Monday, October 31, 2011

NOVAMENTE JORGE RAPOSO 1


JORGE RAPOSO E ELLA


Caminhando pelas ruas antigas, esburacadas e enlameadas de sua velha cidade Jorge se acostumara – talvez um hábito trazido do berço – a cumprimentar as pessoas com quem cruzava no caminho e aquelas que, sentadas em suas calçadas em cadeiras ou banquinhos desconfortáveis o viam, com curiosidade, passar à sua frente. Todos os dias cedo pela manhã ou ao rápido cair da noite ele fazia trajetos variados e invariavelmente distribuía simples cumprimentos. Aquele bodegueiro quase cego, a quem ele implorava ir fazer uma operação de catarata, mas que não se atrevia por medo de perder o pouco da visão que ainda tinha; aquela senhora idosa de feições escavadas, mas que sorri ao ouvir o cumprimento do até então desconhecido; aquele grupo de jovens rebeldes que, a princípio glosavam de seu “boa tarde”, mas sendo convencidos de que somente uma simples resposta é suficiente para fazê-los a todos sorrir e seguir em frente; ou mesmo aquela senhora recém saída de um banho e, certamente, perfumada à espera do marido, e que não lhe devolvia a saudação. (...)

Após anos dessa prática Jorge acostumara-se com a reação das pessoas e imaginava ter feito amigos através dessas simples demonstrações de bons costumes. Adiante-se que ele acreditava ter sido uma pessoa, um velho de mais de setenta anos, apoiado em um cajado de jucá, não por que necessitasse de apoio, mas para proteção contra os cães que são muitos e afoitos, ele acreditava não provocar mágoas ou ressentimentos em ninguém, até o contrário parecia acontecer. Ele raramente fizera amizades com essas pessoas a quem cumprimentava, mas quando fazia elas foram duradouras. Até por concordar com um senhor, ainda jovem, que lhe repetia sempre que ele Jorge não necessitava de bengalas ele resolveu arriscar e se aventurar a caminhar nas ruas sem esse auxílio. O resultado é que dito senhor exultou quando o viu de longe andando sem seu cacete de jucá e comemorou aos gritos: - Eu não disse que você não precisava daquela bengala! Bem que Jorge precisava, pois logo adiante na caminhada ele encontraria um cão feroz que partiu para cima dele e o arranhou com as garras.

Este hábito de caminhar havia dado a Jorge certa camaradagem com muitas das pessoas da cidadezinha infeliz. Ele dissera que se achava integrado à comunidade, principalmente aquela dos bairros mais pobres e miseráveis. Ele havia se acostumado a visitar logo cedo, assim pelas seis horas, o bar do Tutu. La ele sempre encontrara uma turma de madrugadores ou notívagos que se divertiam conversando ao redor de copos de cerveja ou de cachaça. À falta de convite nunca foi impedimento para ele participar dessas rodadas que, deviam varar quase a manhã toda. Outra pessoa que o atendia bem, logo de manhã cedo era o senhor não muito mais velho que ele e que o reconhecia pelo andar e pelo odor, pois era completamente cego. Conversavam por uns bons quinze minutos, ele, lembrando ter trabalhado no velho Armazém de seu pai e este a procurar lembrar-se da figura que não lhe viria à memória.

Jorge havia desenvolvido ou mesmo criara uma paixão pelos antigos casarões que ainda restavam na cidade. Havia um, em particular, que havia resistido incólume ao assalto de especuladores imobiliários e que o atraíra. Reunindo algum dinheiro de heranças e tomando emprestado mais algum Jorge decidira adquirir o tal casarão que se situava na Rua de Santo Antônio e poderia ser reformado para abrigar um velho que apreciava um tipo particular de arquitetura representativo na cidade. O novo proprietário tão logo tomou posse da casa mandou passar uma mão de cal e se instalou nos primeiros cômodos, pois somente os quartos da frente estavam em condições de serem habitados. Jorge contratou uma empregada, a Ritinha, para cuidar de sua comida e sua roupa e fez logo nos primeiros dias o que havia pretendido desde quando decidiu comprar a casa: colocar uma cadeira na calçada e ficar sentado todas as tardes até altas horas da noite a espera dos cumprimentos das pessoas que certamente passariam em frente e o saudariam. Ele responderia satisfeito e se sentiria integrado à vida pacata da cidade em decadência. Como ele?

Com o passar dos dias Jorge começou a sentir-se cansado. Não sabia a que atribuir esse estado, mas certamente imaginou que Ella rondava por sobre a cidadezinha e talvez tivesse planos para ele. Jorge nunca dera muita importância às suas investidas e ameaças e esperava que tudo não passasse de sua imaginação que era fértil. Acontece que durante uma de suas caminhadas ao por do sol ele sentira a aproximação de um grande pássaro branco que, certamente, somente ele vira. Isto foi no Alto dos Pescadores, mas de novo ele não deu importância e foi para sua casa na Rua de Santo Antonio. Passaram-se alguns dias e sentado em sua cadeira na calçada, recebendo os cumprimentos dos vizinhos que já estavam acostumados com ele Jorge viu nitidamente a aproximação do grande pássaro branco que encarnava Ella. Ella sobrevoou a rua em frente ao seu sobrado e ficou adejando sobre sua cabeça. O grande pássaro deixou de voar e ficou batendo lentamente as grandes asas e falou: - Jorge Raposo chegou a hora de vir comigo. Você está nitidamente cansado e merece um repouso que, eu lhe garanto, será gratificante. Você trabalhou muito, e é certo que não teve muitos amores, mas isso não tem importância para onde você vai. O que é importante nessa parte do Universo é a tranqüilidade de trabalhar para o bem da humanidade, nem que seja só para aquela ínfima parte que sempre acreditou em você. Creia que se você tiver sucesso uma nova oportunidade lhe será dada e você poderá voltar e refazer sua vida, ou melhor, um resto de vida que lhe será atribuído por nós.

Após essas palavras Ella estendeu mais ainda as asas e ofereceu a direita a Jorge que a tomou e, com um volteio elegante Ella subiu, levando-o e passando em frente da lua cheia desaparecendo.

É importante notar que ninguém na cidadezinha de ruas antigas, esburacadas e enlameadas notou a ausência de Jorge Raposo.

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Sunday, October 30, 2011

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 246


MEMÓRIAS DO CÁRCERE

Elenice foi ao cinema com Dona Raimundinha, sua avó. Foram ver um filme que todo mundo recomendava, um filme político, “Memórias do Cárcere”. A certa altura há no filme uma cena de sexo solitário que, choca a vovozinha. Ela dá um gritinho: - Oh! Imediatamente os outros espectadores se viram em sua direção e ela, mais que depressa diz para a netinha: - Minha filha olha também para trás!


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Wednesday, October 26, 2011

GRANJA - CENA DE RUA 20




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Tuesday, October 25, 2011

AFORISMOS, APOTEGMAS, MÁXIMAS


"As mulheres foram feitas para serem amadas, e não para serem compreendidas."
Oscar Wilde (1854 – 1900)


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Monday, October 24, 2011

A VOLTA DE JORGE RAPOSO


(ESTA MORADA BEM PODERIA TER SIDO A DOS RAPOSO NA MALHADINHA)

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO


A partir da próxima semana este blog voltará a ser visitado por Jorge Raposo, personagem da Ribeira, que teve grande influência na formação do autor das histórias contadas aqui.

Jorge Raposo, descendente de ameríndios, negros e, principalmente, de europeus (ibéricos, sefarditas, mediterrâneos e outros) e de povos do Oriente Médio é um modelo pobre do mosaico genético do Nordeste do Brasil. Seus antepassados chegaram ao país no início da colonização formando, devido à miscigenação, uma única e solidária população.

As pequenas histórias que serão contadas aqui - às terças-feiras - não são verdadeiras, mas foram criadas tendo por base a vivência de seu autor e relatos de outros ouvidos por ele ao longo de sua vida.

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Sunday, October 23, 2011

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 245


UM SONHO ASSIM

Ricardo estava em um taxi em São Paulo com outras pessoas e seguiam pela Consolação. Quase em frente ao prédio de um cinema alguém pede ao motorista para parar. Todos notam que alguns operários tiravam placas velhas na fachada do prédio, certamente para limpá-las. Quando as pessoas desceram Ricardo pediu ao motorista para continuar, ele queria descer um pouco mais adiante, na Rua Piaui, pois iria até a casa de seu irmão. – Ah é o Inácio? Após o susto Ricardo olhou para ele e perguntou. – É verdade, como o senhor sabe? – Eu sei, pois a filha do Grego, no dia 27 vai receber um rádio, um gravador, uma coisa assim... Você ta sabendo? – Como é que você sabe? Você é da Bahia? – Não, mas sei, pois alguém me contou. O camarada tinha cara de português.


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