Wednesday, December 30, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 35


CLÉLIA, GRANDE PAIXÃO


Como de costume, Raposo estava em sua cadeira na sacada. Com frequência ele ficava muito tempo lendo. Quando gostava do assunto era capaz de ficar horas imerso na leitura. Ele dizia que esta sua “paixão”, mais uma das muitas que ele tinha, talvez fosse uma tentativa de equilibrar seu “déficit de cultura”. (...)


Ele se referia ao fato de que, supostamente, seus tios do lado paterno, tinham uma enorme e pesada bagagem cultural. Esta bagagem fora adquirida ao longo de décadas, desde os tempos de seus avós. Todos liam muito, faziam poesia e apreciavam música clássica. A fama de cultos havia se espalhado; ser Raposo era ser “sabido”. Essa fama ainda hoje os persegue muito embora não mais se justifique. Desde o tempo do fracasso dos negócios de seu avô podia-se perceber isso. Não o percebiam seus tios, irmãos, primos e afilhados e, certamente, ele próprio. Ele acordou de seu devaneio com o toque estridente do telefone fixo. Suzana trouxe o aparelho até ele que atendeu: - Alô! - É da casa do doutor Raposo? - É... Quem fala? - Não reconhece a voz? - Ah, sim! Como vai Clélia? - Tudo bem... Nunca mais nos encontramos... - Pois é! - Você ta sabendo que sofri um acidente? - Eu soube. Tua ex-paixão me contou. - Qual delas? - Ô homem danado... Foi a Celina. Disse que te viu na Beira-mar com uma moça bonita e um menino. Tu nem me conta! - Contar o que? Ela é minha amiga. É a arquiteta que planejou minha casa na Prainha. Aliás, tu podias ir lá, conhecer. Vamos nos encontrar e então combinamos. - Ok! - Só que não estou dirigindo... - Eu passo no sábado na tua casa e te pego. - No sábado não. Tu podes no domingo? - Ok! No domingo te vejo, às nove horas, tá bom? - Ta bom... - Então, um beijo! - Outro. Tchau. - Tchau. Após desligar ele começou a pensar em Clélia e como a tinha conhecido. Ela trabalhava com outro professor. Logo que aparecia no Departamento chamava atenção: tinha feições delicadas e bem claras; seu corpo aparentava ser rígido. Ela era muito bonita. Sempre usava calças jeans e blusas combinando, geralmente de cores vivas. O detalhe é que ela nunca usava nada por baixo da blusa, fazendo a imaginação dos homens delirar. Quando começou a olhar muito para ele foi um deus-nos-acuda! Logo se apaixonou sem nunca terem trocado palavra. Certo dia Dico, um colega bem mais jovem, o convidou a ir ao seu apartamento para tomar umas cervejas e comer alguma coisa. E conversar. Avisou logo que mais outras pessoas iriam. Ao chegar deu de cara com Clélia que logo passou a fitá-lo com um olhar doce, doce e de frete. Vencendo barreiras “seculares” ele aproximou-se dela e passou o indicador ao longo de seu braço sobre o espaldar da poltrona. Ela sorriu um sorriso tímido, mas encorajador. Ele então disse que a levaria em casa e ela balançou a cabeça concordando. Jorge afastou-se e tomou mais um copo de cerveja, já era o quarto. Pensou que tivesse feito uma grossa besteira, pois não tinha a menor idéia do que faria. E o que diria em casa? Finalmente os convidados começaram a sair, a maior parte, altos, devido à cerveja geladinha. Ele tomou a mão de Clélia e os dois despediram-se do Dico. Já no carro em movimento, sem saber o que faria em seguida, dirigiu por algumas poucas quadras e fez um contorno parando sob algumas árvores. Estava escuro, mas a claridade de uma lâmpada de rua permitia ver o suficiente. Agora o que eles tinham vindo fazer estava claro. Após uma hora de delírio ele a levou em casa.

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HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 112


PARA SUA ATENÇÃO!

Caro Senhor,

Esta mensagem é, definitivamente, uma surpresa para si, mas eu anseio em me apresentar. Eu sou a Senhorita Mireh Sedija, ex-amante do filho do antigo líder iraquiano. Eu estou atualmente em um campo de refugiados no Zimbábue, onde as condições de vida são insuportáveis. Eu não desejo tomar seu tempo com uma longa mensagem, mas tenho que fazer esta proposta para que o Senhor possa ajudar-me. Quando eu ainda estava em contato com meu amante, ele fez um depósito em meu nome em uma financeira na Espanha com filial em Amsterdã. A senha e documentos necessários estão presentemente na posse de um advogado, em Londres. O depósito foi feito na forma de uma consignação e o conteúdo é uma considerável quantia em dinheiro, em dólares americanos, mas que eu não posso revelar por medidas de segurança, até que o Senhor tenha confirmado a decisão de ajudar-me. Eu agradeceria muito se pudesse ajudar-me. Ofereço ao Senhor uma percentagem por seus esforços. O advogado em Londres conseguirá uma autorização para liberação e pagamento em seu nome e que o Senhor apresentará à financeira juntamente com todos os documentos necessários e que apoiarão seu requerimento. Eu tenho que terminar agora e espero que sua resposta determine uma correspondência subsequente. Por favor, sinta-se a vontade para rejeitar esta proposta se ela não estiver de acordo com seus princípios.

Seja abençoado,
Mireh Sedija.


A foto é da "Victoria falls – Zimbawe"

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Sunday, December 27, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 152


REUNIÃO

Velhos amigos, todos conhecidos na vizinhança, estavam no bar sentados em torno de uma mesa bebericando e conversando miolo de pote. Logo chegou o Celsinho da Dona Mariazinha. Ele é policial federal e pergunta quem é Francisco de Assis Silveira Ramos. Dá ordem de prisão ao Francisco de Assis que estava do outro lado da mesa. Este sai levado por guardas. O Celsinho fica conversando e tomando uma geladinha e ouve dos amigos que o Francisco de Assis que foi em cana é das Chagas Freitas.


Gravura de AllPosters.com


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Saturday, December 26, 2009

FABINHO


FÁBIO MENEZES MACIEL, Fabinho, faleceu no dia 23 aos 27 anos de idade.

Fabinho foi meu estudante na UENF.

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Friday, December 25, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 95




OS CRAVOS BRANCOS

Este é um dos mais belos poemas de Lívio Barreto. Consta de quatro partes escritas em diferentes épocas e é oferecido ao amigo de sempre Waldemiro Cavalcanti. Mostramos hoje a primeira parte.







DEDICATÓRIA


Aquela a quem meu ser, ajoelhado, rende
O culto mais profundo, o amor mais ideal,

Essa estrela que na alma a inspiração me acende

Como o sol faz florir as violetas do val,

Estes versos dedico, este sonho ofereço,

Onde canta a esperança o seu canto risonho...

Em seus olhos de criança eu o pesar esqueço!

Foi Ela quem me deu o meu primeiro verso,

O meu primeiro amor, o meu primeiro sonho.


I
OS CRAVOS BRANCOS

Cravos brancos, cravos brancos como o leite,
Que as noivas levam para a Igreja ao ir casar,
Cravos da cor das escumilhas do corpete,
Brancos de espumas atiradas pelo mar.

Cravos brancos invejados pelos goivos,
Cravos brancos que de brancos dão vertigens;
Cravos que são como hálitos de noivos,
Beijos de noivos embaciando mãos de virgens!

Cravos brancos, cravos brancos, lágrimas d’anjo,
Cravos de Maio cor de leito de noivado;
Cravos do luar que sorri como um arcanjo
A meditar no seu castelo enamorado.

Ó cravos brancos! Brancas flores misteriosas,
Seios ireis agasalhar com vossas neves,
Seios macios como pétalas de rosas,
De carne rija, sangue quente e curvas breves.

Flores dormentes de volúpia e de desejos,
Sempre a sonhar presas aos seios das donzelas,
Amarrotadas pelo fogo de seus beijos
E sempre brancas, sempre puras, sempre belas!

Flores que noivas levam presas na caçoula
Das mãos de arminho, cravos brancos, para o altar,
Para, ao voltar com as faces da papoula,
Dá-los às virgens para logo irem casar.

Cravos brancos como as mãos da minha amada,
Quando eu descer à terra fria, num caixão,
Desabrochai, brancos soluços d’alvorada,
Ó cravos brancos que plantei no coração!



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Thursday, December 24, 2009

Aforismos do velho Inaço 8


Nero queimou Roma e Talzinho afogou a Ribeira.


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Wednesday, December 23, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 34


OS RAPOSO, OS DIFERENCIADOS

Os Raposo, isto é, as duas primeiras gerações, eram tidas na Cidade, em alto grau de consideração e admiração. Eles eram diferenciados, assim diziam todos. Eram escritores, poetas, sabiam falar em público. Não eram políticos, não faziam política partidária. O velho Raposo era oficial da Guarda Nacional, tinha o posto de Coronel e gostava que o chamassem de “Coronel Raposo”. Seus filhos apreciavam essa aura de sabedoria e grandeza que eles haviam ganhado alguns poucos com razão, outros nem tanto. Como em toda família havia os que se sobressaiam e aqueles que iam à cola desses. Tomando carona, talvez inconscientemente. (...)



Jorge lembra que alguns dos irmãos de seu pai não se encaixavam em qualquer definição do que seja culto. Há que observar, dizia ele sempre, que na época a grande maioria da população local era analfabeta, portanto... O fato é que esses que tinham a fama, mas não correspondiam à classificação, sofriam muito, pois eram como que obrigados a ter uma cultura vasta e não a tinham. É bem verdade que eles se esforçavam. Alguns de seus tios eram muito “fracos nas contas”, como se dizia. Não sabiam fazer contas e isto era motivo para serem sempre olhados como “excêntricos”. Jorge não se queixava, mas seus filhos sabiam o quanto ele tinha lutado para colocar seus irmãos em bons empregos depois que os negócios da família desandaram de vez. Agora, conseguir emprego para quem não sabia contar era muito difícil mesmo com a interferência de algum político de sua amizade. E ele contava com uns poucos. De qualquer modo Jorge conseguiu que esses amigos indicassem alguns de seus irmãos para sinecuras federais. Ele nunca dizia se haviam agradecido os favores.

Aborrecia-se também com a insistência dos irmãos em receber o dinheiro correspondente à renda das terras que ainda tinham. Não eram terras, mas sim um pequeno lote e que era arrendado todos os anos para alguém de maiores posses. Havia renda sim, mas o montante não justificava os pedidos de dinheiro para comprarem casa, apartamento. Os irmãos não conseguiam viver juntos. Cada um tinha de ter sua própria morada. Era justo, mas as condições nem sempre permitiam.

Entretanto, alguns deles se sobressaíram nas letras e artes. Havia Anselmo, formado em Direito e, como era costume e ainda é hoje, desviou-se da profissão e dedicou-se às letras e ao jornalismo. Fez um sucesso relativo tendo alguns livros seus traduzidos para o Inglês. Ele foi um ativista político de esquerda muito considerado. Foi preso por alguns meses, mas safou-se por ter amigos bons advogados. Viajava muito para entrevistar personalidades da cena mundial. Uma listagem das pessoas que entrevistou mostra um elenco de presidentes, primeiros-ministros, senadores, diplomatas dos mais diferentes paises e que estavam em evidência no momento. Gostava de bons vinhos, mas Jorge nunca contou se ele era um “gourmet”. Era tão adorado na família que um de seus sobrinhos foi batizado com o nome de Anselmo (Raposo Júnior).

Alguns de seus irmãos apresentaram sinais de doenças mentais que se agravaram com o empobrecimento da família. Um deles foi internado por anos a fio em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Foi tratado até com eletro choque que, na época era um tratamento muito usado, mas que carregava um estigma muito forte. Seu pai e ele mesmo tinham tido sua dose da maldição lançada por um de seus antepassados: eles iriam sofrer uma infinidade de desgraças durante sete gerações.

Certamente ele não acreditava nessas histórias de maldições, mas era a pura verdade que a família Raposo era afetada por diversos tipos de problemas. O tal verniz cultural era um deles, pois os mais novos tinham que suportar o peso da obrigação de manter essa tradição irrelevante.

Pandora's Box by Arthur Rackham (AllPosters.com)

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Tuesday, December 22, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 111


COLEÇÃO DE BORBOLETAS

Ella lhe apareceu pela primeira vez há poucos meses. Marco estava em casa, com uma bruta insônia, sentado em uma cadeira de balanço na semi-escuridão do seu bangalô. Ella chegou de mansinho e ele viu que era muito magra, com as faces cavadas e olhos mortiços. Quando se aproximou Marco notou que Ella quase flutuava, arrastando um vestido branco, diáfano, e com alguma coisa em uma das mãos. Ele apertou os olhos e notou que era algo em que Ella se apoiava. -O que é que a Senhora quer? -Eu vim cobrar a dívida que você tem comigo. -Eu mesmo não tenho dívida com ninguém... -É o que você pensa, mas essa dívida foi anotada há muitos anos. Está na hora de você começar a pagar as prestações. Seu tempo está esgotando. Tem de ser logo. -Se a Senhora estiver certa, como é que vou pagar esta suposta dívida? -Ah! Agora sim, estamos nos entendendo... -Por favor, diga logo, pois está quase na hora da minha caminhada. -Bom, para esta primeira mensalidade, você vai ter que destruir a sua coleção de borboletas! -Não faça isso, logo agora que eu estava renovando a coleção!

Texto completo. A gravura é Butterfly wings by A. Ross (AllPosters.com)


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Sunday, December 20, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 152


AMIGO DE CAMA

Quando o vereador Raimundinho morreu, vítima de um desses acidentes de moto hoje comuns nas estradas do interior, sua morte foi pranteada em sessão especial da Câmara Municipal. O vereador Celestino tomou da palavra e falou em homenagem ao colega:
- Eu queria lembra dum grande amigo, e que já foi cuma eu Presidente da Cama. Eu quero que vocês sabem que ele era meu amigo de Cama, desses pa vale mermo!

O texto está completo.

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Saturday, December 19, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 21


DIVERTIMENTOS DE MENINA

O velhinho viajara para o interior, para a cidade de seus antepassados. Lá ele era pouco conhecido, pois raramente se dava ao luxo de tirar alguns dias de férias e ir até lá. Na Ribeira ele saia de sua rotina para tomar banho no Rio, pescar, caminhar, e se por a par dos fuxicos locais. Quando ia para lá ficava na casa de seu tio, mais novo que ele e cuja esposa era filha de um homem importante da terra. (...)


Esse tio não estudou na Capital como os outros tendo ficado para tomar conta dos bens, das coisas da família, inclusive da enorme casa que pertenceu aos avós. Na casa ele ocupava sozinho um quarto grande do lado mais fresco e de onde podia entrar e sair sem perturbar ninguém. A casa ficava do “Outro lado” que é como chamam o bairro que fica na margem direita do Rio e onde muitos ricaços de famílias tradicionais construíram suas casas assobradadas e ajardinadas; ela resiste bravamente às investidas do atual único ricaço do lugar que sonha em construir um “shopping center” no terreno. Airton gostava de ir ao centro quando o sol dava trégua lá do outro lado, no fim do dia e a brisa começava a espantar o calor, para dar uma espiadela nas meninas caixeiras – elas se dizem vendedoras - das muitas lojinhas em torno do Mercado. Ele se aprontava todo e punha perfume, um já bem testado e se achava bastante charmoso para acreditar que as faria olhar para ele com olhares concupiscentes.
Airton sempre falava para seus amigos, em torno da mesa do bar do Titico, quando parava para tomar um aperitivo antes de voltar para o “Outro lado”, sobre os sucessos ou insucessos do dia: ele raramente encontrava uma menininha que pudesse se transformar em objeto de desejo. Mas ele estava acostumado, pois mesmo na Capital, raramente se deparava com alguma que lhe chamasse a atenção. É verdade que muitas atendentes de livrarias, farmácias, garçonetes, bilheteiras de cinema poderiam, se ele persistisse transformar-se em colaboradoras de seus hábitos de mulherengo. Ele se esforçava por não cultivar esse hábito, pois já notava nos olhares e reprimendas de sua parentela o ridículo que seria se aparecesse com um monte de menininhas a lhe telefonarem e a marcarem idas ao cinema e a praia. Será que os parentes queriam vê-lo transformado em um velhinho misógino? O esforço em evitar esses encontros era recompensado, pois já fazia anos que ele não tinha namorada. O que era uma enorme contradição: seu comportamento de caçador e um suposto sucesso. Todo mundo dizia que ele era novo e charmoso, apesar de seus bons sessenta anos. Seu cabelo grisalho e pele limpa lhe davam uma aparência de galã de novela. Ele vivia um dilema: procurar, encontrar, evitar, sossegar até que seus hormônios, finalmente, se extinguissem. Airton costumava pensar nessas coisas com muita seriedade e propriedade até que lhe surgiu um problema, ou melhor, até que ela lhe apareceu. Certa tarde caminhava na calçada em frente ao mercado, já de volta para o “Outro lado”, quando, de longe ele a viu: sentada em um banquinho de madeira ela tomava fresca à porta de uma lojinha; Airton sentiu que ela, logo que ouviu seus passos levantou a cabeça e, seus olhares se cruzaram. Ele não observou, dessa primeira vez, se a menina era bonita ou feia. Ele simplesmente ficou chocado com o charme que ela lhe jogava. Ela era uma mocinha de pele clara, cabelo negro e curto e olhos redondos e bem pretos. Usava um coque pequeninho preso com um laço de fita branco. Airton chegou a sua frente e, parando, cumprimentou-a com um boa tarde e um sorriso que só ele achava que tinha. Ela retribuiu, não com outro boa tarde, mas com outro sorriso, este sim, marcante. A partir dessa tarde Airton não mais deixou de passar em frente à lojinha de bugigangas da qual ela era a única vendedora. Após muitas tentativas ele conseguiu trocar algumas poucas palavras com ela passando a ter esperança de em breve poder visitá-la em casa. O que fez após muita relutância dela em recebê-lo, apesar de afirmar que não se incomodava de todo com a idade dele – era evidente que havia uma enorme diferença de idade entre eles. Ela chegava a pilheriar sobre isso dizendo que tinham a mesma idade, a mesma unidade: ela com 22 e ele com 62 anos. Suas investidas de conquistador sexagenário nunca foram mais longe do que essa única visita em casa e raras trocas de olhares melosos. Nenhum contacto físico, nem mesmo o passar as mãos sobre seus sedosos cabelos, nada que demonstrasse a Airton qualquer aceitação hormonal por parte dela. Passaram-se meses até que ele começou a fazer uma contabilização de seus momentos de sucesso e os de insucesso tendo verificado que os dados que coletara sugeriam que a menina estava a preparar-lhe armadilhas pouco inteligentes para enredá-lo em uma teia inconsequente de paixão. Airton sentiu-se usado, pois ela passou a não mais ter pudor em brincar com ele, virando e revirando seus sentimentos levando o velho enxerido e mulherengo a transformar-se em um velho decrépito e misógino. Em longas noites insones Airton procurava analisar porque a menina, uma total desconhecida para ele, no início desse relacionamento conturbado, o escolhera para lançar-lhe essas armadilhas despudoradas. Ele simplesmente decidiu, para encerrar esse caso perdido desde o início na opinião de muitos de seus amigos do bar do Titico, tratar-se de um caso clássico de complexo de Édipo.

(O quadro é Retrato de um velho de Rembrandt van Rijn)

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Friday, December 18, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 94


ISA FRAGOSO

Mostro hoje poema de Maria Elisa Xavier Fragoso Gouveia que me foi apresentado por Agenor Beviáqua. Isa é mais um membro da tradição Barreto/Xavier de poetas granjenses. À guisa de apresentação passo a palavra a Agenor que escreveu em seu blog:

“Numa manhã ensolarada de abril de 1941, poucos dias depois de minha mudança para a Granja, aproximei-me de um grupo de jovens sentados à sombra de um tamarindeiro, em frente à casa de Dona Susete Fragoso. Na Ocasião falavam sobre o filme “E o vento levou”, produção colorida de 1939, chegada ao Cine Orion de nossa cidade ao mesmo tempo em que o livro de Margaret Mitchell, autora do livro de igual título, já conhecida de, pelo menos a jovem Isa (Maria Elisa Fragoso Gouveia). Pude vê-la, comprovando que conhecia o livro, dizer como era iniciado o primeiro capítulo: “Scarlet O’Hara não era bela” e etc.
Eu, então, não tinha visto o filme, que eu haveria de assistir repetidas vezes depois, no decorrer de muitos anos. Naquela ocasião, o drama de secessão nos Estados Unidos, tão bem enfocado em cenas inolvidáveis do filme não me motivava para ter participação naquela conversa. Em outras paragens andavam então os meus pensamentos. A eloqüência da jovem Isa era agradável, mas o que mais me agradava mesmo era seu porte de jovem, ela própria bem certa de que era uma belezinha que despontava prometendo uma majestade de mulher, talvez uma miss Granja.
No início de 1946, deixei a Granja. Estava ela então com 20 anos. Longos anos em São Paulo, distante da minha cidade e sempre sem informações do que lá ia acontecendo, eu só sabia que ela se casara com Antonio Gouveia Filho (Toin Gouveia), não tendo com o casal nenhum contato. Enviei a ela o meu “O mundo que eu vi”em 2008. Dela recebi carta de 15 de outubro desse ano acusando o recebimento do volume e dizendo que eu tinha uma memória privilegiada. Enviou-me duas poesias dela, produzidas em Fortaleza no ano de 1978. Numa apresentou, poeticamente, a beleza do nosso Rio Coreaú e na outra, o anoitecer na nossa velha e querida cidade, banhada pelo rio que em versos homenageou.”
(A gravura é "Anoitecer" de A. Mucha)


O ANOITECER

O sol declina no horizonte,
Os seus últimos raios
Ora dourados, ora esbraseados,
Em paisagem apoteótica
É um prenúncio da noite
Que se aproxima silenciosa.
Em tênue penumbra
Vai a terra se cobrindo,
As estrelas, aos poucos, vão surgindo
Pontilhando a abóbada infinita,
Com seus reflexos longinquos
Quase a se perderem no espaço.
A Via Láctea cintila,
Como véu brumoso estendido,
A se arrastar pelo infinito
Abrindo um caminho brilhante
De mil minúsculos brilhantes.


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Tuesday, December 15, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 33

O CIRCO SHANGAI

Jorge estava sentado em sua cadeira na sacada lendo mais um dos muitos livros que já havia começado, praticando assim a sua mania de ler tudo de uma vez, como ele dizia e se isso fosse fisicamente possível. O Dom Quixote estava merecendo um tratamento especial: era muito bom, mas como era volumoso, umas mil páginas em dois tomos, estava levando mais tempo para ser devorado do que outros. Mas não seria tempo perdido. Jorge, muitas vezes, gostava de se imaginar como um sonhador, combatendo inimigos imaginários, como o “cavaleiro andante”. (...)


Seria muita pretensão dele? Provavelmente. Ele teria de procurar um significado mais adequado para seu comportamento irascível. Ele se rebelava contra tudo e todos. Contra o governo, contra os outros motoristas (quando ainda guiava). Adorava provocar irritação em outras pessoas mesmo sabendo que corria risco grande de ser agredido fisicamente em retorno. Lembrava-se do tempo em que morava na Lagoinha, um pequeno bairro quase no centro da cidade quando chegou a trocar sopapos com um colega que era primo distante de sua mãe. O motivo para a briga era o ciúme que o Tico lhe provocava toda vez que a garota em que ele estava interessado passava gingando por eles. Sempre que lembrava dessa briga Jorge caia em seus devaneios e se transportava para uma época anterior.

O circo era sempre montado em um terreno baldio na Lagoinha. Era o Circo Shangai. Era o que se chamava um circo mambembe, mas tinha alguns bichos e uma trupe de “artistas”. Toda noite tinha função, mas como era pobre, somente os poucos animais, os palhaços e os dramas que apresentavam tinham sucesso. Toda a turma da qual ele achava que pertencia ia, aos sábados, à apresentação das oito horas da noite. Havia uma pequena orquestra que tocava desesperadamente tentando animar a assistência. Era sabido que os presentes só se alegrariam mesmo quando os palhaços entrassem em ação. Jorge entrou com os companheiros e procurou assento nas arquibancadas quase desequilibradas que acompanhavam o círculo, típico dos circos. Havia cadeiras, mas estas eram mais caras e ficavam longe da bagunça que eles iriam, com toda certeza, fazer. Além do mais ficariam separados das meninas que sempre acompanhavam a turma na praia, nas festas e, com sorte, no cinema. Ele sentou-se numa arquibancada bem próxima ao chão e ficou, ao lado do Robertinho, esperando o começo da primeira apresentação da noite. Quando a garota chegou com sua turma ele ficou observando-a e vendo como ela era charmosa sem ser bonita; a pele era branca sem agredir e o cabelo castanho, mais comprido do que curto. Ela subiu rapidamente, passando ao seu lado, sem muito esforço, para a última arquibancada; sentou-se e ficando com a cabeça quase encostada na empanada do circo, começou a olhar, como que procurando alguém. Ele sentiu um frio no pé da barriga quando seus olhares se cruzaram e ela lançou um sorriso atrevido para ele. Jorge começou a tremer sem saber que atitude tomar. Sua experiência com as meninas era quase nenhuma. Deixou passar o tempo, vieram os palhaços que abriram a sessão de piadas imorais, como se dizia e que provocavam o riso de todos, como devia ser. Em seguida entraram os animais: a onça, animal nacional ainda não protegido pelas leis ambientais, o leão caindo aos pedaços e mais uns poucos bichos que, todos, pareciam famintos; dizia-se no bairro que o povo do circo comprava gatos para alimentar sua coleção de carnívoros. Os herbívoros, não se tinha ideia do que comiam talvez grama. A parte final consistia de um drama, dramalhão para dizer a palavra certa. A história girava em torno de um casal que a mulher traia o marido com um amigo; a palavra corno era ouvida com frequência. Jorge lembra-se do fragmento de um diálogo quando o amigo que traia o marido falava com ele sobre a amante:

-Esta “muler está bêbida!”

Ele não lembra mais muita coisa do circo. Do que lembra foi de sua ação em relação à garota que estava sentada na última arquibancada. Ele tomou uma decisão. Quase aos pulos subiu até junto a ela e sentou-se. Começou a olhar e ela retribuiu sorrindo. Ele fez algo de surpreendente para ela e também para ele: deu-lhe um beijo na boca. Havendo ela correspondido, sorriu e os dois ficaram conversando e saíram juntos do circo. Pareceu-lhe que seria agradável conversar mais com ela...

A pintura é "O circo" de G. Seurat

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Sunday, December 13, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 151


HOJE VAI DAR O TRIGUE!

O Coronel, Doutor, Comendador, Presidente era viciado no jogo do bicho. Apesar de todos seus títulos ele não tinha coragem de confirmar esse seu prazer. Não podia ir ao ponto fazer sua fezinha. Quem fazia o jogo para ele era a Raimunda, cozinheira do Palácio desde que ele havia assumido seus postos. A Raimunda fazia uns quindins do céu que o velho adorava. E dava seus palpites sobre o bicho que ia dar, mas só dava para o Comendador. Certa manhã o Presidente pergunta-lhe que bicho daria logo mais. Ela responde:
- Vai dar o trigue Seu Doto!
- O trigue? E porque vai dar esse bicho feio?
- Por que eu sonhei...
- E como foi esse sonho Raimunda?
- Ora, eu sonhei que tava fazendo uns quindins para o Presidente e tava faltando farinha de trigue! Só pode ser o trigue que vai dar hoje!

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Saturday, December 12, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 20


CONTAS A PAGAR DEPOIS DA MORTE

No dia do batizado da menina, na Igreja Matriz, feito para apagar sua parte no pecado original de todos nós e mais os seus poucos adicionais, pelo Padre Vicente, estava presente a fina flor da sociedade varzeana. Era uma verdadeira multidão a prestigiar o batizado da primeira filha do Coronel Rabelo, o chefe conservador local. Daí a menina ficou com o batistério que lhe dava a data do seu nascimento e a do batismo, além dos nomes de seus pais e os dos padrinhos. Isso foi antes da Lei do Registro Civil e quando esta foi implantada, ela já uma mocinha, foi registrada no Cartório do Capitão Rocha Franco e obteve a certidão de nascimento. (...)


Passaram-se os anos e ela não precisou de mais nenhum registro, mas os atestados médicos eram muitos e necessários para justificar as faltas no Colégio das Irmãs; todos eles firmados pelos mais afamados médicos da cidade e da capital, como os doutores Vieira e Para-campos. Aí chegou a Nova Ordem para por ordem na bagunça documental que, eles diziam, reinava na terra; não sabiam o que viria por aí. O rei ou quase um ordenou a emissão de novos documentos. Um desses, com seu número acompanhante, e importante, que um menino, mas não uma menina, como era o caso, tinha de tirar foi o certificado do serviço militar com o retratinho de bibico, assinado pelo Coronel Abreu, coronel mesmo dos legítimos; felizmente ninguém ia para a guerra, nem como enfermeira, pois ela não chegava até eles, nem mesmo a Natal. Quando moça, pretendeu viajar para a Europa na excursão do Padre Monteiro, que organizava verdadeiras turnês ao Velho Mundo, ela teve de ir até a Polícia Marítima para tirar o passaporte com um retrato em que suas orelhas eram obrigadas a aparecer, à custa de grampos. Identidade só precisou mais tarde, mas ainda era com o retrato em branco e preto e com as impressões digitais. Mais tarde também vieram as carteiras de bicicleteira, motoqueira e motorista, todas obtidas após exames rigorosos. Essa última foi seguida pelo título de eleitor, com e sem retrato, com e sem digitais, dependia da ocasião e também de um atestado de vida e residência que era complementado por um atestado de bons antecedentes; as eleições estavam chegando e ela seria obrigada a votar, como na Etiópia, nas Ilhas Cayman, etc. Após a eleição do “Mão de Ferro” e a implantação dos novos impostos de renda, de venda, de compra, de comida, de leitura, de cinema, de praia, e todos os outros, cada um com seu número apropriado, descobriram que teriam de implantar o registro geral das pessoas do país, o RGPP, para terem um controle mais eficiente do que fazem ou deixam de fazer as pessoas, até mesmo as criancinhas de poucos dias, pois estas danadinhas já fazem muitas coisas logo que nascem, não somente o seu cocozinho. Daí foi um passo para o documento dito final, aquele que unificaria todos os já existentes. Este seria impresso em papel de arroz chinês, com marca d´água – armas da república e do tuxaua do momento – e com um chip que traria todas, todas mesmo, informações sobre o paciente, ou melhor, sobre o portador, no caso a cidadã. A filha do Coronel Rabelo estava cansada e já estava velha e ficava de saco cheio com toda essa história de cartão, certidão, atestado, retrato, digital, chipe e o que de novidade aparecia nas páginas digitais. Foi daí ela teve um problema, um problema bem sério e teve que ser internada no Hospital da Montanha. Ela ainda viu, quando foi admitida, de maca, a enfermeira gordinha, depois de agarrar seu dedo e colocá-lo naquela maquininha que lê as impressões digitais e utilizando uma caneta digital de última geração, capturar todos os seus dados a partir de uma ficha que sua filha Waldiana havia preenchido no laptop. Ela passou uma semana inteirinha fazendo exames, escaners, expressos em bilhões, zilhões de bits e, ao fim, apesar dos médicos amigos, ela teve mesmo de empacotar. Não houve recurso algum. Olhando de longe, - de cima ou de baixo? – a filha do Coronel Rabelo descobriu que nem seu passamento a deixaria sossegada no que diz respeito à numerologia e à ordem que sempre a perseguiram. Após o imenso trabalho que deu a seu marido e à sua filha quando da abertura e fechamento do inventário de seus humildes possuíres observou a insana procura de sua identidade pelos poucos que queriam registrar a compra de algum dos bens de sua meação. Todos queriam uma cópia de seu RGPP, atualizado, e sua última declaração de Imposto de Renda. Eles não se satisfaziam com uma cópia xérox de sua Certidão de Óbito, queriam sempre a declaração original.

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Wednesday, December 09, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 32


UCLA, LOS ANGELES


Jorge estava sentado em sua cadeira de rodas na varanda. Leluli o tinha levado e o deixado tomando o seu sol de sábado. Ele pegou o livro que estava lendo agora. Eram contos russos de uma coletânea que havia tomado emprestado; raras vezes ele tomava livro emprestado, gostava de tê-los. Poucas vezes tinha entrado em contacto com os grandes escritores russos do século XIX. Antes tarde do que nunca. Este nunca se aproximava irremediavelmente e ele tinha consciência de que deveria aproveitar o máximo e de tudo. Entrou naquela sonolência e cochilou; em seu cochilo quase um sono ele sonhou com acontecimentos de muitos anos atrás. (...)


Em seu sonho Jorge experimentava uma série de pensamentos e diálogos solitários. Ele parlamentava consigo mesmo concluindo ser uma pessoa voluntariosa. Quando queria fazer alguma coisa ele a fazia, mesmo que fosse aos trancos e barrancos. É bom que se diga que isso talvez seja um exagero, pois ele era caracteristicamente tímido e não se aventurava muito a fazer algo desconhecido. Mas queria muito progredir na carreira. Logo depois de ter iniciado sua formação, por toda a vida atabalhoada, apareceu, no laboratório, um visitante americano, representando a Fundação Chrysler. O cientista aposentado vinha oferecer bolsas de estudo nos Estados Unidos para jovens profissionais de ciência brasileiros. Jaciara, sua bela colega de trabalho, parecia ser a candidata preferida do visitante. O Rosado também a indicaria, mas contrariado, pois iria perder a valiosa e charmosa auxiliar. Jorge ficou inquieto, pois viu a possibilidade de ele próprio ser candidato. Imaginava por qual razão ele também não poderia concorrer. Conseguiu ser examinado também e logo souberam terem ganhado bolsas para fazer mestrado em universidades americanas. Ela iria para a Universidade do e Tennessee, em Knoxville e ele iria para a Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a famosa UCLA. Ambos iriam estudar Bioquímica. Quando veio a resposta, ele se perguntou: “Que diabos eu vou fazer lá?” Este e outros pensamentos relacionados não tiveram resposta adequada.

Passou a ter aulas de inglês intensivo além daquelas que fazia no Instituto Brasil-Estados Unidos, já havia algum tempo. Antes de ele e o professor acharem que estava preparado chegou a passagem para viajar em duas semanas.

Essa foi sua primeira viagem para fora do país. Logo para passar um ano! Felizmente viajou incorporado a uma turma grande de contemplados com o mesmo tipo de bolsa. Quando chegaram a Louisville, onde passariam um mês de adaptação, Jorge achou que tiraria de letra sua comunicação em inglês. Não se preocupou muito, portanto, em melhorar o manejo da língua e gastou juntamente com muitos colegas o tempo na pagodeira comum. Foi quando ficou sozinho na cidade grande, onde se localizava a Universidade da Califórnia, que ele percebeu o quanto não sabia de inglês. Penou durante alguns meses até ter um domínio razoável da língua. Ele conta que todo sábado saía do apartamento que dividia com mais três companheiros, um chinês, um jordaniano e um americano, e ia para a pequena vila, distante uns dois quilômetros no máximo. Ia a pé, pois não tinha carro e o sistema de transporte público quase não existia. Ele entrava numa “cafeteria” que se tornou seu comedouro preferido e, logo da primeira vez percebeu o quanto seria difícil morar na América. Sentou-se em um banco em frente ao balcão e, olhando para a lista de pratos presa à parede, escolheu alguma coisa. Pediu à senhora que estava atendendo e esperou. Quando o prato chegou viu que era uma sopa não sabe de que, talvez de cebolas, mas como estava com fome, tomou-a sem tugir nem mugir. No sábado próximo ele voltou à mesma “cafeteria” e a mesma senhora que o tinha atendido anteriormente logo lhe trouxe o “seu prato de sopa”. Ele não se aventurou a tentar mudar o pedido, pelo menos dizer que não era exatamente a repetição do prato anterior que ele queria. Não houve jeito. Seu inglês não havia passado no teste. Daí a algumas poucas semanas ele já estava conversando ao telefone com nativos; falar ao telefone e compreender o que o interlocutor dizia era um teste essencial para saber se dominava a língua. Nesse momento ele já sabia pedir um “steak”.



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HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 110


VELA ACESA A PROCURA DE ALGUMA COISA

Ele saiu à rua com uma vela acesa procurando alguma coisa para se distrair até chegar o sono que ultimamente demora muito. O que ele encontrou foi muitos porcos, jumentos, burros e cachorros, alguns urubus dormindo em cima dos telhados de muitas casas pros lados da Estação. Voltou pra casa, pois acreditava que, se o sono não chegasse ao menos à noite passava e o sol quente e reparador chegaria limpando a sujeira de sua cidade, bela de outros tempos. Mas ele estava enganado, pois nem o sol limpava. A sujeira era eterna, permanente.

Texto completo. Figura é "Study of an Old Woman, Holding a Candle" by Jacob Jordaens de "AllPosters.com.

continuação do texto/postagem

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Sunday, December 06, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 150

A CHEGADA DE TROFIM VASEC (versão 1)

Ele chegou montado em uma burrinha alazã e puxando uma cachorrinha. Trazia duas malas de couro cheias de bugigangas e futricas. Ele tinha uma idéia fixa. Queria casar com a moça mais rica do lugar. Procurou o padre da vila para tomar conselho. Padre Lisboa lhe disse que descesse a Rua Grande e procurasse a casa mais enfeitada e batesse à porta oferecendo suas bugigangas. Com certeza a moça mais rica da vila lhe atenderia, pois ela mesma estava à procura de marido. O padre avisou, porém, que ela era a mais feia dentre as feias. Trofim Vasec fez o que Padre Lisboa mandou e logo estava casado com a mais rica das moças da cidade e também a mais feia. Nem por isso ele deixou de criar uma família de cabras feios, sabidos e bandidos que o ajudaram a montar uma quadrilha em sua nova pátria.


Texto completo.

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Saturday, December 05, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 19

PADRE JOSÉ LISBOA

Da varanda da casa elas viram o novo padre passar na direção do Rio e pensaram que ele fosse visitar o Tio Manuel Rufino que estava doente. Só depois é que souberam da notícia, dada pelo primo José, que naquele mesmo dia o tal padre tinha ido era para um banho no Cupu, o poço mais profundo do Rio, pelo menos perto da Lagoa. A notícia logo se espalhou, pois era uma grande novidade um padre tomar banho no Rio, ainda mais nu, como José contou: O padre havia chegado acompanhado do Chiquinho, que ia apanhar água para a Casa Paroquial, foi logo sem cerimônia tirando a batina e tudo mais e mergulhando nas águas frias e profundas do Rio cheio; os dois passaram um bom tempo e daí o Padre se enxugou e se vestiu e foram embora. (...)


O padre era jovem, talvez tivesse uns trinta anos, se muito; era bonito a tal ponto de as pessoas o acharem parecido com Tyrone Power, o ator de Hollywood. Essa notícia do banho no Rio tinha alvoroçado a população feminina e, por que não dizer, também a masculina, certamente por motivos diferentes. Segundo as mocinhas e, em geral a quase totalidade das senhoras da cidade, ele só tinha um defeito: era padre e além de tudo o novo Vigário da paróquia. O padre José Lisboa tinha sido nomeado para ocupar o lugar do velho Monsenhor Arthur falecido recentemente. Monsenhor Arthur tinha sido vigário da Lagoa por quase quarenta anos, desde o começo do século e todos na cidade tinham se acostumado com o velhinho. Ele era compadre de todo o mundo e todo o mundo era seu afilhado. Era uma verdadeira instituição assim como a Matriz de São José, a igreja mais do que centenária da Lagoa.

Logo que Padre Lisboa assumiu seu posto criou diversas associações que, segundo suas conversas com amigos, que os fez logo, iriam dinamizar as atividades da paróquia. Uma dessas era a Associação das Senhoras de Caridade para o Amparo às Pessoas Necessitadas ou simplesmente ASCAPENE, como passou a ser conhecida em toda a cidade. Suas reuniões eram mensais e realizadas na Sacristia da Igreja quando compareciam toda a Diretoria e mais outras jovens moçoilas e senhoras curiosas, certamente com interesses bem pouco filantrópicos. O padre era também visto todos os fins de semana tomando uma cervejinha com os novos amigos. Entre esses, como é natural, havia homens respeitáveis de todas as extrações, desde comerciantes, donos de cartórios, criadores de bodes, fazendeiros, funcionários da RVC e dos Correios; não havia bancários e nem industriários, pois não os havia em volta de muitas léguas. A presença ocasional de alguns capitalistas era notada por todos, pois raramente eles saiam de casa e isso demonstrava o prestígio do Padre Lisboa. Política nacional e internacional, os preços dos couros e peles, da cera, do algodão era o que se conversava nessas rodas. O esporte de falar da vida alheia ainda não chegara até elas, pois o padre, ainda pouco conhecido e, mesmo sendo um servo do Senhor, os amigos não deviam envolvê-lo nas histórias. Outro assunto proibido eram as mulheres, pois todos ficavam com o rosto avermelhado quando o padre chegava a olhar de soslaio para uma jovem que passava e olhava rapidamente para ele.

Padre Lisboa fez também amizade com alguns dos rapazes da cidade, desses que foram ficando na Lagoa sem perspectiva de um bom emprego e, como não haviam estudado fora, tinham de amargar uma pequena sinecura na Prefeitura; o que recebiam era quase uma esmola, pois não ganhavam porque não trabalhavam, e não daria para sustentar uma casa com mulher e filhos. Vai daí que não havia nenhuma das moças bem comportadas que quisesse alguma coisa com qualquer um deles. Entre estes estavam o Carlinhos e o Ricardinho, filhos de gente da alta e que, a rigor não faziam nada. Mas tomavam cerveja e gostavam de um carteado. Padre Lisboa era sempre convidado para compor uma mesa de buraco na casa de um deles, completada com outras pessoas amigas. Essas reuniões eram apreciadas e todos se esmeravam em tratar o novo amigo do modo mais gentil e até o deixavam ganhar no jogo. A conversa, de costume, era mais importante do que o jogo e os assuntos variavam segundo os componentes da mesa. Nada de assunto picante quando estava presente alguma das irmãs dos dois rapazes ou seus pais. Mas, quando eles estavam sós gostavam de provocar o padre para saber como andavam suas pretensas conquistas.

Padre Lisboa era reservado ao extremo nunca dando indicação maior de que algum tratamento diferenciado a moças e jovens senhoras, como era de se esperar, ele dava. Mas a rapaziada insistia, dadas as demonstrações ocasionais de interesse mostradas por ele. Ele tinha a firme convicção de que nada do que ele fora ou era poderia transparecer para a comunidade, para os fiéis, seu novo rebanho na Lagoa. Mas o grande problema que o Padre Lisboa teve foi a impossibilidade de evitar olhares magnéticos que cruzavam o ar lançados pra ele e retribuídos toda vez que ele caminhava pelas ruas ou dizia missa ou participava de algum evento público.

No início de sua permanência na cidade Padre Lisboa só sabia que ela era a Fransquinha uma das primas do José, o rapazinho filho de Dona Veridiana, uma das mais assíduas e devotadas sócias da ASCAPENE. A moça, talvez tivesse uns vinte e dois anos, e de seu posto na lojinha em que trabalhava, sempre via o padre em sua passagem pela calçada da rua que levava à Praça da Matriz e, como todas suas amigas, olhava para ele com olhares cúpidos. E o pior é que ela sorria um sorriso lindo. Ele não tinha alternativa senão corresponder ao sorriso, a princípio recatado, mas depois dos primeiros dias, um pouco mais solto. Padre Lisboa, afoitamente, resolveu inverter sua passagem para testar se a moça prestava mesmo atenção a ele. Não é que ela, no instante em que ele apareceu, vindo em sentido contrário ao usual, estava com seu sorriso esperando pelo dele? As dúvidas do Padre Lisboa se foram e os problemas chegaram pensou ele. E a mocinha também.

Quando chegava a casa, ele morava na Casa Paroquial bem atrás da Igreja, estimulado por esses encontros e olhares magnéticos trocados com a Fransquinha, lembrava de seus tempos de seminarista em Olinda. Lá, mesmo depois de ordenado, ele namorava abertamente uma moça linda filha de um comerciante e que se chamava Luciana. Infelizmente, ou melhor, felizmente, esse namoro não tinha levado a coisa alguma e ele voltara para a casa de seus pais, em Sobral. Aí ficou esperando que o Bispo lhe nomeasse para a paróquia onde pretendia ficar por muito tempo. Sua preferência era o trabalho em um lugar pequeno onde tivesse possibilidades de fazer amizades com gente importante, pois era ambicioso e pretendia galgar posições na hierarquia na Igreja. Tinha de começar de baixo, para aprender tudo. Padre Lisboa esperou pouco tempo até ser nomeado Vigário da Lagoa. Quando Neide, sua amiga sobralense, soube que ele iria embora deu um escândalo que, felizmente, não foi presenciado por muita gente, pois foi na própria Sacristia da Igreja de São Bernardo e só seu amigo João, o sacristão, presenciou.

Logo que desembarcou na estação da Lagoa e se encaminhou para a Casa Paroquial, levado pelo Aniceto, o sacristão da Matriz, ele viu pelo tipo de pessoas que encontrava no caminho longo de quase mil metros que iria se dar bem. Ele não queria prestar atenção nas moças, mas era inevitável, pois elas estavam todas às janelas tendo sabido que ele desembarcaria no trem das quatro, como aconteceu.

Chegando à Casa Paroquial ele foi apresentado a Dona Mariana, a senhora que lhe serviria de governanta e também de ajudante em algumas tarefas na própria Igreja Matriz. Estava presente também o Chiquinho, menino de recados e botador de água, tendo para isso que cuidar dos dois jumentinhos de propriedade da Paróquia.

Além das atividades normais da Igreja, que ele teria de organizar, pois foram deixadas em lastimável estado por Monsenhor Arthur, coitado já bem idoso e quase cego com uma catarata nunca operada, Padre Lisboa iniciou visitas a seus paroquianos mais necessitados, sempre preparadas, pelo grupo de senhoras que faziam parte da ASCAPONE. Dona Mariana e Aniceto também ajudavam nesse mister e, com o passar dos dias se tornaram amigos sem chegar a serem confidentes.

Padre Lisboa achava que tinha muito trabalho, mas não se queixava desde que suas amizades, a cervejinha e o carteado ocasionais não lhe fossem de algum modo proibidos ou censurados. Das compensações terrenas ele cuidaria. Pensava ele.

Mas, desde a tarde em que Fransquinha, afoitamente, fora até a Sacristia, onde ele estava preparando homilias para as próximas missas, levando um bolo de rolo de goiaba para ele e, logo pedindo a Dona Mariana para fazer um café, que o coração do Padre Lisboa deixou de bater em ritmo normal.

Parece que o cão atenta, pois Dona Mariana, já em idade que não lhe dava muitas esperanças sentiu, nesse dia, na sacristia, o ar magnetizado quando os olhares de Fransquinha e do Padre Lisboa se cruzaram. O que ela fez foi baixar a cabeça e sair silenciosamente, sem antes dizer que ia preparar o café e se os dois quisessem tomá-lo, quentinho, atravessassem a rua e fossem logo até a Casa Paroquial. Lá Padre Lisboa poderia experimentar o bolo de rolo na varanda de trás sem que ninguém xeretasse.

A partir desse dia Padre Lisboa não teve mais sossego, não porque as pessoas falassem alguma coisa, ainda não, mas devido ao fato de que ele não se satisfazia com o sonho sonhado, pois queria sempre o sonho realizado, como havia lido em um livro de Nelson Rodrigues. Foi isso o que havia acontecido em Olinda e depois em Sobral. Ele queria se enredar e ele e a mocinha se enredaram de tal maneira que, no seu caso, mesmo rezando missa ou confessando alguém, não tirava o pensamento da Fransquinha nem no que estava acontecendo.

Na Casa Paroquial, aonde a menina ia quase todas as tardes que sabia estar o padre livre de outras obrigações, os dois conversavam muito e se enredavam ainda mais. Certo que o enredamento físico foi chegando aos poucos, mas chegou para gáudio dos dois.

Foi muito difícil para Fransquinha disfarçar seu enlevo e foi logo na casa do Tio Manuel Rufino que o primo José tocou no assunto. Os dois estavam sós na varanda da frente quando ele jogou uma indireta para ver se a prima caia. Apesar de pouco experiente Fransquinha ficou firme, mas como sempre nesses casos as suspeitas do primo José não foram eliminadas. Ele tinha certeza que a prima tinha um caso com Padre Lisboa. Mas, não seria por ele que o segredo se tornaria público. Já o padre passou a aparecer nas rodas de cerveja e de carteado bem mais eufórico do que de costume o que logo levantou suspeitas ao Ricardinho e aos outros. Os amigos do Padre Lisboa concordaram tacitamente que esse era um assunto que não devia ser discutido nem propagado.

Tudo ia bem para os dois namorados, pois as poucas pessoas que desconfiavam – não sabiam – não levavam o caso à frente. Era algo que não merecia investigação, até que surgiu na cidade, vindo de Sobral o Dr. Vanilo Bezerra. Este era um advogado recém formado que estava à procura de uma noiva rica para um contrato matrimonial. Dr. Bezerra era um exímio jogador de baralho e logo se enfronhou na mesa de jogo de Carlinhos e Ricardinho, a mesma freqüentada pelo Padre Lisboa.

Fransquinha e Padre Lisboa continuavam a se encontrar na Casa Paroquial sob a guarda de Dona Mariana sem maiores cuidados do que aqueles tomados até então. Os dois não tinham maiores preocupações mesmo porque Padre Lisboa havia instilado em sua amiguinha suas idéias a respeito do sonho realizado. E ela estava totalmente de acordo. Dessa maneira os dois viviam no melhor dos mundos.

O sonho realizado de Fransquinha e Padre Lisboa não durou muito tempo. Em uma manhã quente de segunda-feira Chiquinho chegou esbaforido da Matriz onde estivera ajudando o sacristão Aniceto a fazer uma faxina. Foi direto ao padre e pediu para falar-lhe na camarinha. A princípio Padre Lisboa quis negar-lhe o pedido, mas pensando melhor achou que o Chiquinho talvez tivesse alguma coisa importante para dizer. Longe das vistas de Dona Mariana, mas não certamente dos ouvidos, Chiquinho diz ao padre que Aniceto havia encontrado coisas estranhas espalhadas por toda a igreja e pedia que ele fosse até lá, mas fosse sozinho. O padre estranhou, mas achou que não podia deixar de ir atender ao pedido, pois certamente tratava-se mesmo de assunto muito importante. Foi acompanhando Chiquinho.

Logo ao chegar, já na porta da Sacristia, está Aniceto esperando-o. O sacristão leva Padre Lisboa até o altar mor e aponta para uma série de objetos jogados sobre a toalha imaculadamente branca. Ele imediatamente os identifica: são preservativos masculinos de borracha, as famosas camisas-de-Vênus. Os três andam por toda a nave da igreja e pelos outros altares e contam vinte pacotinhos de seis preservativos cada, alguns abertos. Há preservativos até nos dois confessionários!

Padre Lisboa volta às pressas para a Casa Paroquial para vestir-se e visitar uma das pessoas que pode ajudá-lo nesse difícil instante, pois imagina que se o assunto for tornado público ele certamente perderá sua posição de Vigário da Lagoa. Ele tem certeza disso. O Coronel Santos, um homem íntegro e muito bem preparado, um grande comerciante da cidade certamente o ajudará.

Ao chegar à residência do Coronel Padre Lisboa pediu para falar-lhe em particular e o velho o recebeu no Salão Azul, confortável ambiente do casarão. O padre soube, para sua surpresa, que a história já havia chegado ao Coronel que havia imaginado ser algo preparado por alguém que lucraria com a desmoralização do Padre Lisboa. O Coronel mostra-se compreensivo quando o padre o põe a par de seus entretenimentos com Fransquinha. Mas do que se trata agora é de uma boa estratégia para evitar que o escândalo se espalhe se ainda for possível. Eles decidem que havia duas coisas a fazer uma era mandar espalhar pela cidade que o acontecido não tinha acontecido, isto é, o que se havia encontrado não eram camisinhas, mas envelopes de comprimidos de Triofon o novo remédio para dor de cabeça e do qual se fazia muita propaganda. A outra iniciativa era Padre Lisboa viajar para Sobral e relatar tudo ao Bispo Conde a fim de atalhar qualquer notícia que houvesse chegado aos seus ouvidos. E tinha de ser no primeiro trem, infelizmente só na próxima manhã.

Padre Lisboa sai da estação de Sobral quase correndo para ir até o Palácio do Bispo e, surpresa quando ele já está na ante-sala à espera de ser recebido sai da mesma porta pela qual vai entrar o Dr. Vanilo Bezerra já seu conhecido da Lagoa. Também é só o tempo de cumprimentá-lo e entrar no escritório do Bispo Conde. Este o recebe com mais de mil pedras na mão e quase o expulsa sem nem dizer o porquê de sua explosão verbal. Mas, a rogo do pobre Padre Lisboa o bispo lhe diz o que o advogado acabava de lhe relatar na entrevista anterior. Padre Lisboa tenta por todos os meios e pede a interferência de todos os santos, mas o bispo é irredutível: ele está demitido da Paróquia da Lagoa, terá de vir para Sobral e ficar aguardando ordens; para seu lugar ele vai nomear o Padre George que será removido da Paróquia de Quatiguaba.

Passam-se dois meses até que Padre Lisboa possa volta a Lagoa para trazer seus poucos pertences e despedir-se dos amigos e amigas que eram muitos.

(A foto é de Tyrone Power - AllPosters.com)




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Friday, December 04, 2009

LÍVIO BARRETO


LÍVIO BARRETO, O POETA DO LUAR E DA PAIXÃO

O Instituto José Xavier (Granja, Ceará) lançará, em solenidade especial, o livro “Lívio Barreto, O poeta do luar e da paixão” de Antônio Evaristo da Paz Sá. O autor é poeta granjense radicado no Rio de Janeiro.
O livro de Antônio Evaristo trata da vida do poeta granjense e faz uma análise de sua produção que o coloca como um dos principais representantes do Simbolismo no país.

O livro já se encontra à venda na Livraria Oboé (Center Um) em Fortaleza.

Texto completo.

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Thursday, December 03, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 31

PRIMEIRA DESCIDA AO INFERNO


Jorge estava em sua cadeira de rodas. Só Suzana estava; ela era quase uma governanta e fazia de um tudo em casa, como ele gostava de dizer. Era durante a semana que ele se sentia mais só muito embora os sábados e domingos fossem também vazios. Como de costume, ele estava lendo, e ouvia um pouco de música. Ele ouvia um concerto de Mozart e quando terminou desligou o toca discos e pegou da pilha na plataforma da cadeira um dos livros que pretendia começar a ler. Abriu o volume novinho em folha - mais um livro sobre o Império Romano, sua atual mania - e sentiu o cheiro gostoso do papel cortado e da tinta de impressão que parecia ainda estar fresca. Ele sentia este cheiro apesar do livro ter sido comprado na “Amazon.com” e ser de uma edição do ano passado. Gostava do cheiro. Gastava bastante dinheiro na compra de livros; não gostava de ler livros emprestados, sempre tinha de comprar para tê-los. Isto, mesmo vendo que as estantes de sua sala de trabalho – o escritório - estavam atopetadas, com volumes preenchendo todos os espaços. Como lesse muito em inglês havia uma diversidade bem grande de assuntos também nessa língua. (...)


Ele estava imerso na leitura quando Suzana aproximou-se sem se fazer sentir, como era seu costume, dando-lhe sustos, e passou-lhe um prato cheio de pedaços de fruta, banana, maçã, e mamão, cobertos com “müsli” e mel de abelha. Ela se dava ao trabalho de cortar as frutas... Estas faziam parte de sua alimentação desde quando ele passou a ter a mania de controlar seu peso: pressão alta, velhice mesmo.

Voltou ao livro e, novamente, ficou isolado do mundo, envolvido com as lutas na Dácia...

Chegou à ant antesala, bateu com os nós dos dedos na porta do gabinete do Professor Rosado e esperou ouvi-lo dizer que entrasse. Rosado foi seu primeiro chefe no Laboratório, e era um autodidata com um conhecimento enorme e abrangente. Dizia que gostava de música sendo sua peça preferida o “Tema de Lara”, de Maurice Jarre. Rosado costumava dizer que se lhe dessem vinte e quatro horas ele daria aula sobre qualquer assunto, pondo ênfase em qualquer. Não precisava nem de livro para preparar a aula, pois tinha em casa tudo que precisasse. Após ter feito doutorado Jorge voltou e foi nomeado Diretor da Faculdade que era quase uma propriedade do “Mestre” como muitos puxa sacos chamavam Rosado; ficou este com a Chefia do Departamento. Jorge estava muito tenso, pois nos últimos meses teve de saldar dívidas que o “Mestre” fizera e ainda fazia, sem nem ao menos emitir empenhos; o total era alto, bem acima do orçamento da Faculdade. Havia muitas dívidas em dólares, principalmente as feitas com Santo Venazia, livreiro de Milão que, periodicamente, vinha à cidade cobrá-las e vender mais livros. Ele já não suportava a enorme pressão que sentia. Ao som da batida ouviu o velho – velho? Ele não era velho! - Dizer:

- Entre!
- Bom dia, Professor.
- Bom dia, Jorge. O que há?
- Não estou satisfeito na Direção e venho-lhe dizer que vou pedir demissão. Queria-lhe dizer antes para não causar problemas.
- O que foi que aconteceu, Jorge?
- Nada de importante, mas estou muito cansado e estressado e preciso de algumas semanas longe disso tudo. Vou para o interior amanhã.
- Jorge você é um camarada surpreendente! Eu não esperava isso... Enfim, está certo.

O pequeno discurso de Jorge tinha sido ensaiado com sua mulher que já estava preocupada com os modos de agir dele: calado, sem vontade de fazer nada. Ela o apoiou e foi inclusive com ele até a Faculdade tendo esperado o resultado de sua entrevista com o Rosado em sua ante-sala. Quando Jorge saiu, ela perguntou-lhe:

- Tudo bem?
- Tudo certo...
- Pois amanhã vamos para o interior e só voltamos daqui a duas semanas. Temos de ir de ônibus, pois o fusca está no concerto e não sai tão cedo.
- Certo...

Suzana pôs a mesa e o almoço e foi chamar Jorge. Quando se aproximou da cadeira ele acordou de um leve sono tendo ainda o livro sobre as pernas. Ela o ajudou a caminhar os poucos passos até a mesa de refeições e ele sentou-se. Almoçou o que ele dizia ser o seu normal, um pouquinho de salada, arroz, feijão e um bife. Tudo sem muita gordura, pois o colesterol andava um pouco alto e ele tinha de controlar o peso. Como sempre comeu um pouco de doce; este era seu pecado em matéria de comida; era difícil encontrar um doce do qual ele não gostasse.

Após o almoço ele deitou em sua rede vermelha, no quarto, pegou um outro livro que já tinha começado. Era o livro novo de Irving Yalom, “Mentiras no divã”, que trata do relacionamento entre terapeutas e seus pacientes. Ele estava gostando muito. Após ter lido algumas poucas páginas dormiu até o fim da tarde.



O quadro é “Virgílio mostra a Dante
o sofrimento dos condenados no
Infrerno”, por J. Segrelle



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Wednesday, December 02, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 109


VIAGEM

Logo souberam que viajariam para o interior. Tomaram o carro, um fusca creme e foram por estradas lamacentas. Deveriam ir para uma fazenda. Ao passarem por uma cidadezinha a garota que ia junto pediu ao irmão para parar. Entrou em um boteco sendo logo reconhecida por um dos presentes. Este lhe apresentou uma conta, em dólares (mais de cem), para ela pagar. Enquanto preparavam um recibo entra um caipira e pergunta se a garota é médica. Ela diz que sim e ele então apresenta uma ordem de alguém muito importante que a obrigava a atender imediatamente uma pessoa. O acontecido perturbou-os tanto que desistiram da viagem.


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Monday, November 30, 2009

LAB 2038


Não é meu costume postar textos ou fotos que lembrem “as coisas” que eu fazia antigamente. Entretanto, de vez em quando sou tentado a fazê-lo. E quando um amigo antigo estudante e companheiro de cerveja, (re) lembra daqueles tempos dá vontade de fazer propaganda daquilo que já foi: um lugar onde se fazia pesquisa com seriedade e alegria. Era o Lab 2038.
Esta sigla (era o número da sala) identificava o laboratório deste blogueiro quando era professor de Bioquímica Vegetal na Universidade Federal do Ceará. Já faz muitos anos. As fotos foram tiradas poucos dias antes de minha partida para outros campos.



Cláudio Picanco
Exibir contato
Para: Jose Xavier Filho
________________________________________
Caro Professor Xavier,

Tava aqui com a Marcinha, cheguei agora, tomamos chope na São Salvador, uma praça charmosa perto de minha casa em Laranjeiras. Ela mandou um beijo pra você, dela. É uma morena, amiga minha da Elenir e da Illona, andava as vezes no 2038.

Ela é minha comadre duas vezes, madrinha do meu filho Felipe e agora do meu casamento com a Carol que é do Jornalismo aí da UFC, a Ana Maria conhece.

O que falávamos era que o 2038 foi o laboratório grande formador de pessoas com asas. A formação foi tão boa que cada um seguiu o caminho como quis, sem medo. Você sabe disso, tem gente do 2038 em vários cantos do país, não ficamos atrelados ao departamento de bioquímica, como tantos outras pessoas formadas nos laboratórios de lá.

Enfim, é cedo pra isso, mas mando logo meu feliz ano novo, aproveitando a cerveja na cabeça e as lembranças das tomadas de cerveja no final do dia, nas sextas feiras, embaixo de magueiras, nos bares na Humberto Monte.

Um abraço.

E um blog, ou fotolog do 2038 não vai fazer? Cabe a nós fazermos?

Inté


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Sunday, November 29, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 149


O JORNAL

Na Beira-mar ele encontra o Cristiano, amigo de velhas datas.

- Rapaz, porque você compra jornal todos os dias aqui na Beira-mar?
- Ora, porque quero ajudar o Zé Raimundo. Ele é meu amigo, conhecido de muito tempo.
- E você lê o jornal?
- Não!
- E então?
- Quando já estou longe e o Zé Raimundo não está olhando eu jogo o jornal fora.
- Ah...


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Saturday, November 28, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 18


CASINHA DE BONECAS.

Hoje, quando se comemora o dia do índio e também do massacre dos judeus em Lisboa os bonequinhos foram tomados de surpresa, pois descobriram, ao chegar à frente da casinha que ela estava fechada; sua dona sabia que, por causa dos feriados, além daquele que se comemorava em sua própria casa, estaria tudo fechado. Mas ela não avisara aos bonequinhos e bonequinhas que todos os dias vinham brincar. (...)


A dona brincava com meninos e meninas, todos feitos de plástico dos mais diversos tipos e cores e origens, havia até uns que, de tão velhos, caiam aos pedaços, mas outros ainda levavam seus leitinhos para a merenda, pois a Judite não dava merenda, ao contrário, ela exigia tudo dos bonequinhos e bonequinhas: quem quisesse participar e continuar na brincadeira tinha de prestar vassalagem a ela sob a forma de merengues, sucos e outras finuras. O mais interessante é que ela, mesmo com todas as limitações conhecidas só tratava seus bonequinhos e bonequinhas a coices dados ao léu, e que quando os atingiam causavam muitos estragos.

Para se tentar entender o estranho comportamento de Judite é necessário que se esclareçam suas origens. Essas são registradas desde os tempos da Rainha Juliana I da Holanda. Essa era filha adotiva da Rainha Vitória da Inglaterra, neta de Julio César, primeiro Imperador romano e gostava de andar peada pelos campos da Andaluzia, fazendo par com Incitatus, a cavalgadura do primo Calígula. Foi em um desses passeios, acompanhada por seu escudeiro Aquilino, o fiel Bobo da Corte, que conheceu Roderico, O Godo, que logo lhe fez um filho a quem foi dado o nome de Josephus Josephi que foi, a seu tempo, um importante bufão da corte de Dom Sebastião, O Esperado. Esse Josephus Josephi é o antepassado mais conhecido de Judite.

A parte da brincadeira com os bonequinhos e bonequinhas da qual ela mais gostava era quando podia - quase sempre - usar os cordõezinhos de fio de alpaca que faziam os bonequinhos dançar e falar. Há de se notar que os machos dançavam bem melhor do que as mulheres, eles eram verdadeiros Nijinskis. Para compensar as meninas gostavam muito do rela bucho.

Outra qualidade das brincadeiras eram os pontapés, coices e marradas que Judite dava nos brincantes quando ela começava a enjoar deles, bem de acordo com sua ascendência e criação em diversos haras da Europa. Os mais rebeldes dos amiguinhos reclamavam, mas nada; um deles chegou mesmo a comprar um relho de couro cru e um par de peias de couro curtido, mas não deu em nada, pois antes que ele fizesse alguma coisa Judite mandou seu namorado novo jogá-lo no rio cheio. As brincadeiras continuaram por muito tempo, por muitos invernos até Judite viajar para a Cucuia, que ninguém sabe onde fica e de onde não mais voltou. Poucos meses antes de sua viagem Tiradentes montou consultório bem na Rua do Azevedo, especialmente para tratar da dentadura de Judite –de 36 dentes – e de seus brincantes.

Logo que as tais brincadeiras começaram a amiga preferida, pois existia uma, lhe disse: - Você aprende a dar esses coices direito senão aparece um menino rei desses e lhe dá uma chicotada e lhe põe uma cangaia e umas peias e lhe solta bem longe no pasto do seu padrinho. Judite nada disse, mas ficava imaginando como seria difícil isso, pois ela era “Judite, a verdadeira manga-larga”!



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Friday, November 27, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 93

Este poema de Lívio Barreto, de acordo com Sânzio de Azevedo, é o que mais ressalta o seu Simbolismo.


POEMAS NOTURNOS


Vai tarde a noite. Todo o azul cintila
Como uma azul, nostálgica pupila.

Vão as estrelas como virgens louras
No terraço do céu passeando e rindo,
As amplidões profundas, sonhadoras,
As longas tranças d´oiro sacudindo.

E com a paz magnânima de um crente
Reza o Silêncio taciturnamente.

Para as bandas do sul as nuvens correm
Como blocos de gelo sobre o mar;
Brancas, tão tênues que de tênues morrem;
Cansa-se a vista para as alcançar.

Gemem do vento as quérulas surdinas
No órgão melancólico das ruínas.

Uma estrela destaca-se, brilhando
Mais do que as outras, luminosa e bela;
E eu fico ansioso e trêmulo cismando
Ó minha amada, se é a tua estrela.

Pálida, corta a Estrada de Santiago
O céu profundo, acinzentado e vago.

Tudo o que eu vejo em cima é triste e doce,
Misteriosamente concentrado,
Como se acaso tudo em cima fosse
Como o meu peito pela dor trancado.

Na imensa aquosa solidão dos mares,
Quantos nautas cismando nos seus lares!

Esses têm lares e eu não tenho, olha,
E também vou sobre este mar, querida,
E o malmequer que, pálida, desfolha
A tua mão é mais do que eu com vida!

Do azul longínquo vai a lua em meio,
Monja da noite de rosário ao seio.

Vai longe a noite; quem me dera o dia!
Estou cansado desta solidão...
Ó sol, acaba esta melancolia
Que a lua deixa no meu coração.

- Fevereiro 94 -
A gravura é "A lua" de Mucha.





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Wednesday, November 25, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 30

Man Smoking a Pipe, por Whistler, circa 1859 (Allposters.com)


O AMIGO DOCA

Vanessa e Jorge tinham ido para a Prainha passar o fim de semana. Ele gostava de ficar lendo, deitado na rede azul e olhando, de vez em quando, o mar de um verde-esmeralda de cegar. Após terem almoçado uma peixada de arabaiana regada com uma cerveja no restaurante do Seu Chico da Cruz, eles voltaram para casa. A moça foi ouvir um pouco de jaz no toca discos; ele não apreciava jaz, mas não se incomodava de ouvir. Ele podia ler sem perder a concentração mesmo ouvindo música que não gostava. Ele estava lendo o Dom Quixote; o livro se enquadrava no rol daqueles que ele sabia que deveriam ser lidos em sua tentativa de “quitar o seu tremendo déficit cultural”... Após ter lido dois ou três capítulos da segunda parte ele pôs o livro no chão, ficou olhando o mar e começou uma “sessão de pensamentos internos”.

Ele como que dirigiu sua mente clara para o tempo em que orientava estudantes de mestrado. Fixou-se em Doca, um de seus alunos preferidos, talvez porque ele o achasse bem-parecido consigo mesmo. (...)


Doca foi um dos melhores alunos que ele teve. Era um pouco mais velho do que a maioria, mas esta não era a razão de seu brilho. Nenhum de seus colegas gostava dele; diziam que ele era pretensioso e fuxiqueiro. Jorge não concordava e dizia que eles tinham ciúmes. Doca fumava muito, enquanto ele Jorge, já tinha largado o vício há bastante tempo. Viviam brigando, pois ele deixava cair cinzas e pontas de cigarro por todo o laboratório. Bom, isso era no tempo em que o câncer de pulmão e “a ecologia” ainda não estavam na moda. O Doca passou a esconder os resultados que obtinha. Jorge não tinha a menor ideia do por que dessa atitude. Ele descobriu que estava enciumado com o Doca pelo fato de que ele estava se revelando ser diferenciado em muitas áreas. Jorge descobriu também que o pupilo estava assinando uma revista inglesa de literatura e cultura. Ele concluiu que seu aluno estava “invadindo” a seara dos Raposo e isso era inadmissível!

A convivência foi se tornando insuportável; além do ambiente pesado havia questão da tese que o moço teria de terminar mais cedo, pois iria fazer doutorado fora do país e só com esse requisito cumprido ele teria licença.

Jorge lembrava sempre do “pega” que os dois tinham tido quando estavam sós no laboratório. Ele fechou a porta à chave e começou a reclamar do aluno seu desleixo, agressividade e sua inveja. Disse-lhe que tivesse calma que chegaria a ser tão bom, ou melhor, que ele. Isso foi dito aos gritos e retrucado pelo Doca que o chamou de pretensioso e egoísta. Ao fim de uma meia hora de agressões mútuas, Doca começou a chorar e lhe disse que o considerava como um pai e queria ver “tudo isso acabado”. Jorge achou que ele estava certo e terminaram abraçando-se. Ao voltar para casa começou a pensar por que tinha iniciado aquela cena.

Quando Vanessa o chamou com sua voz meiga ele se assustou, mas ela não percebeu:

- Vamos tomar um café bem esperto com aquelas tapiocas que compramos lá embaixo.

- Certo, certo. Café com tapioca é gostoso...

- Depois voltamos. Te deixo no apartamento e vou para o meu escritório, tenho muita coisa para fazer ainda hoje.

Ela tinha o dom de dizer as coisas e fazê-las aceitar sem discussão.


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CARVALHO MOTTA


COMERCIANTE, CAPITALISTA, POLÍTICO, ADMINISTRADOR.

ANTÔNIO FREDERICO DE CARVALHO MOTTA era o 3º Vice-presidente do Estado do Ceará quando o Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly foi deposto em janeiro de 1912. Ele assumiu a Presidência e foi instrumental na manutenção de um mínimo de ordem após a derrocada da oligarquia aciolina. Registros sobre sua administração são praticamente inexistentes além do que Carvalho Motta é um completo desconhecido para o povo de sua terra, seja de sua cidade natal, Granja, seja do Estado para o qual ele sacrificou um promissor futuro político.

O responsável por este blog apela para os leitores que tenham conhecimento dessa importante personalidade de nossa história e que desejem colaborar para o resgate de sua imagem que entrem em contacto pelo endereço eletrônico (jxavierfilho@yahoo.com.br) ou por meio do blog.

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BERENICE XAVIER/CLARICE LISPECTOR


Berenice Xavier, granjense do Rio de Janeiro, interpreta Clarice Lispector.

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Tuesday, November 24, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 108


NA CATEDRAL

Após terem feito cinco cidades no norte da Europa eles chegam a Roma, cidade plena de tradições. Logo no primeiro dia, para não perder tempo precioso, eles visitam a imensa e secular igreja, palco de peregrinações e visitada por turistas de todo o mundo. A Igreja de São Pedro pedia silêncio quase sepulcral, principalmente em sua enorme nave, para que todos se concentrassem e orassem. Além disso, seu piso de mármore com inscrições em latim incrustadas pede por um grande silêncio. Pois bem, vagando aleatoriamente pela nave ela caminhava, caminhava não, ela trotava em cima dos seus enormes tamancos de madeira. A cada passo que dava ela punha mais algumas notas na sua composição brega que ressoava por entre as enormes colunas negras do baldaquino. Eles lhe pedem que tenha cuidado, respeito, pois estava exagerando em sua melodia. Ela, com um olhar de quem nada entendera pergunta:
- E o que é que tem?


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Sunday, November 22, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 148


VIAGEM À EUROPA

No calçadão ele encontra o colega de longas datas. Tiago faz-lhe a costumeira pergunta:

- Onde você andava, rapaz?
- Estava viajando...
- Em Brasília?
- Eu hein? Brasília é só para os políticos...
- E onde você estava viajando?
- Fui à Europa...
- Você?!
- Ué, eu! Não posso?
- Não, você merece...


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Saturday, November 21, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 17


“ERAS FATAES” OU O CLUBE

Logo cedo Zelito e Sileno preparam-se para ir à praia: vestem seus calções de banho e põem a camiseta com o emblema do Castelo, tomam um café bem ligeiro e vão pegar o ônibus do Meireles na Praça. Eles costumavam ir para a praia do Náutico aos domingos e lá encontrar com Jorginho. Seu pai dizia que era bom para a saúde física e também para a mental e eles concordavam, mais com essa última idéia, se bem que ficavam calados. Eles ficavam na areia tomando sol e, ao mesmo tempo, ficavam de olho grudado nas meninas que se bronzeavam por ali. Nenhuma delas olhava para qualquer deles, mas isso não tinha a menor importância. Eles formavam um tipo estranho, pois namorada na capital não tinham; meninas, só as da Granja, talvez eles tivessem medo de se chegar às da cidade grande. (...)


Quando era para entrar na água só Zelito e Sileno iam, pois Jorginho tinha medo do mar, desde quando ele perdeu um jacaré e foi jogado na areia, ali mesmo em frente ao Náutico, vomitando água, todo arranhado e assombrado. Entrar na água, nunca mais! Ele era assim, meio que radical. Ele só gostava da água das piscininhas, feito menino. Enfim, estavam os três, nesse domingo, deitados na areia quando Jorginho falou:

- Vocês vão passar o Carnaval na Granja?

Ele não esperou pela resposta e foi logo dizendo:

- Eu acho que eu vou, já faz um tempão que não vou lá e Mamãe reclama o tempo todo. Vou ter de voltar na quarta de manhã.

Um dos gêmeos diz:

- A Mamãe também pediu pra gente ir, nem que fosse só no sábado para voltar no outro.

Sileno continuava calado, riscando a areia molhada com um graveto. Mas disse logo a seguir:

- Se a gente quer ir tem de procurar transporte, pois o caminhão lá de casa ta quebrado e não vai sair do conserto tão cedo.

Jorginho sugere que eles procurem logo na segunda as passagens de ônibus ou um transporte qualquer na agência do Seu Edson. E completa:

- Pode deixar que eu vou procurar amanhã; tem que ser quatro lugares, pois na certa o Raimundinho vai querer ir também e vai ser bom a gente ir junto.

Depois de baterem bola um pouquinho, entrarem na água de novo - isto é os gêmeos - e chuparem picolé os amigos tomam o ônibus de volta pra casa. Jorginho desce logo na esquina da Nogueira Acioli enquanto os dois vão até a Praça do Ferreira e de lá vão gramando até em casa, na General Sampaio.

No dia seguinte, no Liceu, Jorginho encontra o Raimundinho e diz que eles vão passar o Carnaval na Granja e se ele não queria ir também: ia ser bom os quatro juntos, na festa da Prefeitura! Aí Raimundinho, vê que Zelito e Sileno vão também e imagina que vai ser uma viagem legal. O amigo concorda, mas diz que vai ser difícil, pois dinheiro ele não tem, mas tinha certeza que Seu Pedão lhe arranjava, pelo menos o da passagem.

- Vocês estão pensando na festa da terça na Prefeitura, não é?

Jorginho diz que é mesmo e seria bom se fossem, pois na certa encontrariam as meninas todas e podiam pular à vontade com elas, quem sabe até... Ele lembra ainda que tem alguns problemas.

Os dois voltam para a classe para assistirem a última aula, de Matemática, do Prof. Alcy, que era muito exigente e meio sarcástico e de quem nem todos os alunos gostavam. Jorginho gostava das aulas de Latim, dadas pelo Osvaldo, ex-seminarista, mas também exigente como todo. Já o Raimundinho tinha um pouco de dificuldade e os colegas diziam que ele era meio burrinho. Eles não tinham muita idéia de como era a vida do Raimundinho, mas ele não tinha nada de burrinho.

Na saída os dois se encontram novamente e o Raimundinho diz:

- Vem cá Jorginho tu acha que eu vou entrar na festa da Prefeitura?
- E por que não? Tu deve alguma coisa lá?
- Sei lá... Tem sempre um probleminha...
- Olha, vamos mandar fazer a nossa fantasia que depois a gente resolve tudo.
- Fantasia, rapaz? É melhor só uma camisa florida, é mais barato.
- É, talvez, pode ser uma camisa bem colorida, com flores bem encarnadas, verdes, sei lá... A Raimunda pode fazer bem baratinho pra gente e ela ta na casa dos meninos.

Jorginho lembrou que a Raimunda, costureira afamada da Granja, estava na casa dos gêmeos, passando uma temporada para se curar de uma doença que ele não sabia qual fosse, mas que era meio braba. O bom é que ela continuava trabalhando, como sempre. Vai daí que ela talvez pudesse fazer as camisas deles. Os dois resolveram que iriam logo passar na casa dos meninos e combinar tudo. Eles tomaram o ônibus do Jacarecanga e desceram na esquina da rua onde morava o Coronel - ainda chamavam de Coronel o pai dos gêmeos. Eles já tinham chegado do colégio e já estava quase na hora do almoço, por isso os dois se apressaram para conversar sobre a viagem e a festa, pois não iam filar o almoço da Joana.

- Raimunda vem até aqui na sala! Gritou Sileno.

Logo chegou uma senhora de óculos sem aros, cabelos pretos e meio ondulados, de uma idade indefinida, e de tez acobreada como de resto quase todo mundo da Granja, pois a ascendência índia era patente na maior parte da população. Raimunda foi logo perguntando:

- Que é que vocês querem meninos?
- Mundinha – era assim que eles chamavam a costureira, amiga da casa – a gente quer que você faça as camisas pra gente ir pra festa do Carnaval.
- E quantas são?
- Quatro: a minha, a do Sileno, a do Raimundinho e a do Zelito, diz logo Jorginho. A gente vai pagar assim que arranjar o dinheiro.
- Para o Raimundinho, também?
- Sim, também. Responde Jorginho.
- Certo, mas e a fazenda? Você podia pedir à Maria Isaura para tirar na loja do Seu Jean, lá na Praça do Ferreira. Se ela mandar eu vou logo depois do almoço e trago.
- Ta certo, eu telefono daqui e peço a ela.
- Então ta certo e eu nem preciso tirar as medidas de vocês eu faço pelas medidas do Sileno que eu tenho aqui, vocês são tudo do mesmo jeito... Quarta ou quinta estão prontas.

Volta o Jorginho da outra sala dizendo que a irmã havia dado ordem para a Raimunda tirar as fazendas no Seu Jean. E quem iria pagar tudo seria a Maria Isaura da conta dela mesma ou da sua mãe.

Os dois colegas se despediram e foram caminhando até a Praça do Ferreira, onde ficou Raimundinho na merendeira do Seu Pedão e Jorginho tomou o ônibus, pois já estava passando da hora do almoço e ele não queria ficar sem comer, sua irmã não dava mole, quem não estivesse na hora do almoço não comia. Raimundinho comeu o normal, um cai duro e uma garapa de cajá e se aprontou para trabalhar até sete horas que é quando ele vai pra casa na Cachorra Magra.

Raimundinho morava na Cachorra Magra com seus pais; ele tinha nascido na pequena casa construída por seu avô sobre o casebre que sua família vinha ocupando desde que suas bisavós haviam chegado do sertão da Granja fugidos da seca de 77. Seus pais contavam, por ouvir falar, e mesmo pela comparação que podiam fazer com sua situação agora, que não era certamente muito melhor do que a da época, da miséria implacável que foram aqueles tempos da seca dos dois setes como todo mundo dizia. Pode ser que seja melhor, pensava o Raimundinho, mas pelo que ele vê na Cachorra Magra e no Barrocão, na Granja, ele perdia as esperanças de ver alguma mudança para os seus. Ele tinha certeza que iria batalhar toda a sua vida para ter uma vida melhor e levar os seus a terem uma vida digna como certamente tinham seus antepassados distantes.

Ele ia de vez em quando à Granja passar férias curtas com seus tios, o Tio Pintor (pintor de paredes e, nas horas vagas, retratista) era irmão do seu pai e tinha voltado para a Granja quando viu que não tinha nada pra ele na cidade grande. Lá seus tios moravam no Barrocão, na parte mais alta, isto é, na barreira entre a parte antiga do bairro e a miséria total de hoje, à beira do rio.

Pelo fato de estar saindo da adolescência, sendo quase uma criança, pois tinha um pouco menos de dezoito anos, Raimundinho ainda não havia se habituado com o jeito como era tratado por muitas pessoas, seja na Granja, seja na Capital. Na Granja, pelo menos ele era conhecido e tinha amigos de todos os jeitos como ele próprio dizia, mas os pais de alguns de seus amigos olhavam pra ele com um olhar esquisito. Quando conversavam Jorginho, Sileno e Zelito e ele não estava por perto, muitas vezes, discutiam esse assunto. Eles gostavam do Raimundinho, durante toda sua meninice, nas férias, eles foram muito ligados, pois iam juntos aos banhos de rio, e brincavam juntos de bila, papagaio e espiavam no bar do Santino os jogos de sinuca, proibidos para quase todos só não para ele, seu tio Pintor ia lá se incomodar com isso. Só pouco a pouco os três, que moravam no centro da cidade, descobriram que o Raimundinho era, por muitos, considerado diferente deles. Eles tinham a cor da pele quase igual a do amigo, os cabelos eram pretos e escorridos, talvez os gêmeos os tivessem um pouco mais claros, a estatura era a mesma e outros sinais iguais. Só que o Raimundinho era diferente, o conjunto, bem dizendo. Os sinais herdados dos antepassados índios eram bem mais evidentes e, pior, seus parentes nunca tinham podido sair do Barrocão e “apagar essas nódoas” que eles achavam ter e que poderiam apagar.

Na tarde daquele dia Jorginho foi pro trabalho mais cedo, pois tinha de fazer alguns pagamentos no Banco do Brasil e nessa história ele passava à tarde quase toda; apesar de conhecer uns dois ou três funcionários do balcão, muitos outros colegas tinham também seus conhecidos e daí ninguém tirava vantagem. Após voltar do Banco e de pegar alguma merenda na própria mercearia, pois o primo Flávio não lhe pagava coisa alguma – recomendação de sua mãe que o queria aprendendo a trabalhar, não precisava ganhar dinheiro... - ele foi para casa estudar um pouco antes da aula de francês.

- Já vou Seu Flávio, ta na hora! Era essa a maneira de tratar o primo de sua mãe, bem mais velho que ele, além disso, ele achava que assim mostrava respeito, o que era verdade.

- Vai Jorginho, estudar pra ser doutor!

No dia seguinte no Liceu, entre uma aula e outra, o Raimundinho lhe diz que estava ansioso para voltar à Granja, pois quer ver a Delinha, sua namorada de já alguns meses. Delinha também morava no Barrocão e seu pai era um marceneiro que tivera uma pequena oficina, e que vivia hoje mais de bicos, o que mal dava para a comida. Esta era uma das razões pelas quais os dois queriam apressar um casamento que todo mundo tinha como certo. Eles se preocupavam e ela queria que ele pedisse um emprego ao Dr. Severino, o chefe político. Raimundinho não queria, mesmo porque não pretendia se enterrar na Granja. O que ele queria era se formar, em qualquer coisa, para poder melhorar sua vida e a dos seus incluindo a família da namorada, pois ele já a incluía na sua própria.

Jorginho ouve o amigo e, atento para os problemas de rejeição e de pobreza e de milhares de dificuldades dele, não consegue se desviar dos seus próprios problemas. Ele deixa de falar na sua paixão do momento, pois sabe que o intervalo está terminando e ele não vai ter tempo para falar com o amigo sobre a Corina como quer. Ele prefere falar sobre sua família que é considerada como sendo “de brancos” quando na realidade o seu antepassado “branco” está perdido entre ladrões de cavalos do século XVI que se amasiaram com nativas da terra. Antes de qualquer outra distinção, certamente artificial, o que lhe preocupa é a situação econômica de seu pai. Ele conta para o amigo que em sua própria casa todo mundo pensa que tem dinheiro, aliás, na Granja todos pensam que sua família nada em ouro e ele próprio sabe que não é verdade, seu pai morre de trabalhar e os lucros do seu negócio são poucos para muitas despesas. Raimundinho olha o amigo e diz simplesmente:

- Besteira rapaz, todo mundo lá na Granja sabe que tua família sempre foi uma das mais ricas, do mesmo jeito que a dos gêmeos, vocês fazem é choramingar sem razão.

Toca a sineta e eles vão assistir a mais uma aula de Francês do Prof. Albano querido de todos e que iria falar sobre Vercingetorix, o Bárbaro.

Na saída Raimundinho lembra ao amigo para se informar hoje mesmo sobre as passagens, se tem e quanto vai custar, pois ele vai ter de pedir um adiantamento ao Seu Pedão. Jorginho concorda e logo que termina a aula ele vai até a agência Rio da Cruz na Praça da Estação. Seu Edson, o dono, diz que não tem mais passagens para o sábado, só para o domingo. Jorginho decide que ele tem de comprar logo, pois, do contrário, nem no domingo eles vão poder ir. Ele pede as quatro para o domingo no carro das cinco horas.

– Eu posso debitar para seu pai, pois a gente tem negócios.

Jorginho pede para fazer uma ligação e fala com sua irmã; volta para Seu Edson e diz:

- Está certo Seu Edson, a Maria Isaura diz que o senhor pode fornecer as passagens.

Ele vai pra casa e sua irmã lhe diz:

- Olha Jorginho você precisa falar antes comigo, pois este negócio de apresentar o fato consumado não dá certo. Se eu não tivesse dado a ordem para a Raimunda fazer as camisas de vocês e ao Edson para adiantar as passagens, o que seria? Além do mais esses meninos não tem dinheiro para desembolsar com isso? Vocês vão me pagar, pelo menos as passagens.

Jorginho escuta e, como de costume, baixa a cabeça e não diz nada, vai esperar por outra reprimenda.

Sileno e Zelito vão até a mercearia do Seu Flávio encontrar Jorginho e ver se tudo vai bem do seu lado, pois do deles vai: eles já conseguiram, não dizem como, duas caixas de lança-perfume Colombina para cheirar e lançar nas meninas durante a festa. Jorginho se alegra, mas conta para os amigos que agora eles só vão no domingo, pois não tinha mais passagens para o sábado. Agora tem que dizer para o Raimundinho, na certa ele não vai gostar muito, pois vai diminuir de um dia o tempo que ele vai passar com a Delinha.

No dia seguinte, no Liceu, em um intervalo, Jorginho diz ao Raimundinho que está tudo certo, mas que agora só no domingo, pois Seu Edson não tinha passagens para o sábado.

- Merda, Jorginho, agora essa! Vou ter de avisar para a Delinha que só vou no domingo!

O amigo ficou chateado mesmo, como eles previam.

Na sexta-feira à noitinha estava tudo preparado: camisas e calças engomadas, sapatos lustrados, calções para banho no rio, e o que mais se quer, só faltava arrumar a mala que seria feita na hora. Cada um levaria uma pequena mala de couro com poucas roupas, pois demorariam pouco na Granja.

Nessa sexta Sileno e Zelito encontram Jorginho na Praça da Lagoinha para conversar um pouco sobre a viagem e o Carnaval. Todos estavam preocupados com o Raimundinho, pois tinham desconfiança que o Dr. Benito não o deixaria entrar no salão. Parece que estava havendo um movimento forte na Granja para se criar um clube, pois ninguém mais agüentava aquela sujeira das mijadas por trás do biombo e em cima dos presos, se bem que talvez esse não fosse o motivo principal, pois mijadas e sujeiras os acompanhariam em qualquer prédio por novo que fosse. O prédio, quase centenário, havia sido construído durante a seca de 77 - com braços de flagelados vindos do interior - e servia, na parte de baixo, como cadeia pública e a parte superior era o espaço onde se faziam as sessões da Câmara Municipal desde quando esta detinha o poder. Podia até ser que os presos tivessem reclamado tanto do mijo como do barulho em dias de festa e o Prefeito e o Presidente da Câmara tivessem decidido não mais ceder o espaço. Mas também podia haver um motivo político para isso. Nuvens escuras parecem estar se aproximando do cenário público. De qualquer modo dizem que o irmão dos gêmeos, o que é arquiteto, já havia sido sondado para fazer uma planta para a futura sede do Clube, era só uma questão de tempo, talvez esse fosse o último Carnaval na Câmara.

- Vem cá Jorginho, o que tem tudo isso a ver com o Raimundinho? Pergunta Sileno.
- Ora rapaz! Pode ser que os novos tempos, novo clube, possam servir para aumentar o “branqueamento do povo” como diria aquele autor.
- Mas que autor é esse Jorginho? Tu lê muito e não lembra?
- O que importa é que existe esse enorme preconceito lá: nem preto, nem “caboco”, nem pobre entra. Agora se você é remediado e empresta dinheiro para os graúdos...
- E o que a gente vai fazer? O Raimundinho mesmo anda preocupado...
- Ele não é besta gente! Ele só parece, ele ta sabendo do que o Dr. Benito é capaz, ainda mais quando ele é mandado...
- Ora Jorginho deixa isso pra lá, tu fala demais. Nós vamos, os quatro, e entramos como se não fosse nada. O teu pai e o nosso são sócios e a gente tem o direito de levar um convidado. E o Raimundinho já não foi a festas na Prefeitura?
- Ta certo, vamos arriscar...

Domingo bem cedinho os quatro se encontram, ainda com escuro, em frente à agência dos ônibus do Seu Edson, na Praça da Estação. Logo chega o ônibus, um Mercedes que ta ficando velho, mas ainda dá pra botar até o Camocim que é o fim da linha. O ônibus está lotado e já tem gente em pé, o que é proibido, mas não tem ninguém para impedir o excesso de lotação. Saem enfim e, naquela vagareza que impõe o Duda o chofer acostumado com a estrada, mas criado guiando um caminhão carregado de sacos de cera, chegam a Irauçuba. Quase todo mundo desce para comer paçoca, coalhada e tomar um café com queijo. O Raimundinho vinha com o estômago roncando de fome, pois em casa só tinha mesmo o café preto que sua mãe tinha passado. Os outros comem somente para engordar, pois tinham se alimentado suficientemente. Eles conversam um pouco e mostram excitação com a próxima chegada à Granja. Lá eles vão ver a sua terra, a terra de seus antepassados que eles gostam e respeitam, mas sentem um nó na garganta, todos eles, quando a vêem maltratada como agora. O Carnaval pode ser uma boa oportunidade para não lembrar muito dessas coisas. Vai ser festa e só festa.

- Não é Raimundinho? Pergunta Sileno com um olhar de aprovação dos outros.

Raimundinho diz:

- É mesmo. Eu vou é me divertir com a Delinha. E tu Jorginho vai mesmo procurar a Corina? E os dois marinheiros vão continuar com a Lúcia e a Adília?

Os três só sorriram, pois seus namoros com as meninas estavam longe de serem mesmo verdadeiros; para Jorginho seu namoro com Corina parecia ser questão de coragem que sempre lhe faltava; para Sileno e Zelito na certa não haveria problemas, pois eles sabiam que as meninas estavam caidinhas por eles. Enfim, todos esperavam um Carnaval de sucesso, a não ser pelo problema que eles antecipavam para o Raimundinho e conseqüentemente para todos eles.

Chegaram à Granja às cinco horas da tarde e cada um foi para sua casa. Para contrariedade de todos eles não viram nenhuma das meninas quando o Duda parou em frente ao armazém do Quiquito que fazia às vezes de rodoviária, pois não havia esse serviço na cidade e todos sabiam que não haveria por muitos anos a frente.

De longe ele vê seu Tio Pintor sentado em um banquinho no chão batido em frente de casa e, como sempre, fumando seu cigarrinho. Ao chegar, Raimundinho pede a benção e senta ao seu lado para dar as notícias dos pais e dos seus que ficaram na Capital. Os dois se entendem bem, pois o tio é dessas pessoas que dá muita atenção a gente jovem e gosta de contar coisas que aconteceram com ele e seus parentes. Quando chega a Tia ele começa a perguntar sobre a Delinha e sua família. Tem boas notícias, pois, diz a Tia:

- A menina ta cada vez mais bonita. E eu acho que ela ta mesmo esperando pra casar com você. O Tio diz:

- A gente gosta muito dela, é de família boa e parece que trabalha muito. Vai ser um casamento que vai dar certo!

- E ela vem sempre aqui, ver vocês?

- Vem e ela gosta de ouvir as coisas que eu digo. Traz histórias da rua pra contar pra gente.

- E o pai dela? Vocês se dão, não é?

- É verdade o Velho é boa gente, mas só bebe uma cachacinha todo dia com os amigos no Bar do Tata. Mas quem não bebe... Só eu...

A Tia olha pro marido e dá um rizinho, mas diz:

- Filho entra para arrumar tuas coisas e se lavar para a gente tomar um café. Na certa você quer ir logo na casa da Delinha, não é?

Raimundinho e a Tia entram e ele põe sua sacola na sala aonde vai dormir. Vai “lá fora” e lava o rosto na bacia da cozinha. Os três sentam-se à mesa na cozinha onde estão as xícaras para o café, pois ele trouxe um quilo da capital, presente de sua mãe. Após mais um dedo de conversa Raimundinho troca de roupa, põe um pouco de Leite de Rosas debaixo dos braços e vai até a casa da Delinha que fica na rua de trás, que também, como a de seus tios não tem nome, pois rua de cunha e “caboco” não tem. Ele espera passar essa primeira noite com a namorada, mas certamente vai ter de dar uma palavrinha com Seu Raimundo. Ao chegar, como ele já era esperado, todos estão à janela e saem para recebê-lo:

- Boa noite Seu Raimundo, boa noite Dona Isolda, diz ele encabulado, olhando para a namorada que está na soleira da porta, olhando para ele embevecida.

- Delinha, como ta você?

Ela nem responde, mas vai logo arrumando os banquinhos de madeira em frente a casa para todos sentarem. Dona Isolda logo pergunta ao menino:

- Raimundinho como tão os seus? Sua Mãe ta boa?

- Todos estão bem e mandam lembranças, mas continuam a ter saudades das vezes que vêm aqui.

- E os estudos Raimundinho? Pergunta Seu Pintor.
- Vou bem nos estudos e trabalhando muito na merendeira do Seu Pedão. Parece que ele está gostando do meu serviço, pois até me arranjou um dinheiro adiantado para eu viajar.

A conversa vai de noite adentro os da Granja querendo notícias dos de Fortaleza e Raimundinho sem tirar os olhos de Delinha, com vontade de ficar só com ela, para ver se os dois ainda sentiam as mesmas coisas que sentiram da última vez que se viram e se tocaram. Os assuntos nessa noite vão morrendo entre eles e finalmente o Raimundinho convida a Delinha para dar uma voltinha na “Venida”. Ela olha alternadamente para o pai e para mãe e vê que eles dão assentimento. Levanta-se do banquinho, passa a mão na saia e saem os dois. Quando dobram a esquina ele logo tira um pacotinho do bolso: é o presente que ele trouxe pra namorada, um batom, bem vermelho. Ela fixa os olhos nos seus e sorri agradecida:

- Obrigado, Raimundinho.

Eles dão-se as mãos e caminham até a “Venida” com sorrisos de satisfação. Nessa noite Raimundinho diz à namorada que não vai querer trabalhar na Granja, de jeito nenhum; não vai se sujeitar a essa situação em que se encontra o povo da cidade. Ele prefere qualquer emprego na Capital e depois se formar. Qualquer emprego que lhe dê tempo de estudar. Ela concorda e fica olhando pro seu caboclinho com muita ternura e diz que já pode muito bem ajudar, pois na casa da Dona Zefinha ela já ta aprendendo mais do que varrer a casa e passar ferro na roupa, a filha dela está ensinando ela a cozinhar. Raimundinho sorri e tem vontade de perguntar se Dona Zefinha e a filha esperam que a Delinha vá passar o resto de sua vida lá. Eles se olham ternamente e se acariciam. Permitem-se um beijo na face que passa rapidamente, depois de olhares vigilantes, a quentes beijos que lhes queimam os lábios e as línguas. Eles param por aí, pois decidem que se forem mais adiante, nada os controlará. Voltam para casa onde os pais de sua namorada estavam à sua espera.

Enquanto o Raimundinho está namorando na “Venida” Jorginho passa em frente à casa de sua paixão, pois era assim que os amigos falavam das meninas com quem ele dizia que queria namorar. A Corina era uma garota um pouco mais velha que ele e não lhe dava muita bola, talvez fosse por isso que ela o atraísse. Nessa noite ele conseguiu falar com ela na janela de sua casa. Ela estava com os cabelos cada vez mais louros e lisos, mas estava também bem mais bonita do que sempre fora, ou seriam seus olhos, pensou Jorginho. Ele teve coragem e lhe perguntou:

- Você vai na festa da terça?
- Vou e você?

- Eu vou também e já estou pensando que a gente podia dançar...

- Dançar no Carnaval, Jorginho? A gente faz é pular até cair de cansada. Mas eu lhe prometo que a gente vai pular bem juntinho, o mais juntinho que o Seu Pedro deixar. Estão dizendo que ele vai vigiar todo mundo na festa. Coitado dele, eu vou enganar o tempo todo. Você topa? Se não...

- Se não o que Corina?

- Deixa pra lá Jorginho, depois que você chegou eu só tou pensando em você...

Jorginho tremeu e soube ali que não iria dormir sossegado essa noite.

Na segunda-feira os quatro amigos se encontram na Barragem que ainda escorre um pouco de água e dá para se tomar um banho sem muito sobrosso. A sujeira velha foi lavada e a nova ainda é pouca. Eles passam um tempão jogando cangapé e chupando remela que tem muito na beira do rio. Do local em que eles estão dá para ver as lavadeiras em sua lida com a roupa, ora batendo, ora esfregando sabão, ora pondo pra quarar sobre as pedras. O que chama a atenção de todos eles é exuberância dos seios das “índias” - assim dizia um dos primos sulistas dos gêmeos -, sem que estivesse totalmente errado, expostos sem nenhum falso pudor para todos que os quisessem ver.

Depois do banho e do almoço eles, novamente reunidos, foram “pernar” pelos bares e bodegas, reconhecendo e tirando prosa com antigos colegas do Grupo e amigos mais velhos. Andaram pelos bares do Santino, do Seu Pedro e outros na Praça do Mercado. No do Seu Pedro chega perto o filho do Seu Paulino, bem mais velho do que eles, e pergunta:

- Vocês vão pra festa amanhã na Prefeitura? Todos responderam:

- Vamos!

- Até tu Raimundinho?

- Até ele mesmo! Respondeu o Sileno, antecipando-se ao amigo, tendo os outros feito sinal de concordarem.

- Então é isso aí, a gente se vê na festa.

Andaram mais um pouco e combinaram que no outro dia iriam até a Lagoa Grande para ver as obras de alongamento da parede. Parece também que alguém estava fazendo uma obra no meio da Lagoa e eles queriam ver.

À noite os gêmeos e Jorginho foram passear na “Venida” e ver se as meninas apareciam por lá, pois não havia festa na segunda-feira e assim as chances seriam grandes. Quando eles se encontraram perto do Cruzeiro da Igreja eles olham para todos os lados e, vêm que, das três, somente Lúcia e Adília estão passeando de braços dados. Corina não está e Jorginho fica decepcionado. Ele pensa “o que será que ela está aprontando?”. E fica imaginando milhares de coisas. Enfim... Ele volta para sua casa e os gêmeos vão passear com suas namoradas e certamente acertar alguns detalhes da festa de terça.

Quando Jorginho chega em casa vê que seu pai ainda está lendo os jornais no quarto, deitado em sua rede. O velho, quando ouve os passos do filho, chama-o:

- Vem cá, Jorginho...

- O que é Papai?

Seu pai entra logo no assunto que está lhe preocupando:

- Meu filho você acha que o seu amigo, o Raimundinho, deve mesmo ir para a festa de amanhã?

Jorginho fica surpreso e pergunta:

- Porque Papai? Tem algum problema com ele?

- O Seu Paulino me pediu para falar com você e dizer que o Raimundinho não pode entrar na Prefeitura, amanhã, para a festa...

- Porque Papai? Que história é essa?

- Ele me disse simplesmente que é porque ele é de segunda, caboclo, e eles estão fazendo uma seleção na sociedade. Ninguém sem a aprovação do Presidente nem da Diretora vai entrar. Ele justifica isso porque pretendem construir a sede do clube e assim a sociedade já estará purificada quando ela for inaugurada.

Do alto de seus dezoito anos incompletos, Jorginho diz:

- Papai, que estupidez! E você, o que disse?

- O que você acha? Eu disse que estava parecendo a Alemanha Nazista, com suas leis raciais! Mas ele disse que o pessoal do clube estava irredutível.

Jorginho baixou a cabeça para que seu pai não visse seus olhos úmidos e disse:

- Boa noite Papai, até amanhã. Saiu e foi sentar-se na sala com um livro entre as mãos e pensando em soltar as rédeas de seus demônios íntimos...

Logo pela manhã cedo Jorginho foi até a casa dos gêmeos chama-los para o passeio até a Lagoa Grande. Foram os dois aparecendo e ele contou o que seu pai havia lhe dito na noite anterior. Os meninos ficaram horrorizados e preocupados com o amigo, como ele receberia a notícia. Os três foram logo até ao Barrocão encontrar o Raimundinho. Ele estava na casa da Delinha conversando com Seu Raimundo. Como sempre, o velho estava contando histórias antigas, dos tempos das secas, que foram muitas e cruéis. Os amigos não quiseram interromper mesmo porque eles também gostavam de ouvir histórias da Granja antiga e Seu Raimundo era um mestre nelas. Eles se abancaram e o velho continuou a história sem antes lhes por a par do essencial.
Ele dizia que seu bisavô tinha vindo do sertão da Palma, com toda a família, pois lá tava ruim mesmo. Ele era marceneiro na Malhada Vermelha e quando chegou arranjou um bico, que é como se chama hoje, nas obras da construção da Câmara Nova e do Mercado. Ele era um marceneiro fino e fazia móveis, portas e muitas outras coisas. Um dia o Chefão pediu-lhe para fazer um molde das letras e nomes que iam ficar, em alto relevo, por cima das janelas da Cadeia; deu um trabalho danado, mas ele dizia que aquele de que mais gostou de ter feito foi o daquelas letras que ficam por trás da Cadeia: “ERAS FATAES! DE 6 DE NOVEMBRO DE 1877 A 25 DE JULHO DE 1878”. Ficou bonito, ainda hoje a gente pode ver lá. Os outros eram só os nomes dos Coronéis do tempo.

Quando o velho deu por terminada a conversa os três amigos de Raimundinho se entreolharam e, demonstrando respeito, se despediram chamando o amigo para o passeio na Lagoa Grande. Já nas proximidades eles passaram por uma infinidade de casebres levantados à beira dagua e que tinham uma pobreza tão grande ou maior que os do Barrocão: eram casas de taipa, algumas com a frente de tijolos e pintadas de cores vivas. Parece que as cores pretendiam esconder o que havia de miséria. Os quatro amigos foram caminhando pela margem e logo estavam sobre o aterro da parte leste da Lagoa. Aí eles encontraram um cavaleiro dando banho em seu cavalo e algumas crianças dividindo a água com patos e porcos. Jorginho lembra de ter vindo, ainda bem pixote, acompanhando o Flávio e outros, a uma caçada de marrecas. É verdade que ele não deu nenhum tiro, mas divertiu-se bastante com as mentiras contadas pelos amigos; o seu primo, então, era mestre nesse ofício. Eles estavam agora deslumbrados com a grandeza da Lagoa quando Raimundinho chamou atenção dos outros para uma construção que se erguia bem no centro da Lagoa.

- O que é aquilo, vocês estão vendo?

Nenhum dos outros também sabia o que era aquela estrovenga. Eles chamam o homem que estava dando banho no cavalo e lhe perguntam se sabe o que é aquilo, ali no meio da Lagoa. O “caboco” coça a cabeça, como que relutando, mas fala:

- Dizem que aquilo é o “masolé” do Dr. Severino, mas eu num sei não, pode ser outra coisa.

- E o que diabo é “masolé”, homem?

- Parece que é pra quando ele morrer ser enterrado aí.

- Ahn! V'ambora, disse o Raimundinho e os outros concordaram.

Eles se despediram na Praça do Mercado e combinaram um encontro no bar do CH antes de irem para a Câmara. Foram os quatro para suas casas. Raimundinho foi conversar com Delinha e decidir com a namorada o que fazer: se ia ou não pra a festa. Ele já sabia que ela nem tentar queria, pois sabia que ninguém iria concordar com ela, empregada da Dona Zefinha na festa dos brancos. Nem se falava nisso. Depois de alguma pouca conversa Raimundinho concorda com ela que ele também não deve ir. Mas ele vai no sereno ver o povo que vai entrar para ver se tem alguém de segunda com coragem para subir as escadas. Além dos garçons, músicos e mais gente que ia servir.

Lá pelas nove da noite os dois foram e ficaram em pé na calçada do Grupo. Ele tinha avisado aos outros que não iria e, apesar dos protestos, ele tinha notado certo ar de alívio no semblante dos amigos. É isso aí, pensou ele, não tem jeito não, quem nasceu pra cangalha, não dá para sela mesmo.

Quando os amigos chegaram para a festa, lá pelas dez horas, eles foram até onde o casal estava para um dedo de prosa. Foi aí que o Raimundinho notou que todos três já haviam bebido mais da conta, mas ainda podiam subir os dois lances da escada...

E foi o que eles fizeram ao som de uma marchinha cujos acordes se perderam no tempo... Chegando ao salão, já completamente lotado, eles descobriram cada um suas parceiras. A Corina estava com uma saia bem curtinha e um decote generoso que incitava o Jorginho a ter idéias profundas sobre a anatomia das garotas. Lúcia e Adília vestiam fantasias bem comportadas o que deixava os gêmeos meio desanimados, mas pensaram eles, vamos o ver o que acontece com o desenrolar da festa. Após uns quinze minutos de rodopios e pulos cada vez mais exagerados, os três jovens pares, ébrios do lança perfume distribuído pelo Sileno – ele deu uma bisnaga para cada uma das meninas – estão animadíssimos. Em uma volta do salão enorme se aproxima deles o Seu Paulino e fala, com sua voz mansa:

- Meninos venham cá, as meninas podem ficar. E vai para perto do biombo do mijador. Os três o seguem, já esperando alguma coisa estranha.

- Vocês não podem pular o Carnaval desse jeito.

- Mas de que jeito Seu Paulino? Respondeu Jorginho pelos três, imaginando que fosse por causa do lança perfume.

- Todo mundo usa seu Paulino. Disseram os gêmeos.

- Num tem nada disso. Vocês não podem entrar no salão e nem dançar com essas camisas, - elas são de manga curta. O Dr. Benito e a Dona Arilda proibiram a entrada de qualquer pessoa vestindo mangas de camisa. Não pode e vocês vão ter de sair.

- Mas, Seu Paulino, nós viemos de Fortaleza só para pular o Carnaval aqui e vocês vêm com uma dessas! Não é justo...

- Olha os pais de vocês estão sabendo disso e é ponto final. Vamos descer. Eu levo vocês até o corrimão da escada. Vamos.

Os três se entreolharam e olharam para as ampolas de lança perfume e acompanharam Seu Paulo até a saída. Ao chegaram perto do corrimão onde se agrupavam muitos amigos do mesmo tempo do grupo e algumas meninas, inclusive suas namoradas eles levantaram as mãos com as bisnagas e as arremessaram ao chão fazendo um barulho como se fosse uma tremenda explosão. Todos os circunstantes se entreolharam, mas não disseram coisa alguma, certamente com receio de uma possível repressão pelo Seu Paulino e pelo Dr. Benito que havia se aproximado para ver o desfecho da obra que ele comandara de longe.

Os três desceram os dois lances da escada atropelando muitos dos que estavam subindo fulos, mas sem nada poderem fazer. Era essa a "lei" do Dr. Benito e de Dona Arilda e do Clube deles. Logo ao descer eles viram o Raimundinho que, nesta altura, estava sozinho, parece que a Delinha já havia ido embora com suas amigas. Ele aproximou-se dos três e soube da expulsão. Os quatro, agora indignados, mas principalmente muito tristes, comentam com sua experiência limitada, como sua querida cidade, sem sair da escuridão dos séculos passados estava mergulhando na escuridão complementar deste meio século. Com um conformismo que não foi compartilhado por Raimundinho eles dizem:

- Felizmente vamos voltar logo!

Raimundinho diz:

- Jorginho, vamos amanhã no ônibus das oito?

O amigo responde:

- Vamos, mas...

- Mas o que rapaz?

- Vamos dar uma voltinha agora? Vamos meninos?

Sileno e Zelito respondem que não, pois vão viajar bem cedo para a California com o Coronel que havia chegado a pouco de Sobral. Eles então se despedem e saem pra Rua do Riachão onde moram.

Raimundinho e Jorginho seguem em direção à Rua da Loca e, perto, na rua de trás, eles vêm o Renato sentado na beira da calçada. Jorginho diz:

- Ô Renato eu ainda não tinha visto você. Como está?

- Tudo bem amigo. Vou bem mesmo.

Aí Raimundinho diz:

- Olá nego rei Renato tu não foi ver a festa do Carnaval?

Renato retruca, rindo:

Ora Raimundinho em festa de branco nem no sereno eu vou...

Sem ter o que dizer os dois continuam em seu passinho na direção já determinada. Bem na esquina com a Rua Lívio Barreto está o cabaré da Chica Eliana e eles, olhando de um lado pra outro, dão como que um pulo e logo se acham no meio do salão iluminado, mas com zonas bem sombreadas. Tomam uma mesa mais ou menos na penumbra, pedem duas doses de gim com gelo e ficam observando as garotas que se oferecem em mesas. Daí a pouco Jorginho diz para Raimundinho:

- Será que aquela moreninha ali sozinha é também...

- Que é isso rapaz! Que diabo ela faz aqui se ela não é da casa? Tu quer ir com ela?

Jorginho assentiu com a cabeça e daí a pouco a Izinha, pois este era o nome da mocinha que estava com eles. Ela não era mais do que uma menina de seus vinte e poucos anos. Era bem bonita com uma pele de cobre brilhante e olhos bem repuxados, como se fosse uma indiazinha que tivesse saltado de uma gravura de Debret. Jorginho ficou entusiasmado e logo estava perguntando, sob o olhar crítico de Raimundinho, de onde ela tinha vindo e mais besteiras. Izinha parecia divertir-se com as perguntas infantis daquele meninão nervoso. Ela bebia um pouco de cerveja quente e, quando terminou o copo pediu um outro, no que foi prontamente atendida. Raimundinho já estava se cansando daquela conversa a dois e decidiu ir embora.

- Pois ta bem Jorginho, amanhã a gente se encontra no ônibus, as oito, hein? E olhando para Izinha lhe dá adeus.

- E agora? Perguntou Jorginho a Izinha.
- Agora, seu bobo. Agora é cum nóis. Vamo.

E saiu puxando sua presa pelo braço até o quartinho e uma rede que recendia a humores presentes e passados.


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