Friday, July 17, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 80


LÍVIO BARRETO, o “Lucas Bizarro” da Padaria Espiritual, nasceu em 1870 e faleceu em 1895, tendo deixado uma única obra, “Dolentes” (póstuma). Temos hoje o poema Lutas, publicado nesse livro.

LUTAS


A Ulisses Bezerra

Sinto-me triste e fatigado. Ainda
Vibra-me n´alma o seu olhar severo,
Inflexível, frio, calmo e austero,
Cheio das fezes de uma dor infinda.

A dúbia luz da lamparina treme,
Vacila como eu, como eu descora,
No entanto, aos poucos no Oriente a aurora
Sacode a cabeleira de oiro e creme.

O crótalo do ciúme o dente crava
Em meu amor; e eu sinto-me covarde
Nesta luta cruel, tenaz e brava
Onde minh´alma se estorcendo arde.

Deus do vencido, ó sono! Me acalenta
Esta agonia atroz que me esfacela!
Mas não, ó Dor! O sono me afugenta
Pois eu posso talvez sonhar com Ela...

- Granja – 1894

Wednesday, July 15, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 19

Serviço

Jorge,

É preciso notares que temos de mandar fazer aquele serviço antes que termine as férias do foro, para aproveitarmos a ausência do Juiz e do promotor que deverão chegar antes do término das férias. O capitão Pádua está muito interessado pelo caso e foi ele que veio me dizer ontem para eu providenciar tudo antes da chegada daquelas autoridades. Podes lançar mão de automóvel ou caminhão por minha conta e tudo mais que for necessário para a efetuação do que pretendo fazer. Lembro-te que Fernando Silva e Joaquim Pedra, talvez pudessem indicar pessoas a altura de realizar este serviço.
Creio que quatro pessoas dispostas serão suficientes, pois se trata de uma única pessoa e não parece ter disposição para luta. É bastante atrevida e se acha influenciada pelos comunistas. Acho conveniente a pessoa indicada vir até aqui para eu dar instrução. A estrada que vem de Pereiro para Almofala, tem rodagem muito boa até a casa e a distância dali para a casa é menos de um quilômetro. Fica aquém do cemitério do Cocorote vindo de Pereiro. Aguardo, pois tuas providências com toda urgência.

Do amigo certo e
Padrinho

Tuesday, July 14, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 91



Maicon e Maiquel

Jules Patriota anunciou em sua coluna diária que os gêmeos Maicon e Maiquel Biggs foram agraciados, em sessão solene da Academia de Ciências Ocultas e Letras Apagadas de Carlomindaba, com o diploma de Sócios Beneméritos por Toda sua Vida por seu envolvimento e empenho na edificação do monumento às crianças desamparadas na dita comunidade de Carlomindaba. Ao agradecer a homenagem os dois irmãos prometeram continuar seu delicado interesse pelas crianças da cidade. Os dois foram muito aplaudidos. Ao final da sessão houve farta distribuição de brinquedos para adultos e crianças.

QUEDA DA BASTILHA


Comemora-se hoje, 14 de julho, na França e em todo o mundo, a queda da Bastilha, uma fortaleza-prisão, em 1789. Após a queda da Bastilha “a burguesia se rebelou contra a monarquia e começou uma nova era de liberdade, igualdade e fraternidade.”


Quando nós daremos o nosso grito de liberdade contra os tiranetes que nos afligem, até aqueles nos mais baixos níveis da administração?

Monday, July 13, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 61


Diálogo na Beira-mar

- Quê que há camarada?
- Oi, tudo bem contigo?
- Tem ido lá?
- Lá aonde, macho?
- Ué, na tua terrinha...
- É, vou sempre...
- E como é que vão as coisas?
- As coisas, como sempre, vão, mas o povo vai ficando...
- E o Chefão? Está mesmo com tudo agora?
- Tu sabe que ele sempre teve com tudo, não é?
- Mas agora, depois dessa confusão toda entre eles, como é que ta?
- O que eu sei é que ele ta muito alegre, aliás, sempre ta alegre!
- E porque essa alegria toda?
- Rapaz, as verbas federais e estaduais para reconstrução estão sendo liberadas e já chegando...
- E seria por isso a alegria? Deve ter mais alguma coisa...
- Ele ta recebendo todo o dinheiro e já ta de viagem marcada para New Orleans.
- Vai fazer o que lá?
- Vai botar um implante de dentes...
- Implante de dentes? Conta isso, macho!
- Pois é: dizem que um dentista lá ta fazendo miséria, pois põe uns dentes que são um sucesso...
- Ué, mas todo dentista pé-rapado aqui faz implante dentário. Precisa ele ir?
- O problema com o Chefão é que ele é sabido, mesmo! Ele achou três soluções pra seus problemas mais urgentes: 1) vai tomar uísque Jack Daniels em New Orleans, 2) vai por um dinheirinho em sua “savings account”, 3) vai fazer o implante que vai melhorar sua performance bucal.
- Não entendi essa última parte...
- Macho tu quer que eu desenhe?

Sunday, July 12, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 134


O Palm ou a vida!

Ele pensou: finalmente chegou minha vez. Sempre pensava como seria seu fim, mas levar um tiro de um pé-de-chinelo drogado não era seguramente sua primeira escolha. Olhou pro sujeitinho: era um camarada igual a muitos outros que já vira a não ser pela cara de drogado. E o revólver, pequeninho, pretinho, com toda certeza, era de plástico, de brinquedo? Depois de ter passado seu relógio novo seria a vez do celular e depois a carteira, mas quando ele "achou" mesmo que a arma era de brinquedo começou a fazer cera para entregar o Palm que estava no bolso da calça jeans apertada. Olhou novamente para o revólver pequenininho na mão do Zé-ninguém e resolveu não entregar sua agenda/Palm/celular. O cara era um bronco: não percebeu o engate da primeira marcha e daí a arrancada com os pneus cantando foi um átimo, um instante. O revólver era de brinquedo... Do alto, Ella riu, pois isto não estava em seus planos.

Friday, July 10, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 79


LÍVIO BARRETO, o “Lucas Bizarro” da Padaria Espiritual, nasceu em 1870 e faleceu em 1895, tendo deixado uma única obra, “Dolentes” (póstuma). Aqui apresento seu poema A***, publicado nesse livro.


A***

I

Não te apavores tu, não te atormentes,
Ó minha doce e virginal senhora,
As rajadas coléricas, frementes,
Que me envolvem de dia e de hora em hora.

Como o mergulhador que sobe à tona
Sacudindo a ensopada cabeleira,
E as vagas corta procurando a beira,
E clamo, sobre as água se abandona:

Eu vou sereno contemplando o vulto
De um ideal que me sorri na mente...
Ódios? Não vejo, e rio-me do insulto,
Rio de todos, e amo a ti sòmente.

Sei que separa o vírus da calúnia
Muitas almas e muitos corações,
Mas a inveja banal desses vilões
O meu desprezo simplesmente pune-a.

II

Longe, no vasto mar, ermo, infinito,
A vela rasga-se ao bater do vento,
E o marinheiro audaz não solta um grito
Sobre as ondas do líquido elemento.

Pois se o navio voga e não deriva
Do rumo, e aproa aonde há de chegar
Não teme o mar, e aos ventos não se esquiva:
Que importa os ventos e que importa o mar?

Bem como o marinheiro, eu não descoro
Ao rugir da calúnia, bronco e fundo:
Que me importa esta gente, se eu te adoro?
Se tu me amas, que me importa o mundo?

- 1893 -

Thursday, July 09, 2009

VISTAS DA GRANJA 102


A Ponte de Ferro da Granja é, de longe, a estrutura mais marcante da cidade. Não há luz que ofusque o seu brilho, sejam as luzes incandescentes, sejam mesmo as pobres luzes de velas. Somente o Sol, o astro Rei, é capaz de torná-la mais enfeitiçada.

Farra junina em municípios cearenses


Leia o que o jornalista Fábio Campos escreveu ontem (8 Jul 2009)




e hoje (9 Jul 2009)




no jornal O Povo sobre a "farra junina" nos municípios cearenses.


(A foto que ilustra é tomada de EvaNave de 2008 em Fortaleza: EvaNave em Fortaleza)

Wednesday, July 08, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 19


Jorge Raposo, filho aprende a (não) guiar

O menino fora batizado no Parazinho com o nome de Oswaldo. O novo compadre de Jorge Raposo (filho), o pai do menino, era o Ladino, já amigo de muitas cervejas e conversas picantes no bar do Anastácio. O Ladino era exímio chofer de caminhão e vivia insistindo para o novo compadre aprender a guiar. Jorge prometia que, logo que comprasse um automóvel, aprenderia a guiar, pois queria botar o bicho na praça pra ganhar algum dinheirinho extra e ele mesmo tinha de guiar o monstro; os tempos estavam duros e parecia que iriam continuar assim por muitos e muitos anos. No começo do ano Jorge tirou um empréstimo na carteira agrícola do Banco do Brasil e comprou um automóvel Chevrolet novinho em folha na agência do tio Nanem. Quando o bicho chegou, trazido pelo compadre Ladino, foi só questão de conversar e o malhadinha foi aprender as artes da direção. Atrás do volante ele se atrapalhava todo com as ordens do compadre e trocava tudo que era de pé e mão: na hora de empurrar o pé direito ele empurrava o esquerdo, na hora de rodar o volante para a direita ele girava para esquerda. O compadre já estava se zangando quando Jorge, em um movimento brusco, joga o carro novinho em cima de um monte de pedra fazendo um barulho infernal e atraindo até os soldados da Delegacia, ali pertinho. O compadre Ladino resolve dar por encerradas as lições de direção ao amigo dizendo:

- Compadre você é muito inteligente, mas infelizmente sua inteligência está na cabeça e não nos pés.

Tuesday, July 07, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 90


Convites para os funerais de Michael Jackson

O empresário americano John Z. Wayne encarregado da distribuição de convites para a cerimônia do funeral do cantor Michael Jackson contatou altas autoridades locais a respeito de pessoas que se identificassem com o grande artista e, se possível, lhe enviassem seus nomes e endereços. A finalidade do contato era identificar essas pessoas e enviar-lhes convites especiais para comparecerem ao sepultamento do cantor no Staples Center no dia 7 de julho de 2009. O Secretário que atendeu ao pedido, Dr. Wolf Lobo Daronch, enviou os nomes e endereços (não mostrados por razões óbvias) das pessoas aqui listadas:

MAIKEL CICERO OLIVARES
MAIKELLE MOSCA AZEVEDO
maikol JUSTINIANO PEREIRA
MAIKON R. SILVA
MAIQUEL CÉSAR AGUIAR
maykon jacque ribeiro
maykon son REVERSON CORTES
MAYKON TIRESIAS SILVA

Não sabemos se todos conseguiram viajar para Los Angeles.

Monday, July 06, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 60


Programa de Anulação dos Queixumes, PAQ

Agora que Talzinho estava velho e perto da aposentadoria “eles” queriam tirar um sarro com ele. Mas o homem estava preparado para essa eventualidade. Em conferência com seus apaniguados maiores Talzinho havia decidido formular um Grande Plano: um programa, o “Programa de Anulação dos Queixumes”, que seria conhecido como PAQ. Um dos esteios do programa estava em renovar o plano de plantação de coquinho de macaco para a obtenção de neurônios vegetais; como já anunciado há tempos esses neurônios seriam distribuídos em mistura com farinha de mandioca para enriquecer a dieta dos membros do “staff” na esperança de vê-los elaborar projetos mais ambiciosos no que diz respeito à sua carga de “ganhança”.

Sunday, July 05, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 133


Gerência de Atendimento de Pessoal Abestado (GAPA)

Iliche cuidava das contas no Grande Banco. Ele era o Gerente de Atendimento de Pessoal Abestado (GAPA) e sua função era a de desencorajar tanto a abertura de novas contas como a manutenção de antigas. Um dos métodos empregados era o do telefone. Era simples, pois consistia em atrair os clientes, pedir-lhes que esperassem e daí a pouco atender dizendo que ligassem mais tarde. Ao fim de algumas tentativas ele levava o cliente a esperar por seu atendimento cada vez mais tempo. Seu recorde atual era o de um abestado rei que tinha esperado o telefone tocar setenta e oito vezes antes de desligar.

Saturday, July 04, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 78


Abaixo o poema Núbil de LÍVIO BARRETO transcrito de “Dolentes”, seu único livro.

NÚBIL

Mais do que tudo eu amo o teu olhar
Tão doce e meigo, ó débil sensitiva,
Que traz minh´alma trêmula, cativa,
Absorta e muda à luz desse luar.

Dos teus anos o cândido alvorar
Tua alma de anjo faz modesta e esquiva;
Cerca-te um ninho de perfume e aviva
O meu amor profundo como o mar.

Ao céu azul das minhas esperanças,
Como orações de mães ou de crianças,
Sobem cantando as aves do meu sonho.

E o coração, por entre a sombra e o pranto,
Diz-me que te amo ardentemente, entanto
Que tu não me amas, com pesar, suponho!

Thursday, July 02, 2009

VISTAS DA GRANJA 101








ROUPAS A SECAR NO VARAL NA GRANJA E ARREDORES 2

Wednesday, July 01, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 18


Cantada no salão


- Bom dia Marcinha, dizia ele e ela respondia:

- Bom dia, meu bem.

Ele não “ia ao barbeiro”, mas provavelmente ela era a única pessoa que acertava um corte para o seu, sempre rebelde. Quando na cidade ele só cortava com ela, com outro só se soubesse que ela não iria ao salão. Ele a chamava de Marcinha e ela o tratava por “meu bem”. Ao pagar ele sempre deixava uma boa gorjeta.

Ele tinha certeza que ela, nem seu nome sabia, mas isso não importava. Ele gostava dela e demorou muito até descobrir que era casada e que o marido era depressivo. Dele Jorge, ela sabia muito pouco, pois como sempre, apesar de conversador, ele se trancava e não entrava em particulares, principalmente depois de ter descoberto a existência do marido. Ela era mais uma que aparecia e ele não tinha a coragem de “cantar”. Ela não estaria nem nas dez das quais seu amigo falava:

- Jorge, tu canta dez e uma cai. Tu fica no lucro, rapaz!

Ele recusava usar esta estratégia e ficava na sua, isto é, nenhuma.

Neste dia Vanessa o deixou na porta do salão e prometeu voltar daí a meia hora. Sentou-se na cadeira de Marcinha e ela logo começou a operação que ele achava chata. Estava com muito sono e sentiu os olhos fecharem.

Procurou alguém conhecido e notou a presença de colegas de trabalho de ambos os sexos, que borboleteavam ao som de um conjunto brega. Seus colegas da Associação adoravam essas festas em comemoração a qualquer coisa; era oportunidade para por os fuxicos em dia e paquerar. Ele comprou uma dose de uísque com muito gelo e ficou em pé olhando o movimento dos casais; não sentiu vontade nenhuma de se aproximar dos colegas. Ele estava simplesmente marcando sua posição imutável: não conversava com “todo o mundo”... Para ele todo o mundo era todo o mundo, mesmo!

Ficou surpreso quando descobriu uma ex-aluna dançando com alguém conhecido. Ele esperou uma parada do conjunto e se aproximou dela:

- Oi como vai? Está de volta definitivamente ou ainda está em Brasília?

- É ainda estou arranchada lá. Agora sou Professora Assistente e estou fazendo doutorado com o Professor Rosado.

- E em que área?

- Nessas coisas que ele faz e que você também faz!

- Eu? Não trabalho em mais nenhum dos assuntos em que me envolvi com ele. Aliás, que ele me envolveu... Quer dançar comigo, agora?

- Vamos... Saíram os dois dançando, ele tropeçando em seus pés, fora do ritmo, pois nunca havia aprendido a dançar. Mas, nessa época ele tinha coragem de tirar uma colega para dançar, mesmo tendo que pedir desculpas o tempo todo. Ele começou a dar-lhe sinais de que de sua boca ia sair uma “cantada”. Até hoje ele não sabe o que viria depois. Ela o repeliu brutalmente:

- Cara tu tá completamente errado! Não tem nada disso! Tu mistura tudo! Vamos parar que eu vou embora!

Ele nunca mais a viu. Aliás, recentemente a viu no shopping e notou que, apesar de ser bem mais jovem do que ele, ela estava com a face completamente escavada.

- Pronto meu bem acabamos, disse Márcia. Parece que você estava era sonhando. Será que minhas mãos são mesmo tão delicadas ou você está com muito sono?

- Sei lá Marcinha. Acho que tenho dormido muito pouco nos últimos dias. Vou embora. Tchau.

Saiu após ter pago o corte e deixado a gorjeta costumeira. Foi sentar-se no banco de madeira que ficava em frente ao salão à espera de Vanessa que demorou um bocado.

Tuesday, June 30, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 89


Longa vida a Nosso Guia e morte lenta à nossa vila

A turma toda estava se refestelando à beira da piscina tomando seu uisquezinho e sua caipirinha para comemorar a repescagem do Grande Guia. Havia um grupo de forró tocando o tempo todo. Lá pela meia noite pede a palavra o insigne poeta que pretende em breve apresentar uma peça no futuro teatro da cidade (quando for construído). Ele diz: “Em louvor ao Grande Guia o nosso teatro será antropocêntrico, antropofágico, brasileiro e didático; o minimalismo que fique nas profundezas da cosmogonia do espaço.” Como ninguém entendeu o que ele quis dizer houve um silêncio constrangedor que só foi quebrado pela chegada de uma boa amostra do Grupo Representativo de Apoio ao Nosso Guia Imortal portando um grande banner com os seguintes dizeres: “LONGA VIDA AO NOSSO GUIA E MORTE LENTA À NOSSA VILA”. Houve muitas palmas para recepcionar a iniciativa dos jovens componentes do GRANGI.

Monday, June 29, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 59


Ele amputou o dedão do pé

Quando Rodolfo era rapazinho viu sua Tia tomando uma colheradinha da sua urina. Ele reclamou, mas quando Titia disse que as moscas estavam voando em cima do alguidar de barro que a Fransquinha punha embaixo de sua rede ele começou a pensar o que seria isso. Muitos anos se passaram e ele, já casado, morando na Várzea, levou uma estocada no dedão do pé direito e que não sarava nunca sendo preciso ir à Sobral para amputá-lo. Daí para frente foi só sofrimento. O Capitão Rodolfo morreu, ainda novo, em sua rede na Fazenda, de complicações causadas pelo diabetes, precocemente diagnosticado por sua tia quando ele era criança.

OBRA PRIMA DO DIA: "ÁGUA", DE ARCIMBOLDO


Veja no Blog do Noblat a Obra Prima do Dia de ARCIMBOLDO: Água (1563-1564). (Enviado por Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa- 29.6.2009 às 12h00m.)

Sunday, June 28, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 132


Um enorme punhal sobre seu peito

Ele notava que Ella estava se comportando bem diferente; não mais aparecia flutuando sobre sua cabeça a sorrir com um ar zombeteiro. Mostrava ter maior controle sobre seus atos em relação a ele: não mais aquelas eternas ameaças que nunca se concretizaram. Foi então que, deitado após ter tomado somente duas taças de vinho sentiu – teria sido um sonho? - uma mocinha debruçada sobre ele descendo ferozmente um enorme punhal sobre seu peito.

Friday, June 26, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 77


Trazemos hoje o poema Bela de LÍVIO BARRETO transcrito de “Dolentes” seu único livro.

BELA

Alta, franzina, erecta, o porte nobre e fino
De uma graça ideal de planta delicada...
Através do esplendor da renda perfumada
Emerge o seio firme, estonteador, divino.

De uma graça felina e de risadas francas,
Ao olharn-nos o fulgor de seus olhos serenos
Faz lembrar em jardins de seiva o viço plenos
Dois miosótis azuis entre açucenas brancas!

Thursday, June 25, 2009

VISTAS DA GRANJA 100







ROUPAS A SECAR NO VARAL NA GRANJA E ARREDORES

Wednesday, June 24, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 17


Ricardinho toca gaita de boca

O neto costumava passar os sábados com ele. Eram muito apegados e, quando Jorge ficou com dificuldades para andar, tendo de usar uma bengala, ele gostava de ficar junto ao avô conversando, lembrando de quando ele era pequenininho e mimado por todos. Cresceu, mas os dois continuaram a se gostar. Ricardinho estava bem adiantado no colégio, “culégio” como teria dito seu pai sem que ninguém soubesse de onde ele havia tirado essa pronúncia para uma palavra tão banal. Talvez fosse devido ao tal “verniz cultural” do qual Jorge sempre tinha ouvido falar, mas não sabia o que fosse desde criança e que mais tarde, bem mais tarde, ele aprendeu que não era um simples verniz, mas uma tinta escura e bastante espessa. O menino fazia o primeiro ano do segundo grau em um colégio público, pois os particulares estavam cada vez mais caros. Ele gostava de música, qualquer tipo de música e fazia suas tarefas ouvindo alguma peça clássica ou alguma coisa de bossa nova, ou jaz, ou mesmo esses ritmos bem moderninhos de que o avô não apreciava. Em outros tempos diriam que o interesse do menino por música mostrava que o espírito musical dos Raposo – eles também tinham um espírito musical - havia encarnando nele. Tocava gaita de boca e estava tendo aulas de violão, se bem que suas tias esperassem que ele tocasse piano. Ricardinho também fazia natação e quando o avô caminhava, ele o acompanhava, de vez em quando, nos poucos quilômetros que costumeiramente o velho fazia na Beira-mar.

Tuesday, June 23, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 88


Papeluchos voadores e iluminados

Ricardo conseguiu segurar o papelucho que estava sendo carregado pelo vento. Ao tentar lê-lo – estava molhado e sujo e faltando boa parte do texto – decifrou a frase religiosa: “O Poderoso Senhor mais uma vez faz a repescagem do nosso Guia Iluminante, o Homem Clarividente.” Ele não entendeu, mas teve a sorte de pegar um outro papelucho levado pelo vento forte. Neste estava escrito: “A comunidade varziana convoca todos os amigos e seguidores de nosso Iluminado Guia para se fazerem presentes à solenidade a ser realizada à Beira do Rio quando agradeceremos ao Poderoso Senhor não ter levado embora nas águas nosso Preclaro e Clarividente Guia. Todos à Beira do Rio hoje, na hora da novela das oito.” Após ter lido os papeluchos Ricardo mostra à sua mulher e os dois vão felizes participar da homenagem ao Iluminado Guia de todos os varzianos.

Monday, June 22, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 58


Desatando nós

Fez muitas dívidas no banco para comprar a padaria da esquina. Era um ponto bom e ele sabia que ia dar certo. Passados poucos meses começaram os problemas. O apurado não dava mais para pagar as parcelas do empréstimo e as despesas só aumentavam. Zequinha arranjou um caso com a Marli do caixa e isso só agravava seus gastos pessoais com cinema, jantares e motel e o que mais fosse além é claro de dar uma enorme mão-de-obra. O pior é que ele descobriu que sua mulher, a Fátima, estava namorando o vizinho, o Dirceu, um taxista que fazia ponto mais adiante na rua. Depois de tantos anos de casado e com filhos adolescentes lhe acontecia essa corneada! Seus problemas não acabavam aí. Antes de tomar a decisão de procurar ajuda vieram-lhe dizer que sua filha, a Marta, o amor de sua vida, podia ser encontrada todas as noites atrás do muro do Hospital aos amassos com o jovem padeiro, o Aluísio. Ele foi aconselhado a fazer uma oração a Maria-desatadora-dos-nós. Não sabemos se o Zequinha conseguiu se livrar de todos eles.

Sunday, June 21, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 131



Créditos vencidos

Sentado a sua frente ele a via passar a folhinha do ano. Este mal começara e Ella tinha muito que passar até escolher um santo que lhe conviesse. Ele observa aquilo sem muito interesse embora compreendendo o que Ella queria dizer com o gesto. Subitamente lembra que tem algo importante a fazer e, dirigindo-se a Ella pede:
- Eu sei que meu crédito está acabando, mas você podia me transferir um pouco de alguém que não precisa ou está dilapidando o seu. Ella devolveu-lhe o olhar e balançou a cabeça:
- Não! De jeito nenhum...

“FESTA DO PARAZINHO”


“FESTA DE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO DO PARAZINHO”

Inicia-se a 22 de junho prolongando-se até 2 de julho a conhecida “Festa do Parazinho”. Trata-se de festejos católicos em homenagem a Nossa Senhora do Livramento e que relembram pretenso milagre no salvamento de marinheiros ocorrido no litoral vizinho à Vila de Parazinho, em tempos coloniais. A festa é conhecida nacionalmente como tradicional local de romaria e peregrinação.
(Foto das duas igrejas)

Saturday, June 20, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 76


LÍVIO BARRETO

O poema, de autoria do poeta Granjense, abaixo transcrito, foi publicado em os “Dolentes”:

TORTURADO

A Antônio Horácio

Por que hás de vir assim com teu sorriso calmo
E a tua voz maviosa, e o teu olhar radiante,
De minh´alma sondar o fundo abismo hiante,
Como quem sonda um mau terreno palmo a palmo?

Há clangor de blasfêmia e doçuras de salmo,
Em tôrno; e em cima o vento histérico e possante
Da dúvida cruel com seu sopro gigante,
Ruge, quando em teu rosto o meu olhar espalmo.

Se sorris, eu recuo; se choras, me aproximo
E, como um rio, então abro o meu seio, o limo
Dorme quieto ao fundo: é o repouso da Dor!

Sufoca o teu querer; preme ao seio a paixão...
Não chega a saciar meu doido coração
A mágoa deste afeto, a angústia deste amor!

22-1-95

Friday, June 19, 2009

VISTAS DA GRANJA 99



O “Barrocão” sob as águas do Coreaú

Fotos tomadas no “Barrocão”, também conhecido como “Bairro São Francisco”, feitas no princípio de 2009, bem antes das enchentes de abril/maio do Rio Coreaú, em Granja.

Wednesday, June 17, 2009

FACES DAS FAVELAS


Audio slideshow: Faces das favelas

O artista francês JR marcou sua presença no Rio de Janeiro, no ano passado, com GRANDES POSTERS de olhos enormes, fixos, aparecendo nos prédios das favelas mais antigas da cidade.


Créditos: Photography by Helen Clegg and courtesy JR, AFP and Getty Images.Slideshow production: Helen Clegg and Paul Kerley. Publication date 17 June 2009.

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 85


Casamento desfeito

Ascânio Raposo deixava seus parentes na Malhadinha muito encabulados. Ele tinha um comportamento meio estranho e era muito exigente. Dizia que só casaria com uma jovem que trocasse a roupa de baixo pelo menos três vezes ao dia. Ele foi estudar fora e dizia, ao voltar, ter feito um doutorado em Química Quântica. Foi nessa época que ele começou a namorar Lavínia, uma moça do Iboaçu, filha de pai rico, bem situado. A jovem tinha por companheira moça de sua idade, muito bonita. Aproximando-se o casamento Ascânio mudou-se para a casa da noiva, pois morava na capital e a cerimônia seria no interior. Chegado o dia procuram o noivo por todos os cantos da casa e não o encontram. Subitamente, ouve-se um grito histérico da noiva. Passados alguns minutos ela consegue dizer que, tendo aberto a porta de um quarto que sempre ficava fechado, deu com o noivo montado sobre a amiga.

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 87


Os domínios do Barão da Lagoa

Lá do alto da colina Talzinho olhava para os antigos domínios do Barão da Lagoa e sentia muita inveja do que tinha sido e agora não podia mais ser. Antes, no tempo de seu antepassado mais ilustre, não havia toda essa confusão que estava havendo agora; tudo era simples, as pessoas obedeciam às ordens dele e contribuíam com seus donativos para o seu bem-estar. Era verdade que ninguém se interessava por essa história de aprender a ler ou ir para a escola. Isso era só para eles e olhe lá, pois muitos de seus irmãos e primos não gostavam de escola e não sabiam mesmo ler ou escrever, só sabiam tirar conta de somar e multiplicar. Ele lembra que quando menino o velho, que não gastava muito de seu próprio dinheiro, sempre conseguia trazer presentes para eles; certa vez, quando a Biblioteca Municipal fechou as portas por falta de verbas ele levou para a meninada um caixote de livros que eles usaram em lugar do papel higiênico no banheiro lá de baixo.

Tuesday, June 16, 2009

TORNADOS CAUSAM DESTRUIÇÃO NOS EUA


Tornados causam destruição no estado do Colorado, nos EUA
Pelo menos dois tornados atingiram o estado.Nova Jersey também foi atingido por tempestade de granizo.

(Veja reportagem no G1 de 15/6/09)

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 57

Da Casa dos Deuses para Férias na Disneylândia

Em uma das dezenas de cavernas encontradas no Tepui, na Casa dos Deuses, nas altas montanhas da Venezuela, Talzinho bebericava seu uisquezinho fruindo dos conhecimentos e idéias que lhe passava seu mentor, o velho Diare. Interrompendo seu enlevo chega um emissário lá de baixo e lhe transmite a notícia de que agora tudo estava bem e que no próximo mês eles poderiam passar aquelas férias na Disneylândia. Talzinho levantou o copo de uísque e disse:
- Agora sim eles vão ver!

Sunday, June 14, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 130

Coroa de borboletas azuis

A cada passo borboletas azuis esvoaçavam sobre sua cabeça formando uma coroa viva. Quando entrou em casa e subiu ao quarto a seu encontro ela o encantou, pois ele nunca havia visto imagem tão encantadora. Ela estendeu-se sobre a cama forrada com lençóis de linho branco, e esperou que ele dissesse alguma coisa. Mas, foi preciso que Judite tirasse a roupa para ele acordar de seu sonho. Borboletas azuis agora se transformavam em lírios que emolduravam sua cabeça enquanto seu corpo nu descansava sobre a cama. Mirando aquele jovem e belo corpo ele nota que os pés da menina são formados por delicadas, mas reais patas equinas.

Friday, June 12, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 75


LÍVIO BARRETO, o “Lucas Bizarro” da Padaria Espiritual, nasceu em 1870 e faleceu em1895, tendo deixado uma única obra, “Dolentes” (póstuma). O poema abaixo transcrito foi dedicado ao também granjense e membro da Padaria Espiritual, Arthur Teófilo cujo pseudônimo na agremiação era Lopo de Mendoza.

OH, DEIXA-ME CHORAR!

A Arthur Teófilo

Oh! Deixa-me chorar! não me despertes
Da letargia atroz do desalento!
Procuro ansioso a paz, o esquecimento;
Dormem meus sonhos pálidos e inertes;

Embalde d´alma carinhosa vertes
Consolações; nas roscas do tormento
Duvida e zomba o coração friorento
E à confiança antiga o convertes.

Foi-se-lhe o dia; vem a noite agora,
Noite infinita sem rubor de aurora
Jamais na torva e fria imensidade!

Que amarga e trágica irrisão, querida!
Tu que já foste o sol de minha vida
És o morto luar desta saudade!


Camucim – Junho - 94
(A gravura acima é Dawn de Alphonse Mucha)

Thursday, June 11, 2009

VISTAS DA GRANJA 98


O Riacho Itacolomi deságua – quando tem água - no Rio Coreaú em terras da Data Missão, no município de Granja. Melhor dizendo o riacho encontra o rio nessas terras.

GEORGE SANTAYANA


"Aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo"


disse George Santayana em "A Vida da Razão", de 1905.