabalhadora e os dois se tornaram amigos. Ela sabia de seu pecadilho de filatelista e o estimulava fornecendo-lhe selos que chegavam na correspondência de casa. Ele agradecia com muitas gentilezas. Era por isso que o povo da cidade falava de um caso entre eles – que não tinha nada a ver. Não obstante, Seu Quintino tinha outros pecadilhos entre os quais o de ser um raparigueiro de marca, mas meio enrustido e também gostava de promover festas, sempre no mês de julho, a Festa do Chitão, que durava uma noite inteira de sábado e para a qual ele convidava amigos da cidade e de toda a Zona Norte.

3

Depois da farra da distribuição dos presentes que Margarida tinha promovido pela manhã, Chiquinho e Letícia foram preparar os deveres para as aulas do Colégio. Eles estudavam na parte da tarde e só voltavam depois das seis horas quando seu pai estava voltando da loja e Margarida já tinha chegado da Coletoria. O menino era mirrado, estudioso e já sabia datilografia, pois queria ser funcionário do Banco do Brasil. Ele tinha quase 17 anos e a Letícia andava pelos 14. Essa era danada e só vivia dizendo que queria ser atriz de cinema ou teatro, mas não se preparava para isso, mas como o irmão, já estudava datilografia e se preparava para o que desse e viesse. Emprego na Granja era muito difícil e ir para Fortaleza parece que Seu Artur não iria agüentar mandar mais dois.

Nessa noite o jantar foi puxado à galinha à cabidela, para comemorar a chegada da filha mais velha. Ela gostava de galinha preparada de todo jeito, mas tinha sempre de ser galinha caipira, dos matos, dessas que comem matinhos e pedrinhas, nada dessas galinhas que estão vendendo agora, de aviário, dessas ela não gostava. O jantar foi puxado a vinho, pois a moça gostava de tomar um bom vinho tinto, costume adquirido em suas viagens à Europa, principalmente à Itália, onde nas cantinas come-se tudo, mas sempre acompanhado de um bom vinho da casa, geralmente um Chianti. No jantar o vinho era mesmo nacional, pois na Granja, nada de sofisticado chegava mais, pois os tempos bons mesmos, quando se tinha até vinhos franceses, já tinham passado há muito. A refeição, como era normal em sua casa, foi puxada por uma conversa animada: todos queriam saber o que ela tinha visto, visitado nas estranjas e Margarida querendo saber o que tinha acontecido na pequena cidade. Quem tinha morrido nascido, casado, quem estava de caso e, na família, como iam os estudos dos dois mais novos e que notícias tinham dos outros que estavam em Fortaleza. Da Mãe, ela queria saber como iam as atividades na Igreja e do Pai, como iam os negócios, sempre ruins, como sabia que ele responderia. Sobre política falava-se pouco, pois depois que o novo oligarca tinha tomado o poder o silêncio sobre o assunto na casa de Seu Arthur tinha reinado. O jantar e as conversas estavam demorando, mais do que o normal e o Chiquinho já estava ficando nervoso, pois ele tinha marcado encontro com a Delite e já passava das oito. Ele fez um sinal para Nair, a menina que serve à mesa, e pediu um pouco de doce de caju em calda, tomou um gole dágua um só, e saiu correndo. Sua mãe dá-lhe uma ordem que ele mal ouve:

- Olha lá Chiquinho não vai voltar depois das dez!

- Sim mamãe! Amanhã tenho prova com o Padre Adilson, logo às sete horas!

4

A Delite era colega de turma do menino e os dois se conheciam desde quando eram bem crianças. A menina era uma moreninha, de cabelos lisos e olhos negros, amendoados e parecia uma indiazinha. Ela já era moça feita, como se dizia, e agia como tal. Gostava de se cuidar e de se enfeitar e conseguia encher o Chiquinho de ciúmes com seus olhares e conversas com os outros coleguinhas. Mas, bolinação era só com o Chiquinho, de quem gostava muito mesmo. O que era surpreendente, pois suas colegas todas sabiam que ela era uma namoradeira de marca maior. Nessa noite ela esperava pelo namorado em frente de casa, na Praça da Matriz e quando ele chegou saíram para dar uma volta na Avenida e depois sentaram em um dos bancos mais internos do passeio, já desfigurado. O que eles conversavam depois de terem passado a tarde toda no Colégio era segredo de namorado. Mas o que eles faziam estava quase à vista de todos, pois não escondiam de ninguém seus intensos carinhos. Após uns poucos beijos quentes Delite vira-se para o namorado e, franzindo a testa, pergunta com um sorriso estranho:

- Chiquinho você não está sentindo um cheiro esquisito?

E ele:

- Esquisito como?

E ela:

- Assim como se fosse xixi. Veja aí atrás, pode ser que alguém tenha urinado atrás do banco.

O menino inclinou-se para olhar atrás do banco de cimento frio e, empertigado, disse nervoso:

- Não tem nada aqui atrás! Você ta impressionada com alguma coisa! Não sei por que isso agora.

A menina lhe diz do problema que tem nas narinas, diagnosticado pelo otorrino de Sobral com quem ela se consultara havia uns poucos dias.

- E o que foi que essa besta disse? Falou o menino.

- Ele disse que eu tenho uma rinite crônica que prende os cheiros por muito tempo e desse modo eu sinto mais que as outras pessoas. Ele até passou um remédio para botar no nariz, só uma gotinha em cada narina, todo dia. Ele diz que remédio bom para fazer efeito só precisa de uma dose pequena. Vamos ver, mas eu acho que não estou melhorando depois de quase uma semana.

Chiquinho se desconcerta um pouco com essa história e resolve ir para casa:

- Posso pelo menos lhe dar mais um beijinho?

- Certamente, seu bobo. Disse ela fazendo um muxoxo, sem que ele visse.

5

No dia seguinte o Tio Ângelo – chamavam o velho de “Seu Anjo” - passou em casa e convidou Chiquinho para um fim de semana no Serrote. Esse irmão de seu pai morava na velha fazenda que fora da família e onde criava uns bodes e plantava alguma coisa, além de tirar o carnaubal. Ele dizia que a cera não dava mais lucro, não era como naqueles tempos, mas ele insistia no ofício, o que era um mistério. Sua mulher, a Titia, e ele viviam isolados, mas perto da cidade de modo que estavam sempre de visita ao irmão. O menino era como que o filho que eles não tiveram. No sábado pela manhã o velho passa para pegar o menino que vai à sua garupa e só leva uma muda de roupa, pois na fazenda ele tem tudo de que precisa, pois a Titia insiste em manter lá um monte de roupas e outras coisas dele. É uma viagem curta e logo ao chegar ele vai procurar o Carlito, o filho do morador, seu companheiro de brincadeiras desde muito tempo. Saem os dois para a beira do rio, tomar banho e por as conversas em dia. Quando está na hora do almoço eles ouvem o chamado do Tio Ângelo e saem correndo para lavar as mãos. Hoje o Carlito almoça e janta na Casa Grande. A Titia preparou junto com a Dona Carminha, a mãe do Carlito, uma carne de carneiro cozida e com muito molho de que o Chiquinho gosta muito, principalmente se tiver um osso com tutano. Após se fartar da carne e do arroz branquinho e da farofa de torresmo ele espia logo para ver se tem os doces de sua preferência: o de goiaba em calda, o de banana em rodela, o de mamão com coco. Ele adora doces e faz uma verdadeira salada com eles. Mas não engorda. Não se sabe por quê. Já o Carlito também gosta de doce e come muito e é bem gordinho, aproveitando tudo o que come. A tia é muito preocupada com a saúde do sobrinho e sabe do seu problema noturno, como não podia deixar de saber. Após o almoço os dois meninos saem à procura de algumas cabras que estão desgarradas e só voltam no fim da tarde depois de tomarem um novo banho no rio. À noitinha eles tomam café com leite e comem cuscuz com nata de coalhada. A tia fica olhando para o sobrinho para ver se ele regra o refresco de tamarindo que toma. O Carlito se despede e vai com sua mãe para casa, bem pertinho, pegada ao curral. Antes de sair Dona Carminha arma a rede do Chiquinho no lugar costumeiro na sala bem pegada ao quarto do casal. Ela sabe que a tia do menino vai precisar tê-lo perto nessa noite.

6

Ele entrou no pequeno barco que estava ancorado à beira do rio e, remando com força, leva-o para o meio da correnteza que era forte naquele trecho. Não sabe mesmo porque razão teve de levar a pequena embarcação para o meio do rio, mas o fato é que em pouco tempo perdeu o controle e começou a ficar preocupado. Será que eu vou poder remar para a margem? Pensava ele. Nessa altura ele sente que o barco está fazendo água, que entra por diversos orifícios no fundo. Subitamente ele acorda com um barulho de líquido caindo sobre metal – é o seu xixi caindo na bacia de alumínio que Dona Carminha tinha colocado debaixo de sua rede, de ordem da tia. Ele não podia fazer nada, mesmo porque não houve tempo. Como o dia já tinha amanhecido logo chega a Titia e, com um sorriso maroto, pergunta a ele o que havia acontecido. Ele diz encabulado:

- Eu sonhei que tava remando num barco lá no rio e depois começava a entrar água por baixo...

- E aí você deu uma tremenda mijada, meu filho... Agora eu quero ver se a sua urina é doce. O povo diz quem tem urina doce tem diabetes mija na rede. Pode ser que isso explique esse seu costume, Chiquinho. E aí a gente pode ver se sua doença tem cura ou não. E completando ela diz:

- Será que a Delite já sabe disso? E olhou para ele com ar de mofa. Mudou de assunto e disse:

- Vamos ver que gosto tem...

Toma uma colherinha de chá e mergulha no líquido amarelo citrino que se acumulou na bacia de alumínio e recolhe uma dose. Leva aos lábios, experimenta com a língua e não satisfeita põe o líquido na boca e o engole:

- Chiquinho, é doce, mas não é como doce de goiaba de que você tanto gosta. Acho que você não tem diabete não. E o xixi na rede pode ser que não tenha nada a ver com isso. Você vai ter mesmo que ir ao médico com sua mãe.

7

Incontinência urinária juvenil ou IUJ era este o mal do Chiquinho. Quem disse isso foi o Dr. Zé Maria, de Sobral, ao fim da conversa que teve com o menino e sua mãe.

- E o remédio para isso doutor? O menino ta crescendo e também estragando tudo o que é de rede e lençol e o assoalho que no quarto dele é de taco!

- Não tem muito que fazer, pois a Medicina é moderna, mas é omissa nesses casos. Certamente algumas medidas paliativas podem melhorar o quadro. Falou o Dr. Zé Maria.

- E que medidas são essas, Doutor? Pergunta aflita a Mãe.

- Vejamos: não beber depois das seis da tarde, colocar um urinol de ágata desses altos no quarto, colocar uma bacia de alumínio debaixo da rede, dar três voltas ao redor da mesa do jantar com a rede de dormir sobre a cabeça e rezar para Nossa Senhora do Junco todas as noites, essa parte na presença de todo mundo.

- Mas Dr. Zé Maria, nem uma pílula ou xarope?

- Nada disso! E além do mais uma coisa é certa, quando ele casar isso sara completamente.

- Ta certo Doutor, obrigado. Até a próxima vez.

E dirigindo-se para o filho que estava com os olhos esbugalhados e quase chorando:

- Vambora Chiquinho!

- Chiquinho você nem me contou... Eu soube que você foi ao médico em Sobral com sua mãe?

- E quem foi que lhe contou? Égua, aqui na Granja a gente não pode fazer nada que todo o mundo sabe na hora.

- Menino, eu não sou “todo mundo” não!

- E quem foi que lhe disse?

- Foi a Clarisse da Dona Joaquina. Ela disse que viu vocês no consultório do Dr. Zé Maria.

Flagrado antes de arranjar uma mentira melhor, Chiquinho admitiu ter ido para se consultar de alguma coisa chamada de “Incontinência” e que tinha a ver com problemas do crescimento... Delite olhou para ele e sem acreditar de todo disse:

- Incontinência? Você num ta nem no Exército! Olha lá Chiquinho se você tiver mentindo para mim, nunca mais quero te ver!

- Num tem nada de mentira Delite! É que eu tenho muita coisa pra estudar, você bem sabe, e não to conseguindo. E lá em casa fica todo mundo perguntando como eu vou no Colégio. Agora que a Margarida chegou, eu só queria que você visse, ela quer ver minhas notas a toda hora.

- Bem feito de você num estudar direito...

- Mas eu vou resolver tudo isso.

Eles estavam meio perturbados com essa conversa e não deu tempo de namorar, namorar mesmo como se deve namorar.

Chiquinho fez um pouco de carinho na menina e puxou-a para dar-lhe um beijo e disse:

- Deixa eu ir Delite já estou ficando com sono e preciso estar bem aceso para a aula de amanhã.

8

O menino tinha outros planos e logo que chegou a casa conseguiu encontrar, na Eletrolux, entre garrafas de coca-cola, de cerveja, jarras com suco de tamarindo, feijão de ontem, carne moída e o escambáu, a garrafinha azulada com a água de Lurdes que Margarida havia trazido. Ele olhou para um lado e para o outro e enrolou a garrafa em uma toalhinha e saiu para o banheiro do seu quarto, levando também um abridor de garrafas e uma colherinha das de chá. Trancado no banheiro ele abre a garrafa com cuidado para não marcar a tampa de metal e põe água na colher até enchê-la. Põe o líquido na boca e fica esperando sentir um gosto ou não gosto diferente do gosto de água ao qual ele está acostumado, mexe com a água na boca e, sem mais esperança de sentir alguma coisa sobrenatural (seria?) ele engole aquela esperança líquida de uma só vez. Fecha a garrafa e, pé ante pé, a coloca de volta com precaução na mesma posição na geladeira. Volta para o quarto e deita em sua rede vermelha, que sempre recendia a mijo.

Chiquinho acorda cedo e, sentindo-se como sempre, todo molhado de urina olha para a bacia e vê que ela guarda tanta urina como nos dias anteriores.
À noite ele toma uma outra colherinha de chá da água trazida de Lurdes pela irmã e, novamente, amanhece mijado e, aparentemente a mesma quantidade de urina está na bacia. Isto o deixa chateado, mas não pensa em desistir da experiência: ele quer saber mesmo se os poderes milagrosos da água benta de Lurdes o curarão e decide aumentar a dose, pois não acredita nessa história de que dose pequena é que faz efeito. Chega à noite e ele retoma o ritual de apanhar a garrafinha e tomar uma colher da água, só que agora é uma colher das de sopa que ele ingere. Chega a manhã e ele vê que ainda não foi dessa vez que a urina na bacia diminuiu, mas na quarta noite, depois de tomar, mais duas colheres de sopa ele notou que a mijada tinha sido bem menor do que as anteriores. Resolvido a ir em frente com sua experiência Chiquinho resolve tomar três colheres de sopa; ele apanha a garrafinha de água na Electrolux e a colher de sopa, toma todas as precauções, mas nota uma pequena mossa na tampa e também, coisa que lhe tinha passado despercebida, a água na garrafa está diminuindo. Ele muda o plano original e toma quatro colheres de sopa e com isso, segundo vê, o nível da água desceu perigosamente para quase a metade do que havia antes. Seja o que Deus quiser, pois se a experiência, ou melhor, o milagre funcionar a Margarida vai entender. Quando acorda sente que não está molhado e, olhando para a bacia embaixo da rede, Chiquinho vê que ela está sequinha...

9

Margarida abriu a geladeira e procurou a garrafa de água benta de Lurdes, que havia trazido. Bem escondida, lá no fundo, ela viu a garrafinha azul, puxou-a para frente e logo viu algo de errado, pois o líquido estava quase pela metade. Quando a pegou na mão notou também que havia uma pequena mossa na tampa de metal. Era mais que evidente que alguém tinha aberto e usado, de alguma maneira, o conteúdo da garrafinha.

- Eu acho que foi o Chiquinho; há uns três dias eu vi ele pegando essa garrafinha azul, disse a Rosilda.

- Será? E como anda o xixi dele?

Rosilda disse para a moça:

- Olha Margarida já faz uns dias que ele não mija! Eu não sei o que aconteceu...

- É mesmo? Chama ele aqui!

Daí a pouco chegam o Chiquinho e a Rosilda vem logo atrás. A irmã do menino pergunta:

- Chiquinho o que é que você fez com a água que eu trouxe de Lurdes?

- Eu?

- Sim você mesmo! Aí ela mentiu e disse:

- Eu vi você mexendo na garrafinha azul...

- Ta bom, eu mexi. Mas só tomei umas colherinhas.

- E pra que?

- Ora você mesma disse que essa água é milagrosa e eu queria saber se ela fazia mesmo milagre!

- Você podia ter falado comigo, vai que a água te fazia mal...

- Ta certo, mas agora ta na casa do sem jeito, você me desculpa eu ter tomado sua água.

- Minha água? Oh bestão pra que é que você acha que eu trouxe essa garrafa de água benta lá de Lurdes, na França, a milhares de quilômetros de distância? Ela olhou para o irmão e deu uma gargalhada.

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Friday, August 28, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 86


Mostro hoje mais um poema de LÍVIO BARRETO, poeta granjense nascido em 1870 e falecido em 1895. “Dolentes” é seu único livro publicado.

MÁGOAS

Eu sinto n´alma o fúnebre vazio
Que o ninho sente quando a pomba voa...

JOÃO DE DEUS DO RÊGO


Por que essa flor que encerra a nossa vida,
Na melindrosa ânfora guardada,
Treme, pálida e fria, sacudida.
Por tua mão angélica, de fada?

Por que das minhas utopias santas
O vôo cortas quando as tenho prêsas,
À tua boca e à tua voz – se cantas,
Às tuas mãos e ao teu olhar – se rezas?

Por que deixaste, pérola, a queixosa
Concha cheia de amor e de martírio?
Por que deixaste este luar, ó rosa?
Por que fugiste deste orvalho, ó lírio?

Pois bem, deixa que eu gema e que sucumba
Com teu retrato no meu coração,
E vá de solidão em solidão,
A procurar o amor de tumba em tumba.

Deixa! e nem tentes mais chamar à vida
Meu coração desesperado e frio
Que anda no mar da Dor como um navio
Na escuridão da noite indefinida.

- Granja – Agosto – 92.

O poema mostrado está completo.

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Thursday, August 27, 2009

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 87


ELE PREFERIA O CANTO AO LEITO

No dia do casamento, logo após a cerimônia, o noivo pulou na rede e foi dormir. Quando conseguiram acordá-lo ele resmungou qualquer coisa, levantou-se e escondeu-se em um canto da sala da enorme casa de sua mulher viúva de pouco. Toda vez que ele acordava na rede rapidamente ele se esgueirava para o seu canto que ficava escondido pelo enorme armário que servia de depósito de mantimentos. Essa arrumação durou até sua morte. A viúva ria da besteira do marido, mas não dizia nada. Saia a cavalo para o samba do Tutu e só voltava de manhã.

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Wednesday, August 26, 2009

VISTAS DA GRANJA 107



AQUITEVEAQUIFOIAQUIERA


Dá pra lembrar o que se “esconde” por trás da propaganda do Mercadinho Rotativo?

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O MONSTRO DO LAGO NESS



Nessie, como os escoceses o chamam, é uma "aparição" que anima nativos e turistas que visitam o Loch Ness, na Escócia. Periodicamente o simpático monstro dá as caras no lago e também no noticiário. Hoje há uma notícia, reproduzida no g1, sobre a presença do enorme animal no Google Earth. Veja e leia a matéria no g1.


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Tuesday, August 25, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 97


O RELOJOEIRO E SEU BONIFÁCIO

Ele ouviu um psiu e novamente outro. Parou e virou a cabeça na direção do chamado. Era aquele senhor vestido de branco de cima a baixo que ele sempre via no portão do Mercado Velho mexendo em relógios. A figura aproximou-se e disse:

- Seu Bonifácio eu soube que o Senhor foi assaltado e lhe roubaram aquele relógio que eu lhe vendi no ano passado.

Será verdade, o que vou fazer? Pensou ele, os boatos correm e, na certa todo mundo já sabia do assalto.

– Sim, ele disse. Fui assaltado e me levaram aquele “roskopf” que o Senhor me vendeu...

- Pois é. Eu agora tenho um melhor e mais bonito. Bem diferente daquele que lhe vendi. Quer ver?

– Quero. Mostre aí.

O velho de branco puxou um relógio de algibeira e Seu Bonifácio foi logo se animando. Regateia daqui, regateia dali, o velho deixou o relógio por cem reais. E seu Bonifácio saiu charlando com seu novo Mido feito em Manaus.

O texto está completo e a ilustração está em: http://www.musketeer.ch/watches/roskopf.html

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Monday, August 24, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 67


UM NADO NA PISCINA

Fazia um enorme calor quando Walcy entrou na lojinha à procura de comprar um presente para sua netinha. Ela tem oito anos e é bem sapeca e sempre cobra dele, quando volta de suas viagens, um presente. Nessa tarde, ao ser atendido pela Juliete, a vendedora bonita, ele nota a entrada de uma senhora, ainda bem jovem, bem vestida. Ela não se importa com sua presença e pede à vendedora que lhe mostra uma peça. Ele afasta-se acintosamente, provocando sua reação: - Obrigado... Walcy responde sarcástico: - De nado... A senhora, pensand ser mais sarcástica retruca: - E onde está a piscina? Ele diz: - Ah! Deixa pra lá!



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A ERUPÇÃO DO VESÚVIO


Nesta data (24 de agosto) há 1930 anos deu-se a maior erupção conhecida do vulcão Vesúvio situado nas proximidades de Nápoles, na Itália. Esta erupção destruiu as cidades de Herculano e Pompéia causando a morte de 10 a 25 mil pessoas. Siga os diferentes links para ler mais sobre esse desastre natural velho de quase dois mil anos: em português (wikipedia1), e em inglês (wikipedia2, bbc1, bbc2).

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GETÚLIO VARGAS - 55 ANOS DE SUA MORTE


Há 55 anos, no dia de hoje, Getúlio Vargas, Presidente do Brasil, cometia suicidio em seus aposentos no Palácio do Catete, Rio de Janeiro. Veja o vídeo de matéria apresentada pelo jornal Bom Dia Rio hoje pela manhã.

A imagem é de siaapm.cultura.mg.gov.br

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Sunday, August 23, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 138


CARTA VALIOSA

Meu caro Ricardo Ruas,

Junto essa carta para o Coronel Bento Reis, que lhe peço mande entregar. Para isso é preciso que você tome certas providências, porque é indispensável que ela seja entregue nas mãos dele, do contrário ele não a receberá nunca. Você mandará um positivo, de forma que vá encontrá-lo deitado na rede no alpendre da casa grande, o que só deverá ser antes de meio-dia, porque depois desta hora ele guarda a carta para ler mais tarde e acaba não lendo nunca. A carta vai aberta para que você tome nota do assunto e depois feche o envelope. Fique de tocaia atrás do tronco daquela mangueira que fica perto do curral para observar a reação do Homem. Peço ainda o favor de me mandar dizer o resultado, isto é, se a carta foi entregue a ele próprio, qual foi a reação dele, o que ele disse, etc. e etc.

Você deve mandar uma carta para mim pelo mesmo positivo contando a reação dele. E também nota das despesas que fizer.

Aguardo com interesse. Seu amigo grato

Eduardo Rios



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PROFESSOR DIAS DA ROCHA - 140 ANOS DE SEU NASCIMENTO


Francisco Dias da Rocha, fundador das Escolas de Farmácia e de Agronomia no Ceará, das quais foi professor, estudioso das Ciências Naturais, fundador do Museu Rocha, completaria 140 anos de vida no dia de hoje. Zenilo Almada seu sobrinho presta-lhe homenagem em um ensaio publicado hoje no Diario do Nordeste (siga o link).

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Saturday, August 22, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 5


A HISTÓRIA DO VELHO INAÇO

Corria entre eles aquela história antiga que o velho Inaço contava. Um de seus avós dizia que seu pai havia jogado, todo mundo no Pé da Serra dizia “rogado”, uma praga nas futuras gerações da família: ele disse que todos iriam sofrer de uma das doenças mais terríveis que jamais existiram, e das mais velhas, pois ela certamente já existia no tempo das cavernas. É verdade que de câncer nunca havia morrido ninguém na família dos Raposo e nem de tuberculose, nem de doença do coração, nem de gota. Mas eles sabiam que a praga se referia à doença que muitos de seus tios e primos tinham tido e todos haveriam de ter mais cedo ou mais tarde. (...)



Não era nem preciso dizer o nome, todos a conheciam de dentro de casa, desde muitos anos, quase quatro centenas deles. O menino a pegou na Capital, só podia ser, pois começou a aparecer quando ele estava no Colégio Militar. Não teve jeito, os parentes o mandaram pro Rio de Janeiro, diziam que lá ele iria se tratar e ficar bom. O bichinho acreditou e foi levado, pelo outro irmão, o maiorzinho, que já trabalhava e teve de tirar férias para levá-lo. Assim que chegou, ele foi para a Casa de Saúde, nas Laranjeiras, onde médicos famosos – nesse tempo a família ainda podia pagar por eles – não tiveram conversa, viraram e reviraram o menino pelo avesso e depois lhe deram choques elétricos e de cardiazol. No começo o irmão e parentes – que queriam acompanhar as sessões - viam o pobrezinho quase se quebrar de dor e de se esgoelar, dando gritos terríveis. Passados alguns meses ele melhorou, mas só queria saber de ler, ler e ler. E também de escrever e o que ele escrevia parece que era uma espécie de deglutição do que ele havia lido. A princípio ninguém sabia o que era, mas quando o mais velho, que era muito instruído, até demais, chegou do Rio Grande viu que ele estava escrevendo em grego clássico! Minha nossa, se fosse pelo menos grego moderno, do Pireu, eles poderiam dizer que o menino havia aprendido com o Grego Selatakis, lá na Timonha. O fato é que ele não podia mais ficar no Rio de Janeiro, o velho tinha quebrado, e ele teve de ser embarcado a força em um desses navios do Lóide e quando chegou foi logo internado no Alagadiço. O outro irmão que havia ficado foi quem o levou e todo mundo mal podia imaginar que este daí a pouco, seguiria a mesma trilha do menino. Mas antes havia o outro, aquele que havia levado o menino para o Rio. Como ele tivesse ficado lá, levando uma vida airosa, mesmo sem dinheiro, parece castigo, logo se apaixonou por uma polaca da Rua Conde Lage e queria viver com ela. Ele achava que a jovem poderia se beneficiar de alguma experiência que ele tinha de como representar. Logo pediu demissão do emprego na Casa Inglesa no Forte e matriculou a polaca em aulas de teatro e encheu-a de livros. Como ele vivia não se tinha a menor idéia, talvez o cunhado, um “bon vivant” com uma boa sinecura no Ministério da Fazenda, o tenha sustentado por algum tempo. Ele nunca desconfiou que Aniela, era este o nome da polaca, lhe traísse com um de seus novos amigos cariocas. O final desse relacionamento deu-se quando ele pegou uma blenorragia e daí foi fácil para a doença enreda-lo. Ele também teve de ir para a tal Casa de Saúde, triste nome, pois de saúde não tinha nada, era um verdadeiro inferno na terra. Como é que uma cidade tão bela como o Rio de Janeiro podia ter uma coisa como essa tal de casa de saúde? Ninguém tinha respostas para isso, nem mesmo seu irmão sabido. Agora parece que os Raposo gostavam de lá, dessa casa... Só pode. Esse aí ficou por Laranjeiras, esquecido, por uns bons vinte anos até que chegou ao óbito, como dizem os repórteres das colunas policiais. “Causa mortis”? Falência geral dos órgãos causada por fome, como o Pai. O irmão mais velho, o sabido, continuava colecionando suas borboletas e eles pensavam que ele não se preocupava ou incomodava com nada, mas qual o que, ele vivia tomando o antidepressivo universal e foi assim até morrer, agora não numa casa de saúde, mas numa clínica de repouso. Este é um nome bonito para alguma coisa bem parecida com a Casa de Saúde ou com o Sanatório. No Forte o irmão do meio com sua família criada, mas metido com negócios que nunca davam certo – vender fibra de paco-paco para a Inglaterra, imagine! Foi de prejuízo em prejuízo até que parou num quartinho escuro do Asilo de Alienados, em Porangabussu cujo diretor, o Dr. Brindeiro, fora amigo de seu pai, pois este já estivera, digamos, hospedado lá, por alguns meses, no tempo em que se usava mesmo eram as camisas de força. Esse irmão do meio seria mesmo do meio, pois eles não eram quatro? Bem, ele também teve seus dias de eletro-choque e de insulina e melhorou um pouco, não tanto que as pessoas de casa acreditassem em cura. Não era mesmo uma cura e ele sabia muito bem disso. Ele se aproveitava dessa situação de dúvida e fazia experiências. Elas consistiam em observar o comportamento das pessoas diante dele. Muitas vezes ficava sentadinho em sua cadeira de balançar, pintada de branco, na varanda de casa, com uma toalhinha de lã sobre os joelhos para não pegar a friagem da tardinha, a olhar fixamente para o muro da casa do Seu Gênio, era assim que se chamava o funcionário da firma Booth & Line na cidade, morando em frente. Na parede havia um grafite de uma enorme complexidade que ele queria adivinhar o significado. Aliás, ele fingia querer adivinhar. Ninguém sabia o que significavam as garatujas, nem quem as tinha feito, de modo que fica difícil dizer alguma coisa sobre esse grafite. O que ele fazia era prestar atenção nas pessoas que entravam e saiam de casa e, ao passar por ele sentado em sua cadeira, diziam alguma coisa, como por exemplo: Ô velho chato, não sai dessa cadeira! Ou então: Vai trabalhar home! Ele ouvia isso tudo, mas não guardava rancor, não. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde as pessoas iriam descobrir que ele prestava atenção a tudo que se passava ao seu redor e, quando e se ficasse bom, ele cobraria delas uma explicação. Isto já havia acontecido das outras vezes que a doença o tinha alcançado. Ele nunca tinha recebido explicação de ninguém. O filho desse outro, sobrinho daqueles do Rio e do Rio Grande, ainda quase criança foi visitado pelo diabo da doença. Chamava-se Jorge e era metido a sebo, isto é, os outros achavam assim, mas não, ele era mesmo era picado da tal doença. Da primeira vez que ela chegou de portas adentro, sem pedir licença, o jogou de cama por alguns meses. Imaginem vocês, todos na casa já tinham um como que roteiro de como a doença agia, mas perderam um precioso tempo para levá-lo a um bom médico. Agora havia desses, no Forte, ou assim muita gente dizia. Eram doutores formados na América, na França, no Rio de Janeiro e por aí afora. Novos métodos de tratamento, novos aparelhos, novos testes e o que mais não se sabe, pois esses médicos têm os seus mistérios que não contam pra ninguém. Havia um desses doutores do saber médico que, logo ao atender Jorge em seu consultório, no centro, ordenava que o rapaz despisse a camisa e deitasse ao chão. É, deitasse sobre o assoalho, imundo! Ele ficava lá estiradão no chão e o sábio provavelmente, não certamente, pois ele estava deitado de bruços, ficava a olhar para suas costas sem dizer palavra. Os resultados, benéficos ou não, desse mergulho na poeira do chão do consultório, nunca foram comunicados a ele ou à sua família. Depois de alguns meses ele desistiu dessa terapia terrosa e passou a conversar com um outro doutor. Conversar não é um termo adequado para o relacionamento quase diário de Jorge com esse luminar caboclo. No início da terapia os dois ficavam frente a frente por todo o tempo disponível, - não chegava à uma hora -, ao fim do qual o doutor indicava, por sinais quase imperceptíveis, que a sessão havia chegado ao fim. Após uma dúzia dessas reuniões Jorge resolveu quebrar o gelo e falar, pois de outro modo ele quebraria financeiramente, sem sombra de dúvida, antes de qualquer resultado, positivo ou não. A melhor parte dessa história foi o encontro entre Jorge e esse luminar em uma festinha de aniversário. Ao dirigir-se a ele, o parente do velho Inaço, ouviu: - Eu não me relaciono com ex-pacientes! E virou as costas para Jorge que deu graças aos deuses por tê-lo tirado de seu caminho, muito antes de descer ao mundo silencioso, como finalmente aconteceu. Quando o levaram de volta ao Alagadiço ele só ficou uns poucos meses, pois se acreditava completamente curado, apesar da apreciação sigilosa que o tal luminar havia feito de seu estado para sua mulher; segundo esse laudo não havia cura para o mal de Jorge. O moço, pois ainda era um moço, se sentiu com coragem e forças e resolveu fugir. Certa madrugada ele pulou o muro da Casa de Repouso, era assim que chamavam agora, e ganhou o mundo. Não ganhou o mundo exatamente, mas fugiu de táxi para as brenhas da Serra onde se amasiou com uma menina que era ver uma índia, a Indiazinha, como ele a chamava. Foi nessa época que Jorge achou que tinha evitado à descida ao Hades. Ele que esperasse...

JXF set2008


A figura mostra “As famílias dos bárbaros”, xilogravura de “Cosmographie Universelle” de Munster (Basiléia, 1552).

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Friday, August 21, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 85


LÍVIO BARRETO deixou em seu um único livro publicado, “Dolentes”, o poema de 1894 que mostramos hoje.

NOITE AFORA

Há pouco na matriz deram dez horas.
Calma aparente fora; aqui, soturna,
Triste vigília; a pavidez noturna
Das longas noites lentas, sonhadoras.

Só no meu quarto, a luz da lamparina
Trêmula doira a minha solidão.
Silêncio triste. As dores em surdina
Vão dar meia-noite no meu coração.

Ventos da noite frios, ventos frios
Passam bulhando fora aos assobios,
Zunindo pelas frinchas da parede...

Dormem sorrindo as brancas inocências,
E anda o remorso pelas consciências
Como um lobo perdido, que tem sede.

O texto está completo. O quadro é: Picture Clock with Scene of an Alpine Village Landscape with Clock Mechanism in Church Tower, de C. L. Hoffmeister, 1833

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Thursday, August 20, 2009

VISTAS DA GRANJA 106


AQUITEVEAQUIFOIAQUIERA

Apesar de ser uma cidade antiga a Granja não tem edificações tombadas pelo IPHAN (nem no âmbito estadual, nem tampouco no municipal). Decorrência desse descaso é o que aconteceu com o casarão antigo que foi demolido para dar lugar ao prédio mostrado acima que abriga um “shopping muderno”.

Você sabe que casarão era esse?


O texto está completo.

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Wednesday, August 19, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 24


MUITOS TIOS

Jorge tinha muitos tios e tias; tanto do lado materno como do lado paterno. Seus tios, irmãos de sua mãe eram de uma natureza especial, mas não tinham uma educação esmerada, como sua família paterna falava, entretanto eles eram muito dedicados aos sobrinhos. Todos procuravam agradá-los, principalmente a Jorginho, como também era chamado por eles. Quando iam para a fazenda o levavam para andar a cavalo ou burro, tomar leite mungido no curral e chupar cajus da quinta, apanhados do pé. (...)

Certa vez, porque ainda fizesse xixi na rede, um dos tios chegou a provar de sua urina, pois dizia que ele podia ser diabético e, nessa doença, urinava-se muito e o xixi era doce. O teste deu negativo, mas isso ficou marcado em sua mente e ele achava que fosse resultado da dedicação que seu tio tinha para o sobrinho. Eles nunca o repreendiam mesmo quando havia motivo para isso. Jorginho adorava o Tio Vicente e quando ele passava montado em seu cavalo alazão ou acompanhava as procissões vestido com uma bata branca e com uma fita vermelha em torno do pescoço, o sobrinho o imaginava como um cruzado pronto para invadir a Terra Santa e liquidar os infiéis.

Os tios do lado paterno eram muito trancados, carrancudos e irônicos. Todos da família tinham fama de serem muito irônicos e críticos, aparentando hostilidade contra todo mundo. As pessoas na cidade os tinham como muito instruídos, pois sabiam que liam muito e em diversas línguas; dizem que até grego alguns deles sabiam. O fato é que todo tipo de literatura em português e uma multiplicidade de romances de autores franceses e ingleses eram lidos por eles. Ainda hoje há, em suas casas, livros de poesia em francês ou inglês, com dedicatórias de um para o outro escritas nas mesmas línguas. O pai de Jorge fazia discursos e era convidado a dar explicações e esclarecimentos sobre fatos e acontecimentos políticos ou não, nacionais e internacionais.

A fama de estudiosos e dedicados às artes corria a cidade e talvez o desejo íntimo de todos era alcançar a posição a que tinha chegado um dos irmãos de sua avó: tinha sido um poeta laureado nacionalmente tendo publicado uma dezena de livros. Ninguém das gerações posteriores alcançou o sucesso dele.

Com Jorge alguns deles chegaram a ser intolerantes. Certa vez na Capital, ele já adolescente, um dos tios ao vê-lo e ouvi-lo mastigar uma torrada vociferou:

- Não se deve comer torradas fazendo este barulho todo menino!

O garoto baixou a cabeça assentindo com a afirmação do tio.

Quando Jorge inventou usar uma barba uma de suas tias, toda vez, que ele fazia um gesto de que iria cumprimentá-la com beijinhos na face ela dizia:

-Tira essa barba Jorge! Que coisa feia! E negava as faces para o beijo dele.

A bem da verdade havia entre os tios, uns poucos, eram 15 ao todo, que o
tratavam com certa civilidade. Depois que seu avô perdeu todas as posses os
tios abandonaram a Cidade e foram para o Rio e Belo Horizonte, à procura de
emprego. Jorge não os viu desde então.


A figura acima é: "A Corte dos Nobres – Fac-simile de uma miniatura em um antigo romance de Cavalaria". Séc. XIII (Livraria do Arsenal, Paris).


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Tuesday, August 18, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 96

BEIJO NA BOCA

Altino andava preocupado, pois sabia que estava gostando da menininha - era mais que uma menininha. Seus amigos eram poucos e poucos ainda eram aqueles com quem ele tinha coragem
de se abrir em assuntos de coração. Ele resolveu de qualquer modo falar com o Isaac para pedir
conselhos: - Rapaz eu vejo e falo todo o santo dia com ela, ela me manda fazer as coisas pra ela,
mas não tenho coragem de falar nada. Cara eu nunca beijei na boca de nenhuma menina e fico
olhando para a dela e imaginando qual macho que já beijou aquela boca! Fico doido! O que é que
eu faço?

O amigo sabendo de sua proximidade servil com Catarina e também que ela nunca se permitiria ser beijada por ele lhe diz:
- Cara, tu tem primeiro de dar pra ela uma barra bem grande de chocolate amargo. Ela gosta desse mais do que nada. Aí ela vai amaciar e logo depois tu começa a passar a mão no braço dela. Se então ela não te der um coice tu pode passar a mão na cintura. Daí pra frente é por tua conta e risco.

O texto está complete e a figura que o encima é: “The knight and his lady – Costumes of the Court of Burgundy in the XIVth Century”, miniatura em “Othea”, poema por Christine de Pisan, Livraria de Bruxelas.


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Monday, August 17, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 66


O AMIGO DO HOMEM

Seu Carrim chegou de viagem e parou a D20 do patrão bem em frente à bodega. Olhou para a padaria da frente e viu a bichinha. Ela sorriu acenando com um pãozinho na mão esquerda e, com a direita, fez-lhe um gesto indecoroso. Seu Carrim não entendeu nada. Ao contar ao patrão este diz: - Todo dia é isso, macho. Essa criatura parece que é maluca, porque ela não dá logo os coices ao invés de pão?


O texto está completo.

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HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 137


EU VOU VIAJAR PARA A RÚSSIA.

No cinema, um pouco antes da exibição, alguns sujeitos entram atropelando tudo, falando alto, comendo pipoca, bebendo coca; ficam assim fazendo bagunça durante toda a projeção. Os dois tiveram vontade de denunciá-los, mas só Wladimir foi, pois Lurdiana, que vai para a Rússia teve medo de se envolver. Ele foi e os camaradas foram retirados pela polícia. Na saída os mesmos, - eram seis - o pegaram e o puseram em um círculo e deram-lhe uma tremenda surra. Saíram chupando picolé de morango, quase todos.

continuação do texto/postagem O texto está completo.

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Saturday, August 15, 2009

EUCLIDES DA CUNHA - 100 ANOS DE SUA MORTE


O autor do grande livro sobre a campanha de Canudos, "Os Sertões, campanha de Canudos", morreu há cem anos na data de hoje. O jornal "O Estado de São Paulo" (ESP), do qual Euclides foi colaborador, promete uma edição comemorativa (O ano de euclides) a ser publicada no próximo dia 23.


Veja artigo sobre o grande brasileiro na Wikipedia e matéria no ESP. Leia também notícias no ESP do dia seguinte (16/8/1909) sobre seu assassinato.


O texto está completo.

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CONTOS DA RIBEIRA 4


OS GENTILEZA

O velho Coronel acordou ainda com escuro e preparou-se para a caminhada que fazia todos os dias. Hoje ele iria usar os tênis que ganhara de um dos filhos no dia de seu aniversário e uma camiseta com o logotipo do Banco do Brasil dada pelo gerente na cidade. Quase tudo o que ele usava atualmente havia sido dado por alguém, pois ele achava que não mais podia comprar o que chamava de supérfluo. O dinheirinho que tinha acumulado e que ninguém sabia quanto era ele o guardava para levar no caixão, assim se dizia na cidade. (...)

Até sua comida era, atualmente, racionada. Ele gastava o mínimo com tudo mesmo. Comeu uma banana já bem passada, dessas com a casca preta, pois só tomava seus comprimidos para pressão depois de por alguma coisa no estômago vazio, do contrário sofreria graves conseqüências. Ele saiu de casa, de chapéu e bengala e tomou o caminho do Alto dos Pescadores. A bengala era usada principalmente para espantar os cachorros que adoravam latir para sua triste e magra figura. Parou em frente à bodega do Cansanção para um dedo de prosa, o que fazia sempre que ia pros lados de lá. O amigo estava quase cego e se recusava a ir até o Forte fazer uma operação, já arranjada pelo Coronel Sebastiano, com o Dr. Moura Brasil, para tirar uma catarata e ele foi até a bodega para animá-lo, prometendo pagar sua passagem pela Macaboqueira; ele não pagaria o bilhete, pois seu primo, dono da empresa, lhe daria uma. O Cansanção era teimoso, mas no fim ele cederia, o Coronel Gregório Manoel Gentileza tinha certeza.

Ele voltou e encontrou seu filho que chegara da Corte pelo “Amarração” e viera a cavalo de Camocim, pois o negro João tinha levado seu cavalo alazão de que o filho gostava muito. Quando chegou ao Casarão, situado na Praça da Matriz bem em frente da Avenida, Arcádio Acrísio estava esperando pelo pai. Ele era o filho mais velho e também o mais famoso dos seis que o Coronel tivera com Dona Santinha. Ela era aparentada com o Coronel José Romão Melão, o “Melão da Várzea” e os dois tinham casado logo que Gregório Manoel havia chegado do Quixadá e se estabelecido na vila, pelos idos de 1825. Ele logo foi nomeado Vice-delegado de Polícia devido às suas ligações com o Coronel Sebastiano, o mandachuva da vila da Várzea, naquela época e ainda por muito tempo.

Pai e filho sentaram-se nas profundas, mas confortáveis cadeiras de madeira, do Dr. Guilherme na varanda que dava para a Praça enquanto esperavam o almoço que estava sendo preparado pela Maria, cozinheira antiga da família. Eles tentaram por os assuntos em dia, mas era muita coisa, os dois reconheciam. Nesses momentos o filho gostava de ficar observando o velho rememorando algumas das histórias que cercam sua figura; a mais conhecida era aquela de seu envolvimento com um fantasma que aparecia quase todas as noites, quando o velho era jovem, correndo pelas ruas cheias de areia da pequena vila e se alojava em uma casinhola que pertencia a um seu parente. Muitos anos depois alguém descobriu a identidade do fantasminha, mas isso não perturbou o velho nem sua amiga das noites de lua, pois eles continuaram a se encontrar em seu ninho.

O jovem advogado estava trabalhando no escritório do Dr. Ramiro Vasconcelos, desde 35. Este, já afamado na Corte, era filho do Dr. Cláudio César Vasconcelos, famoso na cidade por ter tido a iniciativa, entre outras de criar o Gabinete de Leitura. Os dois tinham ganhado uma causa muito importante que lhes daria bons lucros, quando o Coronel Israel lhes pagasse, o que parecia difícil. Arcádio Adolpho conta que no mesmo “Amarração” viajava com ele e ia para o Forte, onde iria assumir o governo, o Dr. Caio Prado, jovem paulista que havia sido indicado para a presidência da Província pelo Imperador; imagine-se uma viagem marítima de quatro dias e só se fazer amizade com um paulista, mas eles se deram bem e Arcádio Adolpho prometeu visitá-lo em Palácio quando voltasse. Arcádio gostava de mascar e de fumar um cachimbo de barro que tinha um cheiro que mais parecia uma inhaca e que pouca gente conseguia suportar, inclusive seu pai. Sua mãe veio resgatar pai e filho, pois o caçula, Teophilo Ignácio, já havia chegado do armazém e trazia notícias do comércio.

Teophilo Ignácio, o único dos filhos do casal que ficou na vila, seguiu a profissão do pai, comerciante e político e dono de muitos escravos. Ele tinha até herdado, como era costume naqueles tempos, o lugar do pai na Administração, pois em 75 ele foi nomeado Vice-delegado de Polícia. Os negócios de pai e filho estavam em dificuldades devido à grande seca de 77-79 que ainda fazia sentir seus efeitos, mesmo depois de cinco anos. Os preços do algodão, da cera e dos couros estavam muito baixos, mas eles lutavam para manterem-se de pé e de vez em quando vendiam um escravinho para pagar algumas dívidas mais urgentes.

No dia seguinte os outros filhos chegaram pelo horário da tarde, vindos do Ceará. José Fenelon, que clinicava em Camocim, esteve reunido com o Dr. Manuel Moreira da Silva discutindo alguns casos sérios de febres paludosas que ele tinha tratado na vila. Saiu do consultório do grande médico com a sugestão de usar pequenas doses de valerianato de bismuto no tratamento de seus pacientes com essas febres. Ele estudara na Faculdade de Medicina da Bahia no fim do século tendo-se formado em 1908 e assumido uma clínica em Camocim durante o governo do Comendador Accioly. Ele parece ter sido muito competente e havia defendido uma tese muito elogiada até pelo Conselheiro Ruy Barbosa que nessa época fazia parte da congregação da Faculdade.

Os que moravam fora já haviam chegado há dias e só estavam resolvendo alguns negócios na Fortaleza para virem todos juntos para a cidade. Annibal Ladislau, que morava em Recife, tinha também se formado em Direito e logo casado com uma filha do Barão de Bitupitá, homem muito rico e que lhe tinha conseguido um cargo vitalício no Senado onde não precisava aparecer. Ajudou muito nessa empreitada o Senador Serpa, muito amigo de seu pai e um cearense de boa cepa e muito influente, como todos sabem, desde então. Possidonio Lindolpho havia ido para o Forte mesmo às vésperas da libertação dos escravos, e antes que seu pai tivesse de libertar os seus seguindo o Conselho dos Coronéis Ignácio e Antonio, seus amigos. O velho arrependeu-se, pois desde então não mais encontrou ninguém que lhe fizesse uma boa tapioca, além de ter deixado escapar o dinheiro que poderia obter da Comissão de Emancipação. Possidonio Lindolpho tinha arranjado uma colocação na Alfândega onde dava um expediente camarada de três dias na semana. Já Vicente Tiburcio tinha se dedicado aos estudos de Farmácia e tinha sido aluno do Professor Dias da Rocha quando adquiriu o hábito de colecionar plantas e borboletas e estudar seus princípios ativos. Por volta de 1936, quando se sabia que a Segunda Guerra iria estourar ele apresentou um projeto ao Exercito Brasileiro para a fabricação de um medicamento anti-sifilítico a base de ipecacuanha-legítima, uma planta cujas raízes têm propriedades eméticas e muito fáceis de encontrar nas praias da Província. Seus pais e irmãos gostavam de lembrar das histórias do tempo em que Vicente Tiburcio, Voluntário da Pátria, voltou da Guerra do Paraguai onde havia sido ferido na batalha do Passo do Rosário, ou melhor, de Ituzaingó como os vencedores argentinos a chamam. Ele voltou caxingando de uma perna e foi imitado por todos os rapazes da cidade, até por aqueles que eram simpatizantes dos tenentes e não deveriam se importar com tais patriotadas imperiais. Certamente devido a essa deficiência ele pode, desde que chegou da guerra, aumentar sua coleção de borboletas, pois caçava, mesmo sem a redezinha de filó apropriada, a qualquer hora do dia ou da noite, e as levava para casa uma a uma, e onde, ao abrigo de seu quarto e de sua cama punha os exemplares na devida ordem entomológica: novas, velhas, magras, gordas, louras, morenas, altas, baixas, etc. Englobando essas subespécies as borboletinhas se agrupavam em dezenas de gêneros, pois se sabe que elas formam um número assustador de espécies, e sua classificação é complexa e dá muito trabalho, mas Vicente Tiburcio era muito dedicado às suas manias de colecionador.

Eles tiveram um grande almoço preparado por Maria e mais um batalhão de ajudantes sob o comando de Dona Santinha. A mesa tinha de tudo, como sempre fora o costume no Casarão: o prato de resistência era um guisado de um bodinho-mamando trazido da fazenda do Coronel, na Lagoa Vermelha; havia ostras da Maré preparadas no azeite Gallo, arroz de carreteiro feito com carne de sol do Picui, feijão preto mandado vir da Bahia, e que mais parecia uma feijoada de tão temperado que era e mais uma paçoca, esta feita especialmente para o Doutor José Fenelon que todos em casa sabiam apreciar bastante, desde os tempos de menino. É de se notar a total ausência de legumes, as verduras como todos em casa chamavam, pois ninguém, nem as mulheres as apreciavam. A refeição, comandada por Dona Santinha, seguiu até em torno de duas horas da tarde e foi acompanhada de doces os mais diversos feitos em casa mesmo: de mamão com coco, de caju em calda, de bacuri – este veio do Piauí mandado por uma sobrinha – e terminou com um cafezinho simples. Após o almoço os homens reuniram-se na varanda, na parte que dava para a grande baixada e para a estrada de ferro que passava lá em baixo, depois do prédio do Feijão onde as bebedeiras diurnas aos sábados e domingos se confundiam com as noturnas para o desprazer do velho. O que ele podia fazer, pois já falara com o Raimundo Aroeira e este o levou na troça, como sempre fazia com todo o mundo.

A visita dos filhos foi aproveitada para uma discussão sobre o futuro da Avenida, pois havia uma iniciativa, por parte de um empreendedor local de fazer grandes modificações nela. Falava-se também que os planos desse homem de poderes infinitos incluíam até a Igreja Matriz. E o velho Coronel não estava gostando nada disso. Ele lembra que a Avenida, assim chamavam o passeio em frente à Matriz, fora construída pelo Intendente, por determinação da Câmara Municipal, isso em 1897 e que, para todos os gostos era uma beleza, com seu coreto de concreto que, aos domingos, recebia uma das duas bandas da cidade, depois da novena, para uma animada retreta. Teophilo Ignácio, fumando um cigarro “Peito de Vaca”, daqueles bem grossos e pretos, começou a relatar o que havia apurado nas conversas ouvidas na Praça do Mercado. Ele disse ter escutado um boato que parecia firme sobre o interesse do tal incorporador em construir um conjunto habitacional moderno, exatamente onde estava construído o passeio; parece que no lugar da Matriz, um monumento do século XVII, recentemente remodelado e com um revestimento externo de casca de tartaruga marinha, seria construído um campo de golfe. Dizia-se, também, que a aceitação era grande, principalmente pelos proprietários de residências do entorno da Avenida que vislumbraram lucros fáceis pela venda de seus casarões dos séculos XIX. Quando Teophilo Ignácio terminou, ou melhor, mesmo antes disso o Coronel saltou lá com sua agressividade inata e disse:

- Aqui em casa não tem esse interesse não! Eu não saio, nem vendo meu Casarão; ele está neste lugar há mais de cem anos, todos vocês nasceram aqui, além disso, eu acho uma tremenda sacanagem com a cidade que adotei como minha já em 1825.

Após trocar olhares significativos com os irmãos, Arcádio Acrísio diz:

- Papai, calma, cuidado com sua pressão...

- Pressão uma ova! Se eu encontro esse camarada mando o Zé Bento dar-lhe uma surra que vai deixá-lo quase morto.

Arcádio Acrísio quase o interrompe, mas deixou a explosão de ira do pai passar e emendou:

- Papai, primeiro o Zé Bento não mora mais no Casarão, você lembra que quando ele foi emancipado foi embora para o Quixadá e o camarada em quem você quer mandar dar uma surra, ou coisa pior é simplesmente um laranja do Dr. Zequinha. Certamente ele vai lhe prejudicar e aos seus negócios aqui. Vamos pensar melhor.

O velho ficou amuado, mas se acalmou, pois respeitava muito o filho mais velho a quem pedia conselhos, mesmo morando ele no Rio de Janeiro.

Annibal Ladislau tomou a palavra e, como bom advogado, ele também, analisou diversos pontos legais, o mais importante desses era o desaparecimento de documentos que diziam ter sido a Avenida construída com dinheiro da Câmara Municipal quando da Revolução que depôs o Comendador Accioly ou alguém havia mesmo roubado e, talvez destruído.

A Prefeitura agora poderia afirmar que a Avenida não pertencia ao povo, mas sim a ela própria e, como tal o Prefeito poderia dispor a seu bel-prazer. Todos se entreolharam, verdadeiramente atônitos, com essa análise do irmão. A discussão entrou por noite adentro e foi até à madrugada, animada por uma brisa agradável e diversas rodadas de uma serrana do estoque do Coronel. Não havendo consenso sobre o que resolver ou mesmo fazer todos foram deitar, combinando para o dia seguinte uma nova conversa, dessa vez com a presença do velho amigo de seu pai o Tenente Juracyr Magalhães, o grande revolucionário de 1930 e muito amigo de Possidônio Lindolpho e que já estava metido no ramo de construção civil no Rio de Janeiro. Lembraram que o dia seguinte já o era dia de Natal, e que, já na segunda-feira, os irmãos começariam suas viagens de volta, sendo assim a conversa deveria ser pela manhã, talvez até durante o almoço para o qual Possidônio Lindolhpho convidaria o Tenente Juracyr Magalhães.

Arcádio Adolpho disse, então que esperassem por ele, pois iria tomar um banho no rio, há anos que ele nem chegava perto da barragem. Seu pai disse-lhe que tivesse cuidado, pois com as últimas chuvas o rio estava muito cheio, o que não acontecia desde 1964 quando, no dia primeiro de abril, morreram afogados uns três moleques da cidade. O filho tomou nota, mas não desistiu de ir ao rio e tomar o seu banho logo pela manhã. Eles ainda ficaram conversando na varanda depois que o velho Coronel, já cansado, foi deitar. Como é natural conversaram sobre o que tinham conversado quando o velho estava presente, mas achavam todos que, se o velho vendesse a casa poderia sair daquele inferno em que havia se transformado a Várzea nos últimos quarenta anos. Eles concordaram quanto a isso e até com a idéia de que o velho poderia comprar um apartamento de cobertura na Beira-Mar, em Fortaleza. Lá ele poderia terminar seus longos dias com Dona Santinha e onde todos poderiam ir visitá-lo com maior freqüência – as viagens para a Várzea continuavam ainda demorando muito tempo, pois as estradas tinham buracos do tempo do Império. O único que não concordou com a sugestão foi Teophilo Ignácio que antevia a ida da Maria com seus pais abandonando-o na Várzea e por diversos motivos inclusive pelas inigualáveis tapiocas que ela fazia. Enfim, todos foram dormir, depois de um café simples, e esperar a reunião do dia seguinte.

Bem cedo, Arcádio Adolpho saiu para o rio levando sabonete e uma toalha. Ao chegar a Barragem viu o que todos já tinham dito: o rio estava a toda largura, cheio e rugindo, as águas correndo sobre a parede, ninguém imaginaria que ali havia uma barragem, somente quem já a havia visto no verão, pois o nível da água era o mesmo do lado de cima e do lado de baixo. Metia medo. Mas ele não pensou senão em mergulhar nas águas do rio de sua infância e lembrar dos momentos agradáveis que passara ali sobre os lajedos e pulando e nadando nas águas calmas. Tirou toda a roupa ficando nu - desde muito tempo esse costume havia mudado, mas ele era das antigas e queria fruir de tudo que lhe desse satisfação. Entrou com cuidado pela beira das águas barrentas, mas viu que era uma temeridade ficar ali à mercê da corrente violenta. Subiu o lajedo de volta à margem e pegou a toalha branca e felpuda para se enxugar; após enxugar o corpo com a toalha aberta ele a torceu e, pondo-a na virilha começou a esfregar, puxando-a pelas pontas em um movimento ritmado de vai e vem como sempre havia feito. Subitamente perde o equilíbrio e escorregando na pedra ensaboada caiu no rio batendo com a cabeça em uma parte saliente da pedra. Seu corpo foi encontrado na Volta da Areia no fim da tarde.

O velho Coronel Gregório Manoel Gentileza ficou extremamente chocado, triste e contrariado com a morte de seu primogênito. Não esperou muito, mesmo antes do enterro que se daria no Cemitério de São João Batista, no alto, para decidir a venda de seu Casarão para o tal empreendedor que estava comprando todos os casarões antigos da cidade, para modernizá-la, dizia ele. O Coronel logo chamou o Tenente Juracyr Magalhães e pediu-lhe que se encarregasse da venda já que ele não queria nem que nenhum dos seus se envolvesse com o tal empreendedor, pois segundo sua visão, o tal havia matado seu filho Arcádio Adolpho
.
(A gravura representa o Bispo de Tournai recebendo o imposto de cerveja dado pelo Rei Chilperico - Janelas da Catedral de Tournai, séc xv)

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Friday, August 14, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 84


LÍVIO BARRETO, poeta granjense, um dos fundadores da Padaria Espiritual teve um único livro publicado, “Dolentes”. Aqui mostro seu poema Ideal publicado nesse livro.


IDEAL


Menina e môça, a primavera em flor,
Um jardim de esperanças e de sonhos:
Dois olhos como o céu puros: dois sonhos
Polvilhados de risos e de amor.

Tem meiguice da ave mansa; doce
É sua fala: o olhar uma açucena;
Alma de flor: de lírio, de açucena
Qual se de lírio ou de açucena fôsse...

Menina e môça, o riso perfumado
Casto e lirial da primavera em flor,
Riso de anjo; olhar de anjo, alma de flor...
E, um sonho em riso entreaberto, iriado.

Brotam-lhe os seios, cria formas, nasce,
Vai para a vida, tão mimosa e meiga.
Franzina e airosa, é tão mimosa e meiga
Inda com as cores virginais na face!

Amo-a! Sonho de artista, eu a procuro
Extasiado em muda adoração!
Em minha muda e longa adoração
Adoro-a como o ideal de meu futuro!

1895

O poema está completo. A ilustração é a obra de Berthe Morisot: A Young Girl from the East (Mlle. Euphrasie)

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Thursday, August 13, 2009

VISTAS DA GRANJA 105


AQUITEVEAQUIFOIAQUIERA

O que existia neste descampado?

Esta foto traz mais uma lembrança da Granja, não de antes de ontem, mas de ontem. Você sabe?

continuação do texto/postagem

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Wednesday, August 12, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 23


GEORGE FOX, MARINHEIRO INGLÊS.

(webrotor.com/pages/military/naval/naval.htm)

Chegou o sábado e bem cedo chegaram Vanessa e Leluli. Quando os dois entraram no apartamento - ela tinha a chave - Jorge estava em seu quarto cochilando na rede vermelha. Ele sempre usava a rede ao lado da cama e trocava de uma para outra toda madrugada. Vá lá saber por quê! Os dois saíram do quarto em silêncio e foram ver televisão na sala, com o som no mínimo, para não acordá-lo. (...)

Jorge continuou a dormir o sono leve em que tinha estado desde a madrugada. Ele sonhou com seu pai, o velho Raposo Filho. Em seu sonho ele, como muitas vezes fizera, perguntava a seu pai de onde tinha vindo sua família. O velho gostava de contar para o filho criança uma história aparentemente meio verdadeira e meio inventada.

Ele dizia que um de seus antepassados fora um marinheiro inglês de nome George Fox, grumete de um navio que aportou na Cidade, pelo fim do século XVIII. Ele fugiu e se embrenhou de sertão adentro e o navio partiu sem ele. Este primeiro Raposo, pois ele aportuguesou seu nome para melhor ser aceito pelos habitantes do local que não gostavam de ingleses, gente que enriquecia explorando os outros países casou com uma das filhas do vigário da vila, que vivia de portas a dentro com uma índia de nome Guaciara. O casal teve muitos filhos que até não se sabe o seu número exato. O que é certo é que alguns deles ganhavam a vida como tropeiros, transportando cargas no lombo de jumentos e burros de um lugar para outro. Alguns eram exclusivos de algumas poucas firmas comerciais da Cidade. Entre essas estava Pitombeira & Cia que tinha um negócio de exportação e importação na cidade. Essa firma exportava principalmente charque, cera de carnaúba e algodão em pluma e importava fazendas, louças, café e uma infinidade de outros produtos. Essas trocas eram feitas principalmente com comerciantes nos portos do Maranhão, Ceará e Pernambuco.

Um desses rapazes não seguiu a profissão dos irmãos, mas se empregou como caixeiro de Pitombeira & Cia. logo subindo os degraus que o levariam à sua participação na firma. Ele ficou rico, pois a firma progrediu muito inclusive com o comércio de escravos. Sua mulher pertencia à família Teixeira, tradicional, mas sem riquezas, pois seu pai havia esbanjado todos os bens que herdou com a morte do patriarca. Ela era letrada como se diz, sendo capaz, assim como seus irmãos, de ler e escrever, inclusive em francês (Isso para Jorge Neto era um mistério insondável, como tinham eles aprendido francês em um lugar tão perdido?). Havia um que ficou conhecido como um escritor importante. Este Teixeira se correspondia com José de Alencar, o famoso escritor de Iracema e muitos outros livros conhecidos nacionalmente.

O casal Raposo teve dez filhos entre os quais Jorge Raposo Filho, o segundo. Quando Jorge Filho estava com doze anos seu pai pediu a um amigo, capitalista na cidade, que o recebesse em seu negócio para que ele aprendesse o “ofício”. O velho Jorge Raposo fez uma recomendação ao Coronel João Pereira: - Coronel não precisa pagar nada ao menino, pois ele vai ficar na sua loja para aprender e não para ganhar dinheiro.

Após poucos anos Jorge Raposo Filho foi admitido como sócio na firma do Coronel Pereira que já tinha sociedade com outro capitalista local. A firma passou a ter a razão social de Pereira, Raposo & Cia.

Nesta altura da história o pai de Jorge Neto parava de contá-la e dizia para o filho: - Filho você já ta cansado com toda esta besteirada; o resto fica para outra vez.

Quando acordou ouviu o som da televisão e perguntou alto: - Que é que ta passando na Globo? Mudem para o Discovery que eu quero assistir a um programa que vai passar às dez horas. É sobre descoberta de fósseis de dinossauros na Argentina. Deve ser bom.

Raras vezes ele tentava impor suas preferências.

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Tuesday, August 11, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 95


“CASAS SEM SAIA” OU VAMOS TIRAR A ILHA DO VICTOR DO MEIO DO RIO?


O inverno foi muito grande, talvez um dos mais fortes destes últimos cem anos. O Rio encheu e invadiu a cidade. O povo sofreu muito. Certamente o “São Raimundo” foi o bairro mais afetado. Mesmo muito tempo depois ainda se pode ver as casas de taipa vestidas somente com suas blusas, as chamadas “casas sem saias”, pois estas foram levadas pela cheia. Prédios chiques foram também afetados, mas esses em proporção inversa a sua importância e riqueza, nunca como as casas das pessoas do “São Raimundo”. Poucas medidas para remediar os danos imensos, - materiais ou pessoais -, são notadas agora. Uma dessas, anunciada por nada mais, nada menos do que ele, Talzinho, diz respeito à venda da Ilha do Victor. O argumento para isso é que a retirada da grande massa de terra diminuirá o volume de água que desce pelo Rio e assim evitará a inundação da praça onde se localiza o “Palácio Municipal Senador Veloso”. É constrangedor.

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Monday, August 10, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 65

ELE ESTÁ NAS MÃOS DE DEUS

O Pena dirigia a mais de cem pela estrada que vai dar em Trairi quando o Homem viu um velhinho sentado à beira da estrada com a cabeça entre as mãos. O Homem pediu e o motorista parou no acostamento perto do velhinho. Ele estava junto aos destroços de uma bicicleta e ao lado do corpo de um jovem. O Homem perguntou ao velhinho o que havia acontecido. – O Zeca, meu fio, vinha andando na bicicleta dele por aqui quando passou aquele camião com a pedrona bem grande e que caiu bem aqui nessa curva e pegou o meu fio bem na cabeça e jogou ele aí se estrebuchando todo. A De Lurde, qui vinha na garupa mais ele foi jogada lá no barranco e também morreu. O Homem perguntou então se a polícia já tinha tomado conhecimento do acidente. O velhinho disse que já fazia pra mais de três horas que eles vieram e foram embora dizendo que iam atrás de recursos.

- Agora eu entrego nas mão de Deus, ele rematou.


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Sunday, August 09, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 136


(Veja imagem em http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Chris_73/Work2)

FÃ INDO E VOLTANDO

Ele era um tremendo admirador do “american way of life”. Era um fã, indo e voltando dos filmes de caubói, dos “big macs”, das panquecas, comemorava o Halloween, enfim, de tudo que dissesse respeito à América. Achava que os presidentes da Grande Nação do Norte agiam sempre com acerto em suas políticas internacionais. Ele era, por exemplo, um fã de carteirinha do presidente Nixon. Quando seu primeiro filho nasceu, no auge do processo de Watergate, ele deu-lhe o nome de Nixon Noxin.

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CONTOS DA RIBEIRA (3)

Sob esse título postarei, semanalmente, um pequeno conto ou historia baseados em fatos e acontecimentos supostamente passados, em diferentes épocas, na região da Ribeira. Alguma semelhança com fatos reais é simples coincidência

COQUINHO DE MACACO

Todos das proximidades achavam estranho o comportamento dos habitantes da Ribeira. Eles se diferenciavam em todas as atividades que praticavam: eram bons lavradores, criadores, falavam bem, liam e escreviam corretamente, exerciam as diversas profissões necessárias ao bom viver de uma aldeia, gostavam e praticavam música, poesia e por aí vai. Seus vizinhos e eles próprios acreditavam que essas qualidades – na época essas atividades eram julgadas como de grande valor – eram devidas a algo em sua dieta e que ninguém ousava discutir o que fosse. (...)

Particularmente e entre eles desconfiava-se que isso fosse devido ao uso de uma palmeira, mais especificamente, ao uso de seu fruto. A planta foi descoberta por Martius em uma de suas viagens e a ela ele deu o nome de Copernicia macaca por se parecer muito com a Copernicia cerifera (carnaubeira) e também por serem seus frutos muito apreciados por um tipo de macaco da região. Ele também comprovou, através de suas inúmeras viagens, que a palmeira era endêmica de uma micro região que correspondia a poucos quilômetros quadrados da Ribeira; isso significava que o número de exemplares da planta era muito limitado. Além do mais, a palmeira produzia poucos frutos, pois somente um cacho com cerca de 50-100 coquinhos era produzido a cada ano. Martius, em suas observações, notou que alguns dos macacos que se alimentavam dos frutos, comendo não só a polpa, mas também quebrando o coco e se alimentando da parte interna, o embrião, eram mais desenvolvidos e pareciam ter domínio sobre seus companheiros. O cientista alemão notou ainda que cabras e o gado vacum tinham também comportamento diferente quando se alimentavam dos frutos, isto é, aqueles que comiam o embrião pareciam dominar seus companheiros que só se alimentavam da polpa. Parece datar de bem antes da descoberta de Martius a utilização dos frutos dessa palmeira na alimentação do povo da Ribeira e aí, acredita-se, estava a razão do comportamento diferenciado que seus vizinhos notavam neles. Contam os antigos que foi um caboclo da terra que fez a descoberta. Ele, no meio de uma população apática, castigada pelas secas periódicas e pela tirania de um coronel escravocrata, descobriu que dentro do coquinho havia alguma coisa de diferente. Ao observar os gados que comiam o coquinho e também o interior do mesmo - o embrião – notou esse comportamento diferenciado que se apresentava pelo fato de guiarem, de dominarem seus companheiros do rebanho, ele resolveu afoitamente experimentar em si e dar para sua família e viu que isto era bom. Ele passou a ter mais forças, mais poder de decisão, passou a apreciar o canto dos pássaros, e gostar de ouvir e contar histórias para os seus filhos. Ele resolveu aprender a escrever e a contar e ensinou à sua mulher e aos seus filhos as artes da escrita e da leitura. Chegou mesmo a aprender a tocar berimbau. Essa história correu célere na Ribeira e daí foi um passo para todos os habitantes do lugar e das proximidades mais próximas utilizarem o coquinho e o seu embrião para sua própria alimentação. E essa “coisa diferente” que se encontrava no embrião era uma macinha cinzenta muito gostosa e que parece nutria as pessoas que a comiam, não só de proteínas, carboidratos, mas de outras substâncias e de muita gordura (não trans), além de estruturas não bem reconhecidas. Essas somente dezenas de anos mais tarde, neuro cientistas alemães especializados descobriram ser algo semelhante a neurônios animais. O mais interessante é que ficou demonstrado serem esses neurônios incorporados ao tecido cerebral de quem ingeria a tal massinha cinzenta. Talvez estivesse nesse fato único a explicação para o alto grau de desenvolvimento intelectual da população. Bem menos de um século depois da descoberta dos efeitos do coquinho da Copernicia macaca no comportamento humano e sob o domínio do Oligarca Maior as populações vizinhas e depois as da própria Ribeira notaram que os seus efeitos estavam diminuindo consideravelmente. Primeiro aconteceu com os mais velhos: eles perderam o interesse por tudo de bom que tinham eles próprios desenvolvido, como o gosto pela música e pela poesia. Seguiram-se logo outros grupos que abandonaram as escolas noturnas e os cinemas. Os jornais diários e os semanais logo seguiram o caminho do olvido. Muito rapidamente o comportamento da população voltou aos níveis de quando o primeiro caboclo experimentou o embrião do coquinho da Copernicia macaca. Estudos nutricionais demonstraram que o consumo do coquinho da palmeira milagrosa pela população havia diminuído extraordinariamente e isto mostrava que o número de palmeiras estava diminuindo rapidamente e que a extinção da espécie era iminente. Estes estudos, complementados por estudos de botânica aplicada, mostraram que a extinção estava sendo causada pelo uso excessivo do coquinho na produção de gordura usada na produção de velas. Não se tem notícia de que qualquer medida esteja sendo tomada para reverter este horrível quadro.


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Friday, August 07, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 83


LÍVIO BARRETO, poeta granjense, um dos fundadores da Padaria Espiritual teve um único livro publicado, “Dolentes”. Aqui mostro seu poema Último desejo publicado nesse livro.


ÚLTIMO DESEJO

Quando vier a Morte, ouve-me, escuta
A minha triste e última vontade:
Ela resume a minha mocidade
Que crepuscula e pálida se enluta.

Trago no seio muita dor oculta
Muita tortura, muita ansiedade:
Esta – filha do amor e da Saudade,
- Nascida aquela da passada luta.

Quero porém, a Deus, livre de penas,
Subir, alar-me às regiões serenas.
Ouve-me pois: não tremas nem descores...

Respeita a minha campa úmida e fria,
Não n´a ultrage tua hipocrisia:
- Sim! em nome das Lágrimas, não chores!


O texto acima está completo!

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