Saturday, November 14, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 16


O MENINO


O menino acordou cedo, como de costume, pois não gostava de se atrasar para as saídas com o Renato. Hoje eles iriam pegar canário pros lados do Cemitério. O amigo lhe dizia que já tinha pegado muitos por lá com seu alçapão e, se eles levassem dois, seria bem mais proveitosa a saída. O menino tinha ganhado um bem novinho do Zé Costa, caixeiro da bodega do seu pai. (...)


Sentou-se à mesa e esperou que a Rosilda terminasse de por seu café, pois os adultos já tinham tomado o seu e ele, apesar de ter acordado cedo, viu, mais uma vez, que os outros madrugavam. Seu pai já tinha ido para a bodega no Mercado e a Mãe estava na cozinha metida no preparo do doce de caju para mandar para Fortaleza.

Ele gostava das tapiocas que a Rosilda fazia, pois eram bem fininhas e sequinhas e ele abusava da nata, de coalhada, para torná-las ainda mais gostosas; chegava a comer cinco ou seis com café de leite. Tinha ainda queijo de coalho e um pãozinho celestial – ele não dizia esta palavra – feito pelo padeiro da vizinhança; esse pão era bem pequeno, quase do tamanho de um dedo indicador, escurinho, e torradinho – o pão do Pompe. Desses, ele comia uns três ou quatro, agora com manteiga Patrícia, de lata.

A negra Rosilda adorava servi-lo e ficava ao seu lado, em pé, pois era sempre uma oportunidade de falar sobre o que se passava na cidade. Ela sabia que ele gostava de saber das novidades e ela podia, sem susto, expressar seus dotes de alcoviteira e fuxiqueirinha, como todo mundo em casa dizia. Certamente na cidade todos sabiam desses seus dotes.

Nessa manhã ela contou pro menino de treze anos que a Nicinha havia chegado à cidade, vinda pelo trem de Sobral, à noitinha.

- Você não a conhece? Ela é filha do Senhor Pereira. Ela falava escandindo as palavras, o que se notava bem na palavra S-e-n-h-o-r-r-r-r-r.

- Nunca ouvi falar nessa Nicinha. Ela é filha de quem mesmo?

- Do Senhor Pereira e eles moram no Parazinho. Ela é bem bonitinha. Dizem que ela foi fazer uma operação na Santa Casa e lá demorou bem um mês. Não se sabe que operação foi essa...

- Quantos anos ela tem? Perguntou o menino interessado.

- Acho que ela é assim da sua idade. Começando a rir e mostrando sua dentadura perfeita.

O menino logo perdeu o interesse, pois ouviu que o Renato estava chamando por ele da rua, mas disse:

- Rosilda, eu vou sair com o Renato e os meninos, mas quando chegar eu quero saber mais dessa história...

Saiu correndo levando a baladeira e o alçapão novo. Ao chegar ao portão da rua ele viu que o amigo levava o alçapão pendurado ao ombro por uma vara e viu também a baladeira de liga de borracha preta. Renato estava usando o seu inseparável chapéu de palha de carnaúba verde e encarnado.

Logo que o viu, Renato foi dizendo:

- Rapaz porque você não está usando um chapéu? Olha que eu sou preto e uso um o tempo todo e você, “um guardanapo”, vai se queimar todinho. Com isso ele queria chamar a atenção para a pele bem clara do amigo.

- É mesmo eu ainda não tenho um chapéu. Eu acho que não fico bem de chapéu, não.

- Que frescura é essa rapaz? Mais tarde você vai no Mercado, lá na bodega do Haroldo e compra um. Vamo logo!


Em casa, Vicente tomou seu café com um pedaço de pão seco, sobra de ontem. Sem falar com sua mãe, sempre ocupada na cozinha lá atrás ou no quintal dando de comer às galinhas, ele saiu logo e às carreiras pelo aterro. Ele volta rapidinho e grita:

- Mamãe eu vou tomar banho na Barragem com os meninos!

A mãe não o viu mais quando chega na frente da casa, pois saiu em nova carreira desabalada e chegou à estação antes do trem. Todos os dias, nas férias e no inverno, quando o Rio estava cheio, ele fazia essa aventura. Ia para a estação esperar o horário que vinha do Camocim e, escondido atrás de um monte de pedras bem pertinho de onde o trem parava, Vicente dava uma carreirinha e pulava para alcançar o último carro, assim que este passava, sem que o chefe da estação ou qualquer guarda o visse. Ele ia até a ponte onde havia uma parada para o trem tomar água. Essa manobra lhe economizava as energias para as aventuras no Rio com os colegas por quase todo o resto do dia, pois todos estavam de férias no Grupo.

Nesse dia ele tinha combinado com a turma do Barrocão e mais o Renato que morava na Rua Sete e o menino amigo dele que iriam se encontrar na Barragem. Tomariam banho e brincariam de jogar cangapé e depois pulariam da ponte, pois o rio estava muito cheio e era bom pra se pular até da última cruzeta, não tinha perigo nenhum. Ao chegar à Ponte os meninos do Barrocão já estavam tomando banho na Barragem e ele se juntou à turma nas brincadeiras e na busca de ramela que tinha muita mesmo.

A Barragem estava tão cheia que não dava para nadar perto da Ilha do Hugo, se eles quisessem nadar teriam de ir um pouco mais acima, a um dos poços, talvez o Pucu ou o Paraíso; lá as águas eram mais mansas, mesmo com o Rio muito cheio. Mas eles tinham de esperar pelo Renato e pelo menino, pois promessa é dívida.

Quando todo mundo achava que os amigos não viriam mais, pois já estava ficando tarde, os dois apontam lá na curva da estrada que vem da Praça da Matriz. Eles traziam os alçapões suspensos pelas varinhas de marmeleiro nos ombros e quando chegaram perto todos viram que só o Renato tinha um canário. O menino não tivera sucesso na sua caçada, mas certamente o nego rei iria lhe dar o que pegou.

A turma toda tinha ciúmes da amizade entre esses dois. Sem muita razão, pois o Renato, sendo filho da Dona Heráclia, lavadeira da casa do menino há muito tempo, era tido como de casa e os dois eram mesmo muito amigos. Deixa pra lá.

Como os dois estavam vestidos com calções por baixo das calças, foi só tirá-las e cair na água e se integrar às brincadeiras dos outros.


Lá pelo meio dia eles resolveram subir para o tabuado da ponte e pular nas águas revoltas e barrentas do Rio. Todos pularam e quando já estavam bem excitados um deles, parece que o Fernando, aquele menino que mora na Rua Sete perto do Renato e que tinha vindo com a turma do Barrocão, junto com um primo convida todos para pularem das cruzetas e lá do alto mesmo. Só ele próprio Fernando, o Vicente – sempre afoito – e mais um outro menino do Barrocão disseram que pulariam e começam a subir as cruzetas sem antes jogarem um olhar de desafio para os outros. O menino não resiste e, apesar dos apelos do Renato, acompanha os outros.

Forma-se como que uma fila de garotos subindo, um atrás do outro, até chegar à cruzeta apropriada, aquela de onde podiam saltar para o Rio e cair entre as pedras que todos sabiam existir, mas que estavam submersas agora e que eles desafiavam. A fila de garotos se movimenta a medida que cada um pula para as águas revoltas do Rio e, cada um a sua vez, emerge do fundo estampando um sorriso de vitória. O Fernando, o Vicente e o menino do Barrocão nadam para a enorme pedra que fica um pouco fora do centro. Todos agora ficam de olho grudado nas águas à espera do menino que havia pulado por último.

Passa o tempo e o menino não sobe. Talvez um, dois, cinco, dez, minutos. Nada. Não há sinal do menino. Ele não subiu. Todos se entreolham e começam a pular de volta às águas agora com uma tristeza imensa estampada em seus rostos infantis. Mergulham e sobem e nada. Renato que não havia pulado pula agora do tabuado e começa também a procurar o amigo. Nada. Após, talvez, uma hora eles estão mortos de cansados e desesperados. Nada. Somente a certeza que o menino, amigo de todos, desapareceu, é completa.


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Thursday, November 12, 2009

Aforismos do Velho Inaço 6


Velas acesas finanças alcançadas.

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Wednesday, November 11, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 28


SERVIÇO

Jorge,

É preciso notares que temos que mandar fazer aquele serviço antes que termine as férias do foro, para aproveitarmos a ausência do Juiz e promotor que deverão chegar antes do término das férias. O capitão Pádua está muito interessado pelo caso e foi ele que veio me dizer ontem para eu providenciar tudo antes da chegada daquelas autoridades. Podes lançar mão de automóvel ou caminhão por minha conta e tudo mais que for necessário para a efetuação do que pretendo fazer. Lembro-te que Fernando Silva e Joaquim Pedro, talvez pudessem indicar pessoas a altura para realizar este serviço.
Creio que quatro camaradas dispostos serão suficientes, pois se trata de uma única pessoa e não parece ter disposição para luta. É bastante atrevido e se acha influenciado pelos comunistas. Acho conveniente a pessoa indicada vir até aqui para eu dar instrução. A estrada que vem de Pereiro para Almofala, tem rodagem muito boa até a casa e a distância dali para a casa é menos de um quilômetro. Fica aquém do cemitério do Cocorote vindo de Pereiro. Aguardo, pois tuas providências com toda urgência.
Do amigo certo
José Gomes


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Tuesday, November 10, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 106


GIZ

O rapaz era duplamente estudante e professor. Cursava o último ano de Biologia e era professor dessa matéria em diversos colégios. Muito inteligente e muito arrogante. Chegava a ser insuportável. Certa ocasião assistia aula da disciplina ministrada por um professor sem muitos atributos didáticos. Ao fim da aula, quando o professor punha de lado o toco de diz que usara, ele levanta-se e diz:

- Um momento professor, não largue o giz, pois o senhor ainda vai precisar dele para me responder a essa pergunta...

O professor, adepto do contratudismo, retrucou:

- Vou largar o giz e não vou responder à sua pergunta...


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PRAGA


A cidade é conhecida como a das “cem torres” e é considerada como uma das mais bonitas do mundo. Praga, capital da República Checa, está situada às margens do Rio Vltava, na Boêmia Central, no centro da Europa. A cidade é famosa por sua arquitetura – O Castelo, sua cultura – nomes como os de Dvořák, Smetana, Kafka, Rilke, Mucha e muitos outros. Não esquecer da cerveja do país (Pilsner Urquell).


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Monday, November 09, 2009

O MURO DE BERLIM CAIU HÁ 20 ANOS


Há vinte anos no dia de hoje (9 de novembro) caia o Muro de Berlim. Esta estrutura foi construída em 1961 a fim de isolar o lado ocidental – capitalista - da Berlim dividida, do seu lado oriental - comunista. Durante a existência do Muro famílias foram separadas, foi proibido o trânsito e as pessoas proibidas de sequer visitar o lado ocidental. O fim da Guerra Fria criou as condições para a derrubada do Muro em 1989.

Há uma extensa literatura sobre o acontecimento e um grande número de sites onde se pode ler sobre a Construção e a Queda do Muro. (Wikipedia; g1; vídeo Globo). Leia também "Sete minutos que abalaram o mundo."


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Sunday, November 08, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 146


VOVÔ

Era muito querido por seus sete filhos e sete netos. Quando os filhos perceberam ele havia entrado em um processo de depressão muito grande. Quase não falava e aparentava não ouvir. Não lia, o que era seu hábito preferido e nem conseguia ouvir seus clássicos, costume mais recente. Também não conseguia mais andar, perdera forças nas pernas. Ficava todo o tempo em uma cadeira de rodas movimentada por todos na enorme casa. Seus netos desconfiavam de que ele ouvisse as exclamações de todos:

- Bota o vovô no sol! Ou então:
- Tira o vovô do sereno!

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Saturday, November 07, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 15


A FESTANÇA

O Secretário veio lá da terra do sol e do caju só para procurar um local adequado para a grande festança que a turma iria promover pela permanência do Nosso Guia no trono. Na verdade quem iria promovê-la eram os Poderes Públicos, todo mundo sabia, entretanto ninguém falava, pois mais uma vez se diga que sobre essas coisas não se fala podendo até pensar, mas só poucos e infelizes lá pensam, daí não havendo problema. (...)


Mas de qualquer forma a turma apoiava o que não era de admirar, pois todos já apoiavam o Homem o tempo todo. Tinham o rabo preso em algum gancho. O Secretário encontrou e alugou logo, com muita antecedência, - outros poderiam passar-lhe à frente, apesar de ainda estarmos em novembro, de 2012 o ano do que infelizmente poderia ser o último do reinado do Dr. Tal - a cobertura do Hotel Des Fleurs na Beira Mar para a grande recepção que os Poderes Públicos dariam. Com mais uma eleição do Nosso Guia, a enésima, todos na Cidade estavam eufóricos. A perspectiva de continuarem a se locupletar pelos próximos quatro anos e de se empanturrar, agora, na janta preparada pelas grandes cozinheiras e doceiras da Cidade, ajudadas por maitres dos melhores restaurantes como o L´e, com sua chef Marie Dobamá, enchia a boca de todos de uma saliva espessa e orgulho desmesurados. Grande também era a expectativa de beber do melhor uísque e do melhor vinho, ambos escolhidos pelo próprio Dr. Tal.

Para o povo rude ele escolheu uísque Jóquei Clube – para lembrar dos anos 1950 quando tudo começou – e vinho Sangue de Boi, este para homenagear sua esposa, a prefeiturável na próxima eleição, que era gaúcha de Pelotas, onde o único filho do casal, o Herdeiro do Trono, tinha nascido. Para si próprio o vinho escolhido era um Romanée Conti da safra de 1960 e o uísque era um Dimple de 15 anos, na falta de um melhor, pois o seu contrabandista preferido não chegara a tempo trazendo a primeira opção que era um Laphroaig de 18 anos. Na noite aprazada Nosso Guia sentou-se, feito um imperador persa e parecendo Alexandre Magno, em sua cadeira de espaldar alto, encimada por um florão que era ver uma coroa imperial e toda forrada com cetim branco imaculado, tendo ao lado sua esposa preciosa, consorte de todas as horas, a espera dos convidados. Estes foram chegando, a princípio os secretários e suas famílias, em carruagens, ou melhor, em carroças que devido à decoração diversa distinguia cada um dos clãs da Cidade. Eles vinham de lá, parecendo até que haviam cronometrado a marcha, pois chegaram minutos antes da abertura dos salões, sendo virtualmente despejados em frente ao hotel onde estavam à espera o Filho do Homem, como todos chamavam e o Primeiro Casal aprovava assim como os secretários mais acachapados de seu Glorioso pai. O secretário das Finanças chegou em carruagem vermelha, brilhando de luxo, trazendo uma pasta 007 que ninguém sabia o que continha, mas todos imaginavam; o Secretário da Agricultura, este chegou em um carro último modelo usando combustível ecológico do tipo animal, mas mal cheiroso; o Secretário da Cultura, que já tinha recebido o bilhete azul, veio carregado por uma carruagem de deslumbrante azul piscina para, apesar de tudo, render tributo a seus patrões, os donos e detentores do eterno saber na região; um carro branco como as nuvens trouxe a Secretária da Educação, sabia-se - ela não fazia mistério -, que sua missão na pasta era a de negar toda a velha, tradicional e pouca história do lugar, pois seu patrão, o Glorioso, só admitia história de sua família e mesmo, somente a dos últimos vinte anos, para trás era tudo irrelevante. Em seguida entram as pessoas que haviam chegado cedo e estavam esperando pelas ordens do Príncipe de Gales – ôps, ato falho! - e seu ajudante o Joaquimzão, - que não tinha nada de “zão”, pois ele era quase um anão e ademais por que esse camarada chegara a essa posição se ele estava antes do “outro lado”? São, então, introduzidas no Grande Salão Oval as professoras e professorinhas dos diversos grupos e escolas, estes, é bom salientar, tinham todos os nomes de parentes e aparentados do Nosso Guia. Não importa. Foi introduzida, Dona Francisca, a Sábia da Cidade, pois ela tinha mania de corrigir todos os documentos que chegavam às suas mãos bem como os livros didáticos usados pelas crianças, alunas de toda a Cidade, isto por mandato da Secretária da Educação; foram admitidas também as demais lentes. Essas outras professoras, como não tinham expressão própria, se é que se pode dizer assim, formaram grupos concêntricos ao redor do trono, pois era mesmo um verdadeiro trono como se estava vendo. Chegou a vez dos profissionais liberais, como os médicos, que quase não os havia na Cidade; dos farmacêuticos, entre esses se destacava o casal nota vinte, dez mais dez, pois não há nota de vinte, só oncinhas e peixinhos, famoso na Cidade por sua rápida ascensão financeira e pela projeção social; dos veterinários, pois havia um bom número desses, dado o enorme mercado para eles uma vez que era grande a quantidade de gatinhos e gatinhas e cãezinhos de estimação o que compensava a falta de rebanhos, pois estes só fazem sujar as ruas; e dos gerentes de bancos e poucos de seus funcionários; chegou a vez dos titulares dos diversos cartórios e dos cartorários, principalmente aqueles que faziam as transcrições de documentos, enfim boa parte da “soit disant” classe média da Cidade. Todos esses formaram mais um círculo em volta do trono de Nosso Guia. Para não alongar muito, vamos encerrar a lista dos entrantes de valor, mas sem antes deixar de citar os empreiteiros amigos que tinham aberto filiais na Cidade para ajudar em sua reconstrução, pois eram eles que estavam fazendo o embelezamento dela, derrubando casarões dos séculos XVII-XIX para construir prédios modernos. Por fim foram admitidas pessoas da plebe rude, era assim que o Dr. Tal se referia ao povo que havia votado nele e sempre o elegia e reelegia e a quem ele não gostava de homenagear de maneira nenhuma.

A festança começou com a distribuição, pelo Nosso Guia, de muito uísque Jockei Clube e vinho Sangue de Boi aos homens e mulheres que estavam organizados em filas ao seu redor. Após receber sua ração de bebida homens e mulheres continuavam organizados assim e se dirigiam para a mesa do bufete para pegar salgadinhos às mancheias, como é o costume nessas festanças, ninguém esperou, mas havia salgadinhos volantes para as personalidades mais importantes. Após uma meia hora as pessoas, já desinibidas, começaram a formar grupinhos de 5 -10 para melhor conversarem, e elas comentavam quase unanimemente a toalete dos membros da Primeira Família – ôps quase que se diz Família Imperial – toda ela mandada fazer nos maiores estilistas da capital. Nosso Guia vestia uma guayabera branca do tipo usado em Cuba feita em linho S120 e impecavelmente engomada. A Primeira Dama portava um longo preto brilhante da lavra de Dona Raimundinha que era da Cidade, mas tinha uma butique na capital, o vestido brilhava intensamente devido aos milhares de lantejoulas e lampadinhas chinesas de Natal que acendiam e apagavam em uma produção do Pedrinho o eletricista mais importante da Cidade. Quando todos estavam quase melados Nosso Guia deu a ordem para o início do jantar, isto é, início da passagem das pessoas pelas mesas com os diversos pratos expostos e postos à disposição dos famélicos. Havia de tudo, saladas de legumes frescos, frutas da estação, arroz brunido e arroz tipo carreteiro e Maria Isabel, feijão de corda com jerimum, feijão preto cheio de carnes, quase uma feijoada, vitelo ao molho de pimenta, carnes nobres com cortes argentinos, filés em diversos molhos, perus de Natal, galinhas secas da Palma, capotes, carne de criação, carne de porco, camarão ao molho de coco, lagosta com creme de mandioquinha, sirigado em manteiga e fines herbes. Era, enfim uma infinidade de pratos que daria para alimentar um grupo de umas mil pessoas que era bem mais do que aquele que rodava em seus círculos, agora uma grande espiral, na cobertura do Hotel Des Fleurs na Beira Mar.

Enquanto o Sangue de Boi e o Jóquei Clube corriam soltos o Príncipe Herdeiro recebeu ordens de seu Querido Pai e Mentor para o início da rodada de doces e docinhos. Estes eram queijadinhas, rosinhas, rosquinhas de açúcar e muito doce de banana e caju, todos produzidos nas futuras instalações das fábricas que já lhe pertenciam e que iriam exportar para a China e outros paises do Bric. Quando a rodada de docinhos terminou Nosso Guia tomou o microfone e fez um discurso de cerca de meia hora quando falou de seus planos para o futuro que incluíam asfaltamento de todas as ruas e das rodovias que chegavam até a Cidade, reconstituição da estrada de ferro, estabelecimento de linhas de metrô de superfície ligando os diversos bairros, abertura do aeroporto com um heliporto anexo e muitas outras obras. Quando ele estava enumerando todos esses futuros benefícios de seu próximo mandato o Príncipe de Gales aproximou-se e cochichou em seu ouvido e foi aí que o Dr. Tal acrescentou ao grande número de obras a climatização do estádio de futebol local com a instalação de um poderoso sistema de ar condicionado central. Quando ele terminou ouviu-se uma salva de palmas muito grande que foi interrompida a seu pedido quando então ele comunicou que todas essas obras seriam financiadas pela grande indústria de lamparinas de folhas de flandres que a iniciativa privada em associação com o poder público estava para inaugurar no bairro da Várzea. Nessa altura houve um ruído vindo de alguns setores insatisfeitos que reclamavam da falta de uma banda de forró que lhes permitisse arrastar os pés e balançar os quadris; infelizmente Nosso Guia, como não gostasse de sambar, não tinha permitido a contratação de uma banda. Após mais palmas Nosso Guia pediu a todos que debandassem em silêncio e tomassem suas carruagens coloridas para voltar à Cidade e retomar seus múltiplos afazeres público-privados.




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POEMAS BARRETO/XAVIER 91


Um poema de Lívio Barreto (1870 – 1895)

PARA ESCREVER

Mergulho a pena no tinteiro... cismo...
Em quê? e a pena entre os meus dedos presa,
Como uma alma suspensa sobre o abismo
Da dor, treme de frio e de surpresa.

Caos de pensar! Nevoeiros da incerteza!
Silêncio! Calmaria!... atroz mutismo!...
E o coração é uma fornalha acesa,
Uma cratera a vomitar no abismo!

E neste vácuo, neste desespero,
Quero debalde, inùtilmente quero
Dizer... nem sei o que dizer, Jesus!

Tenho o mar sob o peito e a tempestade
N´alma, e sou mudo! ó santa, tem piedade!
Surge, beija-me e diz: - faça-se a luz!

- 92 -




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Thursday, November 05, 2009

Aforismos do Velho Inaço 5


É mior depois da enchente, pois é quando o Home come mais nos cocho do gunverno.

continuação do texto/postagem

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Wednesday, November 04, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 27


PAPAGAIO

Todas as manhãs ele saia de seu negócio e dava uma volta pela Praça do Mercado entrando em quase todas as bodegas. Em quase todas ele tomava emprestado, - a alguns amigos e, às vezes somente conhecidos -, dinheiro para pagar as compras de couros de bode, cera, algodão que havia feito desde cedo a seus fregueses no grande armazém que fora de seu avô. Esses fregueses, muitos deles compadres, mesmo sabendo que ele estava quase falido, não tinha mais posses, como no passado glorioso, continuavam a descarregar dos burros e caminhões os produtos de sua lavra no armazém de Jorge. Ao fim do dia ele levava a um desses amigos fiéis, para endosso, um papagaio que seria descontado no dia seguinte no Banco.


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Tuesday, November 03, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 105


CLIQUE !

Ele era um jovem professor, mas já tinha um currículo de fazer inveja a qualquer um. Tinha feito um pós-doutoramento em Boston com renomado professor adquirindo prática em novas técnicas de Biologia Molecular. Estava, portanto, aparelhado para trabalhar e produzir muito e com grande qualidade. Logo após sua volta instalou-se em um apartamento no bairro mais chique da cidade, comprou um carro do ano e ganhou um laboratório espaçoso na Universidade. Conseguiu reunir um grupo de jovens e entusiasmados estudantes. Avisou ao diretor que ficaria em casa à espera de um clique que lhe indicaria o momento de ordenar a seus estudantes iniciarem um novo experimento.


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GRANJA - 155 ANOS


Há 155 anos a Granja era elevada à categoria de cidade. O povo da antiga Macaboqueira, representado por alguns poucos de seus habitantes, mostrados na montagem, deveria estar de parabéns, mas não está. Até quando?

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Monday, November 02, 2009

BUDAPESTE


A antiga Panonia dos romanos deu origem a atual Hungria que tem por capital a cidade de Budapeste às margens do Danúbio. A cidade é formada em sua origem por dois povoamentos, Buda e Peste, que somente no ano de 1873 foi definitivamente fundida em Budapeste, a capital.

A cidade é excepcionalmente bela e conserva muito de sua arquitetura antiga à qual se mescla uma moderna. O Palácio de Buda, o Parlamento, a Ponte das Correntes, o Mercado, o Memento Park (Parque das estátuas) são atrações da cidade, entre muitas outras.

Aqui estão links para ler e ver mais sobre a capital húngara (I, II, III).

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Sunday, November 01, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 146


DONA JOANINHA

Ela era muito eficiente quando se tratava de atender jovens estudantes à procura de moradia na cidade grande. Americana, ela havia sido funcionária de seu governo no Rio de Janeiro. Gabava-se de ter conhecido pessoalmente o presidente e sua família. Vinte anos depois suas feições lembravam às de D. Joaninha e pareciam ser o próprio retrato da primeira dama.


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Saturday, October 31, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 14


CINEMINHA

Marco era um voltante do Maranhão onde fora em busca das origens do Coronel; ele procurara os registros de casamento no velho cartório do primeiro ofício e o registro de firmas dos primórdios da Associação Comercial e tivera algum sucesso, pois agora ele sabia que o Coronel Carvalhedo havia casado com uma das filhas de João Pinto Ribeiro, um abastado comerciante na praça de São Luis. O que restava a ele agora era colocar tudo em seu devido lugar para a apresentação que faria no Gabinete de Leitura do Doutor Antonio Augusto no próximo sábado. E esperar que aparecesse alguém para ouvir o que ele tinha para contar. (...)


Sentado em frente ao micro ele olhava a parede branca ou seria melhor dizer de um creme bem claro, mas sem dúvida imaculada, sem qualquer mancha de dedos ou riscas de lápis. Ele comparava essa pureza ou limpeza com o estado atual, exaurido, de sua mente: após ter fechado os arquivos Word onde gastava tempo escrevendo contos, histórias, lembranças e impressões do que lhe acontecia diariamente, após fechar o dicionário no qual tirava suas inumeráveis dúvidas, ele que não sabia nada da língua, após fechar os sites de jornais - sempre abertos, os blogs de política, pró e contra o governo, que ele não era radical; os blogs dos amigos e das amigas, um destes tornou-se um ponto de apoio e reflexão importante; sites de humor e de mulheres bonitas, somente a tela de proteção restou brilhando no monitor. Por mais que procurasse alguma coisa de importante gravada em sua mente nenhuma mensagem se apresentava. Para que havia ele passado boa parte de sua vida alisando bancos de escola? Agora, quando se aproximava seu inarredável encontro com Ella acontece-lhe o inesperado, talvez alguma coisa que traga um pouco de animação para esses dias tão secos por que tem passado. Aconteceu que súbita e vagarosamente a tela brilhante do monitor se iluminou como se fosse uma projeção cinematográfica. Certamente não como em um cinema, que se tem um escurinho aconchegante, mas tão forte como se ele estivesse em uma sala com um moderno projetor. Ele caminhava na calçada da morada e, do lado oposto, abria-se uma porta com cenas nítidas como se fossem as cenas iniciais de um filme, mas só que sem os créditos, que esses muitas vezes atrapalham o espectador ansioso pelo início da projeção. Vagarosamente aparece na tela uma figura quase que angelical, com seu cabelo bem preto e curto ainda assim amarrado no arremedo de um coque preso com uma pequena fivela preta. Ela, em câmara lenta, mexe e remexe as peças de roupa que tem para vender. Com o continuar do filme Marco até adivinha que ela vai virar a cabeça em direção à frente da tela como que procurando por seu olhar. Ela o fez e com um bônus: sorriu para ele. Ele então devolve o sorriso acompanhado de um curto aceno que ela logo retribui. O filme é interrompido pela porta ondulada de ferro que fecha a loja de eletrodomésticos vizinha à lojinha onde ela trabalha. Em frente ao micro ele tem um sobressalto e acorda desse sonho estranho, mas delicado. Marco não consegue mais tirar os olhos do monitor que pisca o tempo todo. Subitamente a sua sessão de cinema recomeça e, agora, ele resolve avançar até a lojinha. Depois de algum debate interno ele decide que essa seria a melhor solução, pois ele não iria deixar a daminha – assim ele passou a chamar a garota do coque curtinho - sair de seu trabalho só para falar com ele. Ele chega à frente do balcão e ela o encara com um leve sorriso e pergunta o que ele deseja. Ele responde:
- Eu mesmo não sei. Talvez uma roupinha para criança.
- É, mas eu acho que você não quer mesmo uma roupinha para criança, não...
- Verdade. Eu só quero conhecer você, pois esta é minha primeira experiência com uma daminha que me lembra muito a Rosa do Cairo. Você já ouviu falar na Rosa do Cairo?
- Não. É algum filme?
- É e você parece com a Rosa.
- Será que tem esse DVD na locadora? Se tiver então podemos vê-lo juntos lá na casa da minha madrinha.
- Então ta. Eu vou alugar o filme. Até a noitinha.




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Friday, October 30, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 90


Este é um poema de Lívio Barreto (1870 – 1895)

MANHÃS DE OUTUBRO

Frias manhãs de Outubro, neblinosas,
Cheias de aroma, cheias de tristeza
Para minh´alma que se estorce presa
Nas rôscas das saudades angustiosas,

Sois para mim como esfolhadas rosas
Cobrindo o altar onde minh´alma reza,
E onde arde noite e dia sempre acesa
A lâmpada das dores tormentosas.

Frias manhãs de Outubro, eu vos adoro
Mesmo cheias do pranto das neblinas
Que é como o pranto que eu de noite choro.

As vossas névoas trêmulas e finas
São como contas pálidas; e eu oro
Vendo-as descer, as pálidas neblinas!

- 93 -


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Thursday, October 29, 2009

Aforismos do Velho Inaço 4


Os voto dos finado ajuda os negóço do Home.

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Wednesday, October 28, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 26


COSTA SUJA

O caso da família Cerqueira Vale é interessante. A mãe da jovem Joana, Dona Ana Francisca Pereira esposa do Coronel Viriato Raimundo da Costa queria casá-la, mas isto não era fácil, pois faltavam pretendentes adequados. Certo dia apareceu na Ribeira um moço bonito chegado da terrinha e que havia sabido da vontade da mãe da jovem em casá-la. Ao apresentar-se à matriarca ela lhe pergunta o nome de batismo:

- É Tomas Cerqueira da Costa, Senhora.
- Pois não casa com minha filha com esse nome!
- ...
- O Senhor vai ao Cartório do compadre Miguel Polycarpo e diz que eu lhe mandei trocar seu nome para Tomas Cerqueira Vale que é o nome que o Senhor vai dar para a família que formar com minha filha. Eu já tou cheia de tanta Costa suja na minha.

O texto está completo.

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Tuesday, October 27, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 103


VENENO CRUEL

Eles eram bem considerados na cidade e por isso tinham um grande número de afilhados, como era o costume. Esses afilhados e seus pais, os compadres e comadres, vinham da roça ou dos matos, como se dizia, para fazer compras, ir à Igreja, procurar médicos ou outros recursos de saúde e demoravam alguns dias hospedados na casa grande. Uma dessas afilhadas, uma menininha veio, acho do Recanto, para se tratar, pois tinha tomado acidentalmente, com certeza, uma solução de soda cáustica usada para lavagem de garrafas. Ela ficou em uma camarinha escura, e raramente se mostrava às crianças. Passaram-se alguns poucos dias e soubemos pelos adultos que ela havia morrido. Depois soubemos que seu nome era Hilária...


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Monday, October 26, 2009

ISTAMBUL

(Clique sobre a figura para melhor visualização)


Afora as primeiras povoações do Neolítico a cidade de Istambul, atualmente com ca. de 12, 5 milhões de habitantes, originou-se como Bizâncio, colônia grega dos anos 600 AC. Após ter sido tomada pelos romanos e renomeada de Nova Roma, a cidade, agora Constantinopla – cidade de Constantino – foi sede do Império Bizantino ou Império Romano do Oriente. Os turcos otomanos tomaram a cidade em 1493 transformando-a na capital seu império que durou até o século XX.

Istambul, a “Pérola do Bósforo”, é uma cidade fascinante por sua história, arquitetura e pelo povo. Aqui postarei de minha escolha, algumas imagens tomadas em viagem recente. Por outro lado há textos interessantes sobre a cidade aos quais remeto à consulta do leitor: na Wikipedia, “A Istambul de Orham Pamuk” entre milhares de outros.


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Sunday, October 25, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 145


NO CÉU-DA-BOCA

Ele era um famoso Biologista Molecular, com grande experiência em clonagem de genes de plantas. Certa ocasião fazia uma conferência para uma assistência superior a duzentos cientistas de diversas nacionalidades. Já quase ao final da demorada palestra ele a interrompe para beber água. Afirmou então que iria “tomar um copo d’água antes que minha língua pregue no céu-da-boca”.


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CONTOS DA RIBEIRA 13


A HISTÓRIA DE DARLAN

Sentado no banco da pracinha subitamente João é interrompido por um barulho, barulho mesmo - não é ruído - de uma moto preta que ele logo identifica como uma Honda Titan ES que risca à sua frente e para. De dentro do capacete também preto logo retirado sai a cabecinha bem formada de Anahí (bela flor do céu). Ela lhe dá um bom dia alegre dizendo: (...)


- Oi! Eu ainda não lhe havia visto! Quando você chegou?
- Oi! Que prazer! Eu cheguei há uns três dias e até perguntei por você...
- Olha, eu passo os dias trabalhando, quando não é no escritório viajo para o interior vendendo esses cavalos de ferro!
- Ôps! E você gosta do trabalho? Pelo menos dá dinheiro?
- Dá sim, pois estou bem melhor de situação do que naquela época da Faculdade.
- E o namorado? Ainda é aquele mesmo?
- Não... Estou com outro. Bem mais velho, talvez seja assim da sua idade!
- E eu, hein?
- Ah! Nem lembra! Me dá uma saudade daquela época em que a gente ia ao Campus todos os sábados... Escuta o que você faz aqui?
- Ué! Estou lendo aqui nesse sossego. E você vai para onde?
- Vou na casa de uma amiga, nós vamos alotar por aí...
Anahí faz um gesto de quem vai colocar o capacete e ele vê e quer que ela se despeça:
- Então ta... A gente se vê por aí...
- Tchau.
- Tchau.

Não havia muita escolha, ou melhor, não havia escolha alguma, pois a única praça na cidade que havia sobrado da fúria destruidora era a da Igreja de São Benedito. A praça é tão pequena que não tem mais de seis bancos e um outro tanto de algarobeiras. Pois foi para lá que ele se dirigiu na manhã do domingo para continuar a leitura do romance que havia interrompido já antes da viagem. Ele retomaria a leitura de “Vidas Secas” e estava curioso para ver como Graciliano Ramos contaria a história de Fabiano e de sua família de retirantes. Na verdade a pracinha tinha mesmo sobrado da destruição quase total das praças da cidade. Ele até se perguntava se essa faina destruidora tinha alcançado os distritos. Será que ela tinha chegado a Paraubina, terra de gente influente? Ou a Ibutira, onde até a Informática e Internet tinham chegado com tudo? Havia lá um moço que vendia materiais de informática e outro que tinha um blog, isso no distrito com somente 8000 habitantes. Estes novos equipamentos poderiam ser um freio para esses desmandos que todos vêm, mas ninguém diz ou faz coisa alguma. E há quem diga ser isso democracia. Restava conferir, como dizem os jovens, talvez sem noção de que se pode conferir muita coisa. Pois bem, ele sentou-se em um banco, desses antigos, de concreto, reminiscência dos primórdios da nova era, talvez do início da década de 1960. João não estava sentado comodamente, mas contraditoriamente ele se dispunha a esperar que alguém passasse a caminho das compras, pois a praça ficava no caminho do Mercado, o reconhecesse e parasse para um dedo de prosa. Não precisava nem reconhecê-lo, era só estar interessado em trocar ideias com alguém tão estranho que, para ler um pouco, tivesse tido a coragem de sentar-se em plena manhã, - noves horas, mais precisamente, - de um domingo ensolarado, mas fresco, pois havia chovido na noite anterior. E tinha sido até agradável dormir em sua rede vermelha.

Como fazia já bem mais de uma semana que ele havia interrompido a leitura de Vidas Secas e não havia marcado a passagem interrompida João demorou algum tempo para localizar o trecho que lhe interessava. Após reiniciar a leitura ele descobre que Fabiano vai em cana porque um meganha não simpatiza com ele e convoca o destacamento para lhe dar uma surra.

Nisso um carro preto, rebocando enormes caixas de som, estaciona a cinco metros, se tanto, de onde ele está. Ao descer do carro o motorista se dirige ao reboque e começa a mexer em fios e tal. Mais que depressa João abandona o banco que o havia recolhido desde cedo e vai em direção a, nem mesmo ele sabe aonde. Pois não há mais praças nas proximidades. Ao ouvir o barulho que vinha da pracinha em que estivera até ha pouco ele sabe que um dos candidatos a prefeito vai fazer propaganda enganosa pelas ruas da cidade, em pleno domingo. Ele acertou, mas não totalmente, pois o carro sai vomitando seus sons ensurdecedores e deixa a pracinha e seu banco livres para estacionar bem mais lá longe. Ele volta para continuarar a leitura interrompida.

Daí a pouco e ele já empolgado com as aventuras de Baleia, aparece-lhe à frente um senhor alto, com a barba por fazer e vestindo camisa e calças surradas que o cumprimenta:

- Bom dia. E faz menção de ficar ali em frente estático. João diz:

- O Senhor não quer sentar?

- Não obrigado, vou passando, pois vou até a padaria ver se compro pão e leite pro café. Ele continua: - Como é seu nome? Eu já lhe vi pela rua...

- Eu sou o João, filho do Sebastião Cunha.

- Ah! Conheci muito seu pai, um homem honrado e muito instruído.

- E o Senhor qual seu nome?

- Eu sou o Darlan, filho do Antônio Bento. Sou primo do Francisco Bento. Eu acho que este trabalhou no Armazém do seu Pai, no tempo antigo.

- É, pode ser, mas eu não lembro. E o que você faz?

- Eu sou aposentado pelo Estado. Eu era carpinteiro, mas fazia de um tudo. Trabalhava de empreitada e quando aquela ponte grande estava sendo construída o engenheiro responsável soube que eu era capaz e me chamou para fazer os moldes dos pilares de concreto.

- Ah! Legal!

- Pois é. Tive muito trabalho, mas como eu era bom mesmo no meu ofício a ponte foi inaugurada no prazo. Eu não tive muito estudo sabe? Mas saber fazer os cálculos todos eu sabia. Ainda trabalhei alguns anos em construção com esse engenheiro, mas aí tive um problema de saúde e fui aposentado.

- E a aposentadoria dá para o sustento de sua família?

- Dá o que Seu João! As despesas são muito grandes. Meu filho mais velho tem problema nos rins e precisa tomar muitos remédios que são caros como todos. Imagine o Senhor que só uma caixa custa quase cem reais e dá só para quinze dias. O dinheiro não dá pra nada. O pior é que eu fui enganado por essa história de aposentadoria consignada.

- Como assim? Não pode esquivar-se João.

- Nem queira saber. Apareceu um dinheiro na minha conta, pouco mais de mil reais, e no Banco disseram que era o empréstimo que eu tinha feito! Se eu não fiz empréstimo nenhum...

- E então?

- Aí não teve jeito, pois o dinheiro ficou sem ser meu! Mas, o pior foi que minha mulher quis gastar o dinheiro e eu fui no Banco e tirei...

- E agora?

- Pois é agora estão-me cobrando e eu não tenho como pagar...

- O Senhor já foi no Defensor Público?

- Já e ele me disse que não pode fazer nada, pois eu tirei o dinheiro.

- Ah Seu Darlan...

- Pois é Seu João. Bom, eu vou embora pegar o pão e o leite. Foi muito prazer conhecer o Senhor.

- O prazer foi meu. Até logo.

João voltou para a tragédia de Fabiano e sua família que, pelo menos estava só nas letras de Graciliano Ramos.




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Sunday, October 11, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 144


ENCONTRO NO AVIÃO

Ele foi quase o último a entrar no avião. Encontrou seu lugar no corredor e se ajeitou com a bagagem e o casaco. A cadeira vizinha estava ocupada por uma pessoa, mulher jovem, de quem, a princípio ele não viu o rosto. Quando o avião estava em velocidade de cruzeiro e a cabine mergulhada na escuridão, só com claridade da tela onde o filme da noite estava para começar, a jovem se mostrou em toda sua beleza. Ela era morena, alta, cabelos pretos, lisos e longos; os olhos eram dois poços de uma escuridão mais negra do que qualquer coisa que fosse possível imaginar. Logo depois era ele quem dormitava. Algum tempo depois ele sente uma pressão sutil em seu braço e desperta de um semi-sono. Levanta os olhos e vê aquele rosto lindo sorrindo para ele. Ele a reconhece e responde à sua indagação silenciosa: - É! Dormi...


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Saturday, October 10, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 12


A CHEGADA D´ELLA

São seis horas e ele ouve um carro parar em frente e logo seguem dois toques breves de buzina. Ele sabe quem está lá e dá uma ordem com sua voz que está bem fraca:

- Ô Maria Inês vai lá fora e diz que eu vou já. Que estou terminando umas coisas e vou num minuto. (...)


A empregada, um misto de governanta e enfermeira olha pra ele e hesita em cumprir a ordem. Jorge insiste e ela vai intrigada. Quando volta entra no escritório e diz que a pessoa que o procurava tinha ido embora. Ela aproveita para dar-lhe um copo de suco de caju diet sem gelo que é como ele gosta, ou melhor, suporta. Maria Inês não traz mais as frutas cortadinhas com mel de que ele gostava tanto. A dieta do Patrão, como ela o chama, está restrita a sucos e de vez em quando uma barrinha de cereais, também de baixas calorias. Ela não sabe mais o que fazer, pois ele está emagrecendo a olhos vistos, com olheiras e, para piorar não se cuida mais. Ainda há dois dias ela transmitiu pra ele o telefonema que atendeu:

- Patrão a Marcinha do salão ligou e disse que estava-lhe esperando.

Ele tirou o olhar da tela do micro e balançou a cabeça em sinal de negação.

Maria Inês mantinha seus filhos informados de tudo. Eles vinham visitar o pai, mas nada, o velho era teimoso e não os atendia. Ele parece ter desistido de tudo e só se alegrava um pouco quando os netos apareciam. Mesmo assim ele só suportava a visita de um de cada vez.

Jorge quer por força fugir d´Ella, mas está parecendo que é muito difícil. Quem ele acha que poderia dar-lhe apoio nessa fuga está se afastando, talvez as pessoas já estejam enjoadas dos apelos silenciosos que ele faz. Pudera Jorge não verbaliza esses pedidos e, como é normal, as pessoas não lhe prestam atenção. Para um camarada de oitenta anos vividos sem nenhum sobressalto ninguém desconfia que ele precise de ajuda. Talvez uma ou outra. Talvez. Mesmo aquela bela figura que o acompanha desde que a viu pela primeira vez na Malhada naquela tarde ensolarada e quente, parece ter-lhe abandonado.

Ele resolve viajar. Sempre que Jorge vai passar alguns dias na Malhada ele imagina que resulte em alguma coisa boa. Ele espera ver sua “bela figura”, como ele se acostumou a pensar na menina entrevista na tarde ensolarada. Mas, nem sempre é agradável ir na Malhada. Ao contrário ele tem muitas contrariedades, dissabores. É uma merda mesmo. Já fazia anos que ele não dirigia para lá, pois tinha receio de não terminar a viagem e por isso chamava o Pereira para suas viagens; às vezes este lhe levava até o interior onde visitava parentes ou o suposto túmulo de seu avô, lá no Pé da Serra. Logo que o motorista chegou eles viajaram, pois Jorge estava nervoso, impaciente, achando que, dessa vez, alguma coisa de bom lhe aconteceria na Malhada. Quando chegaram a Irauçuba ele nota que havia esquecido de pedir ao Dr. Airton uma receita para seu remédio, sem o qual não se afastava mais de um instante; se lhe faltasse teria que voltar, pois o Tropital só se vende com receita médica e obter uma não seria coisa trivial. Enfim, ele foi arriscando; se ele visse que iria precisar do remédio ele voltaria e, em quatro horas estaria de volta à civilização. Na Malhada, na casa de sua irmã e cunhado, ele esperava se alimentar melhor e pegar uns quilos. Com isso talvez enganasse a Ella que o vinha assediando com mais frequência ultimamente. E sempre havia o consolo de ver a “bela figura”. Mas ele a via constantemente, como agora, projetada nas copas das árvores que passavam enquanto o carro seguia velozmente.

Chegaram à Malhada no domingo à tarde Jorge ficou conversando com a irmã e o cunhado até bem dentro da noite, comendo ostras frescas acompanhadas de um bom vinho, sempre levado por ele, pois o casal gostava bastante, tanto do vinho e ostras como, talvez principalmente, da conversa com a qual todos renovavam os laços de amizade que sempre tiveram. Os três já eram bem entrados em idade e tinham tido as mais diversas experiências, principalmente as familiares, estas sempre desgastantes; discuti-las e aprecia-las sempre foi objeto dessas conversas no Grande Casarão herdado de seus avós.

Jorge decide, ainda no domingo, viajar até ao Pé da Serra visitar alguns parentes para uma boa prosa; muitos dos tios de seu pai ainda moram lá, apesar das inúmeras dificuldades que tinham para manter as pequenas nesgas de terra herdadas de seus pais e avós. Ele sabe que o Pereira não pode levá-lo até lá, ademais seu carro não pode penetrar as estradas de barro sempre esburacadas e tortuosas; seu cunhado telefona para o Martinho e combinam a viagem para cedo na manhã. Este é um motorista eficiente e prestativo que conhece não somente as estradas, mas todo o mundo pras bandas da Serra. Quando chegam à casa do Velho Inácio, na Furna da Onça, Jorge está muito cansado e perturbado; todos na casa notam isso e a um aviso do Martinho preparam uma rede branca, bem limpa e a armam na varanda e levam-no para ela. Jorge consegue dormir um pouco não sem antes ter mirado a “bela figura” que o acompanha sempre projetada na parede branca da varanda. Ele se anima quando as primas que rodeiam o avô o acordam para o almoço. Ele não deixa de apreciar a juventude e beleza dessas primas, distantes herdeiras das velhas tradições familiares e tribais e que também lhe dão atenção especial. A conversa é agradável e, pelas três horas é servido um café gordo, mas rápido, pois os visitantes têm de voltar para a Malhada para não chegar com noite alta.

Martinho se apressa na direção da D20 e tomam logo caminho, pois eles têm de subir um pouco a serra e entrar pelo Socavão do Sancho para depois pegar a estrada que os levará até a cidade. Ao chegar ao Socavão que traz o nome de um antepassado Jorge sente uma necessidade estranha de descer e procurar alguma coisa que ele mesmo não sabe o que é. Encabulado pede a Martinho que pare o carro diante de uma casa em ruínas bem dentro do socavão e desce.

A casa está abandonada, caindo aos pedaços, suja, imunda. Jorge entra e se depara com salas e quartos em abandono completo. Um dos quartos tem uma porta encimada por uma placa, um frontão, com os dizeres “Bem-querer”. É um quarto de crianças com uma penteadeira tendo um espelho grande, vertical, todo enferrujado. Ao aproximar-se do mesmo ele vê a imagem de uma menina – é quase uma menina – de olhos redondos, grandes, aquela “bela figura” de sempre, que lhe sorri e lhe aponta para seu cabelo curto e negro amarrado em um coque. Jorge quer abraçar a figura, mas encontra a lâmina do espelho que se desfaz em inúmeros pedaços. Somente nesse instante ele sente a presença definitiva d´Ella, mas aí não havia como evitar seu chamado. Ele também não queria mais.

Martinho vem correndo ao ouvir o som de vidros quebrados e encontra Jorge abraçado a um pedaço do espelho.

5/6 jan 2009


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Thursday, October 08, 2009

Aforismos do velho Inaço 3


Quero vê tu comê quando o Ináço morrê!

continuação do texto/postagem

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Wednesday, October 07, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 25


LENDO “SCIENCE”

Jorge conheceu Rivanda quando precisou de uma arquiteta para planejar a casa que queria construir na Prainha. Ele tinha comprado o terreno há muito tempo, quando ainda era casado. Ele queria muito ter uma casa onde fosse passar os fins de semana com filhos e netos que estavam começando a chegar. Eles tiveram diversas entrevistas com essa Rivanda e, por fim, chegaram a um acordo sobre o projeto, o orçamento e o detalhamento final. O plano de construção da casa teve de ser adiado por alguns anos, mas foi retomado e Rivanda permaneceu como a construtora, pois fazia parte de uma firma que também se encarregava disso. Ela frequentemente levava a ele no apartamento detalhamento de plantas, orçamentos e folhas de pagamento para ele dar sua aprovação. (...)


Nesse sábado quando ela chegou Jorge estava dormitando em sua cadeira de rodas na varanda com uma revista aberta sobre as pernas. Pé ante pé ela foi dar uma espiada nele. A revista estava aberta em um artigo sobre sinalização em plantas e Rivanda foi logo pensando:

- O velho está devagarzinho voltando a se interessar por Ciência. Será bom isso?

Alguma parte de seu pensamento respondeu:

- Como é que vou saber? Talvez ele não devesse se interessar muito...

Ele estava no laboratório quando uma de suas estudantes veio lhe entregar um envelope volumoso com a marca inconfundível do “Express Post”. Ele logo adivinhou o que iria ver. Quando abriu viu que era o manuscrito que havia enviado para publicação em “Plant Physiology” acompanhado de uma carta do editor da revista e mais algumas folhas soltas que deviam ser os pareceres dos revisores. Ele folheou o manuscrito enviado há duas semanas e notou logo, por sua experiência, que havia sido rejeitado, pois estava todo marcado com lápis vermelho, cheio de pontos de interrogação e de exclamação. Leu a carta do Editor e ficou pasmo com a frase escrita no final: “This manuscript can not be published in this journal in anyway!” Procurou nos pareceres recebidos e percebeu a arrogância e ignorância desses camaradas. É certo que o tema em que eles estavam trabalhando era novo, mas nem por isso deixavam de ser verdadeiras as experiências que eles fizeram. Em um dos pareceres o “referee” afirmava que certamente os autores haviam inventado os dados! Foi muito duro deglutir mais uma recusa; ele já estava acostumado a isso, mas sempre que acontecia ele se revoltava, algumas vezes sem razão, mas muitas, coberto delas. “Pode deixar”, ele falou em um de seus monólogos solitários, “Vamos enviar para outra revista, para outra, e outra mais até que essa droga seja publicada!”

- Leluli chama teu avô. Está na hora do almoço!

Quando o menino aproximou-se da cadeira viu que o avô estava com um sorriso maroto nos lábios.

- Vô você tava sonhando com alguma coisa boa?


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Tuesday, October 06, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 102

TESE MISTERIOSA

Ele era estressado, como se diz hoje. Estava sempre a pensar que alguém queria enganá-lo, roubar-lhe as ideias. Foi para os Estados Unidos fazer doutorado. Passou seis anos para defender uma tese. Quando voltou para assumir seu lugar na Universidade, todos perguntaram sobre os trabalhos que ele publicara a partir dos resultados de sua tese. Ele sempre se esquivava. Certo dia resolveu abrir o jogo e contar o que havia acontecido. Como ele desconfiava que seu orientador quisesse lançar mão de seus resultados e publicá-los como sendo só seus, ele resolve fazer o “copyright” de sua tese. O resultado dessa atitude é que nem mesmo o orientador pôde publicar o trabalho, mesmo com o nome do seu aluno estressado.


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MUNDO MÁGICO NO INSTITUTO JOSÉ XAVIER


O Instituto José Xavier de Granja (CE) abriu (5 de outubro) a exposição Mundo Mágico, uma mostra de brinquedos antigos como, rói-rói, bonecas de pano, trapezistas, pipas.

A exposição objetiva resgatar brinquedos desconhecidos das crianças de hoje, além de mostrar os trabalhos de desenho e histórias produzidos pelas crianças que participam do Projeto Cantinho da Leitura e na oportunidade do Dia da Criança.


continuação do texto/postagem

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Monday, October 05, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 73


SOPA JAPONESA

Ele estava sentado diante de uma mesa tomando uma sopinha, dessas instantâneas, quando chegou um japonês com seu prato de sopa e também se sentou. Este começou a tomar a sua e ele então viu que havia um pequeno peixe vivo no prato do outro e que o camarada tentava leva-lo à boca. Ele falou alguma coisa, reclamando. Subitamente um compatriota do japonês toma as dores do primeiro e diz que ele tivesse mais respeito com os costumes deles, porque no seu país era assim. Ele balançou a cabeça e continuou a tomar sua sopa sem peixe um vivo.



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Brasileiro é 80% europeu


A FOLHA DE SÃO PAULO de hoje (5/10/2009) apresenta matéria de Reinaldo José Lopes sobre a ancestralidade dos brasileiros:

Dados de DNA das cinco regiões do país mostram impacto prevalente de ancestrais brancos, com indígenas em último. Características como cor da pele, dos olhos e dos cabelos correspondem a pequena parte do legado genético que a população carrega


Leia matéria no link da FLSP

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Sunday, October 04, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 143


FRANCISCO CÉSAR

O Chico, além de ter uma fixação em nomes e seus significados, era um sonhador, vivia nas nuvens. Sonhava com épocas gloriosas e grandezas do passado mesmo sendo seu passado muito simples. Certo dia ele apareceu no bar com uma história fantástica. Contou que havia sonhado ser um guerreiro gaulês, sob o comando de um chefe ligado a Vercingetórix, em luta contra uma legião romana. Depois que seu comandante morreu eles se dividiram e passaram a agir isoladamente e a fazer guerra entre si. O Chico continuou a contar o seu sonho e disse que, após ter vencido uma batalha e de ter ganhado a posse de uma grande região na Aquitânia, foi coroado rei, dando início a uma nova dinastia. O nome que ele escolheu foi Cocisfran Rasec I, passando à História com o apodo de O Sonhador.

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Saturday, October 03, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 11


OLHOS NEGROS

Sentado em sua cadeira no estúdio ele pensava, pois entre muitas outras coisas Jordão também fazia isso, era uma de suas ocupações. Mas, o que se passava agora é que ele só pensava nela, mesmo ao fazer a barba, todas as manhãs; o pior é que Jordão não só pensava, mas a via no espelho, isto é, via sua imagem no espelho do banheiro; ele continuava a vê-la por todo o dia, ao virar uma página do livro que estava lendo, ao olhar para a parede coberta de quadros dos mais diferentes artistas – reproduções, bem entendido – ao olhar para as portas e por aí vai. (...)


(...) Quando saia de casa a imagem dela o acompanhava em cada rua e esquina, em cada sinal, em cada vitrine de loja e em cada café, na bilheteria do cinema. Era uma verdadeira perseguição. Ele via sua imagem com os olhos e com a mente – não seria o mesmo? - e, ele a via também quando, no quarto, deitado em sua rede vermelha, em completa escuridão e com os olhos fechados ele via seu rosto redondo, os olhos negros e brilhantes, o cabelo curto e preto com um coque minúsculo preso com uma pequena e estreita fita vermelha. O pior eram os olhos negros, pois eles emitiam um brilho forte, magnético que o atraíam particular e irremediavelmente. Atraiam para onde e para o que? Ele não conseguia ter uma resposta para essas duas simples indagações. Nessa noite ele via seu corpo de costas e a reconhecia perfeitamente, pois ele tinha, muitas vezes, mirado e admirado suas curvas quando repousava nua, deitada na cama no apartamento da Rua do Azevedo. Agora, quando depois de pigarrear, ele consegue atrair sua atenção para ver seu rosto brilhante e ela se volta em sua direção ele não vê mais que uma face sem nenhuma definição de rosto, boca, nariz e os grandes olhos negros com os quais ele estava acostumado a se mesmerizar.

Fza 18mar09

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Friday, October 02, 2009

FÓSSIL DE ARDI, DE 4,4 MILHÕES DE ANOS, FOI ENCONTRADO NA ETIÓPIA



Esqueleto antigo pode re-escrever o mais antigo capítulo da Evolução Humana.

Pesquisadores descobriram o mais velho esqueleto conhecido de um provável antepassado humano. Ardi - fêmea de 4,4 milhões de anos foi desenterrada na Etiópia e é mais velha que Lucy, 1 milhão de anos mais jovem. A espécie habitava florestas e podia viver no solo ou sobre árvores (Veja matérias na revista "Science" e no "Jornal do Brasil").


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Thursday, October 01, 2009

Aforismos do Velho Inaço 2


Velho não pode gastar, pois tem de economizar para seu futuro.

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Wednesday, September 30, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 24

“CABOCO SEM VERGOIM”


Muitas vezes Jorge admirava-se da capacidade que tinha de lembrar fatos acontecidos há decênios com ele ou com alguém na Cidade. Essas lembranças chegavam quando lhe acontecia algum fato que o remetia ao passado.

Certa vez quando de uma viagem de avião ele começou a se incomodar com os movimentos da senhora que estava sentada logo atrás dele. Toda vez que ela precisava levantar da cadeira ou mesmo mexer em alguma coisa na bolsa presa à dele, ela puxava o encosto com força. Ele se perturbava com isso e sentiu vontade de levantar e reclamar. Agora eram outros tempos e ele se conteve.

Isso lhe fez lembrar de seu tio Raimundinho, irmão de seu pai, que era um verdadeiro “caga-raiva”. Ele mesmo contava os seus feitos. Entre estes estava aquele do “caboco”, como dizia que roubava seu leite. Certo dia ele pôs um copo de leite quente para esfriar em cima do peitoril da janela que dava para a rua muito movimentada e muito suja. Quando, passado algum tempo, ele procurou o copo com leite que já devia estar frio, encontrou-o vazio; alguém tinha tomado o seu leite. No dia seguinte ele pôs novamente um copo com leite no mesmo lugar; aconteceu o mesmo e assim foi no próximo dia. Tio Raimundinho resolveu, sem dizer nada a ninguém, pregar uma peça no “caboco”. Foi na farmácia do Seu Horácio e comprou uma porção de sal-amargo que daria para purgar um cavalo. Voltando para casa dissolveu o purgativo no leite e pôs o copo no lugar de sempre. Não deu dez minutos e o leite desapareceu do copo. O “caboco” tomou o leite com o purgante. Daí a meia hora ele ouviu um zum-zum vindo da Praça do Mercado. Foi até lá e descobriu o bebedor de seu leite. O pobre “caboco” estava se desmanchando todo. Raimundinho deu um sorriso sarcástico e disse:

- Aguenta “caboco sem vergoim”!

Jorge gostava de recontar as histórias que seu pai havia lhe contado quando era jovem, fossem verdadeiras ou não, pois eram modelos do comportamento do povo da família de seu avô paterno. Eles tinham vindo de um lugar no pé da serra onde eram conhecidas suas tiradas irônicas, sarcásticas. Todos da família tinham essa mania da ironia. Possivelmente esse era um traço comum nas famílias locais que, na falta de como ocupar o tempo, divertiam-se “tirando sarro” de todos. Ele também gostava disso, mas algumas vezes tinha se arrependido dessas empreitadas.


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HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 101

A MINHA COMADRE DEVE ESTAR MUITO TRISTE

Eles moravam na Vila da Serra, na saída para o Sítio São João, que todo mundo conhece. Como muitos na antiga povoação colonial eles liam jornais, revistas e ouviam rádio. Quando o Presidente foi eleito e sua fama, a de sua família e de sua linda esposa Jackeline, correu o mundo, eles ficaram vidrados, como todos. Eles eram membros de uma realeza. Dona Clotilde, a esposa, sabia tudo sobre a Família, muito mais do que o marido. Quando, no começo de 62, ela deu à luz a uma criança decidiram, após muito pouco debate, dar para padrinhos do garoto, o casal imperial. Não tiveram dificuldade em escrever-lhes, comunicando a escolha e, lógico, pedindo o comparecimento ao batizado, que seria realizado na Igreja Matriz, velha de alguns séculos. Esperaram algum tempo pela resposta e esta chegou. Chegou na forma de uma carta do Cônsul no Recife em que ele dizia que o presidente e sua esposa agradeciam a honra de serem padrinhos do menino, mas também expondo as dificuldades que o casal teria de comparecer ao batizado. Eles deveriam relevar o fato e, acrescentou o Cônsul, aceitar a sugestão de que o Presidente e sua mulher se consideravam padrinho e madrinha do garoto. Apesar da frustração inicial eles logo se acostumaram com a ideia de não ter o casal real na cerimônia. Após o batismo eles passaram a nomeá-los como compadres. Quando, no trágico 22 de novembro de 1962, uma vizinha veio dizer à mãe do garoto o que havia acontecido em Dallas – que o Presidente havia sido assassinado, ela lamentou e após ter chorado muito disse:
- Cuma num tará a cumade Raqueline!...


Veja os créditos da foto:

Associated Press Photo
President John F. Kennedy and his wife Jacqueline Kennedy were in Dallas on Nov. 22, 1963 during a tour of five Texas cities when the president was shot by gunman Lee Harvey Oswald. Mr. and Mrs. Kennedy are pictured after landing at Dallas Love Field.

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