Sunday, August 09, 2009

CONTOS DA RIBEIRA (3)

Sob esse título postarei, semanalmente, um pequeno conto ou historia baseados em fatos e acontecimentos supostamente passados, em diferentes épocas, na região da Ribeira. Alguma semelhança com fatos reais é simples coincidência

COQUINHO DE MACACO

Todos das proximidades achavam estranho o comportamento dos habitantes da Ribeira. Eles se diferenciavam em todas as atividades que praticavam: eram bons lavradores, criadores, falavam bem, liam e escreviam corretamente, exerciam as diversas profissões necessárias ao bom viver de uma aldeia, gostavam e praticavam música, poesia e por aí vai. Seus vizinhos e eles próprios acreditavam que essas qualidades – na época essas atividades eram julgadas como de grande valor – eram devidas a algo em sua dieta e que ninguém ousava discutir o que fosse. (...)

Particularmente e entre eles desconfiava-se que isso fosse devido ao uso de uma palmeira, mais especificamente, ao uso de seu fruto. A planta foi descoberta por Martius em uma de suas viagens e a ela ele deu o nome de Copernicia macaca por se parecer muito com a Copernicia cerifera (carnaubeira) e também por serem seus frutos muito apreciados por um tipo de macaco da região. Ele também comprovou, através de suas inúmeras viagens, que a palmeira era endêmica de uma micro região que correspondia a poucos quilômetros quadrados da Ribeira; isso significava que o número de exemplares da planta era muito limitado. Além do mais, a palmeira produzia poucos frutos, pois somente um cacho com cerca de 50-100 coquinhos era produzido a cada ano. Martius, em suas observações, notou que alguns dos macacos que se alimentavam dos frutos, comendo não só a polpa, mas também quebrando o coco e se alimentando da parte interna, o embrião, eram mais desenvolvidos e pareciam ter domínio sobre seus companheiros. O cientista alemão notou ainda que cabras e o gado vacum tinham também comportamento diferente quando se alimentavam dos frutos, isto é, aqueles que comiam o embrião pareciam dominar seus companheiros que só se alimentavam da polpa. Parece datar de bem antes da descoberta de Martius a utilização dos frutos dessa palmeira na alimentação do povo da Ribeira e aí, acredita-se, estava a razão do comportamento diferenciado que seus vizinhos notavam neles. Contam os antigos que foi um caboclo da terra que fez a descoberta. Ele, no meio de uma população apática, castigada pelas secas periódicas e pela tirania de um coronel escravocrata, descobriu que dentro do coquinho havia alguma coisa de diferente. Ao observar os gados que comiam o coquinho e também o interior do mesmo - o embrião – notou esse comportamento diferenciado que se apresentava pelo fato de guiarem, de dominarem seus companheiros do rebanho, ele resolveu afoitamente experimentar em si e dar para sua família e viu que isto era bom. Ele passou a ter mais forças, mais poder de decisão, passou a apreciar o canto dos pássaros, e gostar de ouvir e contar histórias para os seus filhos. Ele resolveu aprender a escrever e a contar e ensinou à sua mulher e aos seus filhos as artes da escrita e da leitura. Chegou mesmo a aprender a tocar berimbau. Essa história correu célere na Ribeira e daí foi um passo para todos os habitantes do lugar e das proximidades mais próximas utilizarem o coquinho e o seu embrião para sua própria alimentação. E essa “coisa diferente” que se encontrava no embrião era uma macinha cinzenta muito gostosa e que parece nutria as pessoas que a comiam, não só de proteínas, carboidratos, mas de outras substâncias e de muita gordura (não trans), além de estruturas não bem reconhecidas. Essas somente dezenas de anos mais tarde, neuro cientistas alemães especializados descobriram ser algo semelhante a neurônios animais. O mais interessante é que ficou demonstrado serem esses neurônios incorporados ao tecido cerebral de quem ingeria a tal massinha cinzenta. Talvez estivesse nesse fato único a explicação para o alto grau de desenvolvimento intelectual da população. Bem menos de um século depois da descoberta dos efeitos do coquinho da Copernicia macaca no comportamento humano e sob o domínio do Oligarca Maior as populações vizinhas e depois as da própria Ribeira notaram que os seus efeitos estavam diminuindo consideravelmente. Primeiro aconteceu com os mais velhos: eles perderam o interesse por tudo de bom que tinham eles próprios desenvolvido, como o gosto pela música e pela poesia. Seguiram-se logo outros grupos que abandonaram as escolas noturnas e os cinemas. Os jornais diários e os semanais logo seguiram o caminho do olvido. Muito rapidamente o comportamento da população voltou aos níveis de quando o primeiro caboclo experimentou o embrião do coquinho da Copernicia macaca. Estudos nutricionais demonstraram que o consumo do coquinho da palmeira milagrosa pela população havia diminuído extraordinariamente e isto mostrava que o número de palmeiras estava diminuindo rapidamente e que a extinção da espécie era iminente. Estes estudos, complementados por estudos de botânica aplicada, mostraram que a extinção estava sendo causada pelo uso excessivo do coquinho na produção de gordura usada na produção de velas. Não se tem notícia de que qualquer medida esteja sendo tomada para reverter este horrível quadro.

1 comment:

Blogue Granja Ceará said...

Carissimo
prof. e contistas
o conto está em harmonia com a realidade da cidade de Tauzim. Não sei se o nobre autor conhece a estoria de Tauzim.

A profundidade critica do texto muito boa.

Sugiro reflorestamento da copernicia macaca, urgentíssimo.