Monday, August 31, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 68


DEVANEIO

Estavam todos reunidos no pátio da Universidade para ouvir o Homem. Ele falou por mais de uma hora e depois as pessoas ficaram por ali conversando. Subitamente ele me chamou e disse que Carlito e o Zeferino são os que estavam atrapalhando as coisas. Mas aí ele disse: - Eu tenho uns pranos prá ajudar a Universidade. Faria isso e aquilo e mais aquilo outro e construiria sobre aquele terreno de brejo que ficaria duro como um cimento. Nisso ele bate numa chapa de cimento (toc, toc) para mostrar como ia ficar a obra: forte como quê. Então ele disse: - Agora eu quero que você se encarregue de por esse negóço prá funcionar. Não me lembro o que respondi, mas ele chegou até mim, bem perto mesmo – eu senti cheiro de cana - e me abraçou dizendo: - Agora rai. Eu passei a achar que essa seria uma ótima oportunidade de alguma coisa para me ocupar na aposentadoria sem precisar voltar para o sertão. Quando estou nesse devaneio aparece ao meu lado o Zeferino e balança a cabeça, entre estupefato e incrédulo...

(Fotografia Raul Touzon)

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Sunday, August 30, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 139



CACHORRO DOIDO

“Zerantonio cachorro doido não compre carne de porco”
foi assim que o Coronel leu o telegrama chegado do Açude e enviado por seu padrinho, ele mesmo um Coronel. Como ele não entendeu o significado do texto pediu a seu compadre Charriel que lhe explicasse. O compadre, - sabido que só ele, sugeriu que o seu padrinho, lá do Açude, estava prevenindo ao afilhado que não comprasse da carne do porco que havia morrido da mordida de um cão hidrófobo e enviada para o açougue do Chico Mende.

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HISTÓRIAS DA BIOQUÍMICA NO CEARÁ


Devido a problemas de administração o acesso ao site José Xavier Filho (http://www.jxavierfilho.hpg.com.br/ ) hospedado no portal hpG está bloqueado. Sendo assim, o download dos textos dos livros HISTÓRIAS DA BIOQUÍMICA NO CEARÁ e ACEITES E REJEIÇÕES tornou-se impraticável.

Com relação ao primeiro texto, HISTÓRIAS DA BIOQUÍMICA NO CEARÁ, o autor está providenciando sua publicação em outro site, o que será anunciado oportunamente. No entanto, para interessados, pode-se providenciar a remessa se for solicitada ao autor no endereço
jxavierfilho@yahoo.com.br.

Em 30/8/2009

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Saturday, August 29, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 6


ÁGUA DE LURDES


Margarida havia chegado à noitinha de Fortaleza, ela vinha de sua terceira viagem à Europa fazendo parte do grupo do Padre Misael, da Paróquia de São Bento. Esse amigo professor dos tempos do colégio gostava de organizar grupos de viagem e ela tinha se associado a um deles. Era uma turma boa com muitas ex-colegas e rapazes amigos da Capital. Ela sempre conseguia alguns dias de folga na Coletoria com o Seu Quintino, amigo de seus pais e também dela. Fazia poucos anos que seu pai conseguira essa colocação, a única que seu amigo e compadre Senador Otávio tinha oferecido. Este velhote mulherengo, só queria saber das meninas do Cariri, pois as da Zona Norte ele não precisava conquistar para que seus pais continuassem a votar nele. (...)

O que se há de fazer! De qualquer modo o ordenado dava para suas despesas e suas poucas viagens e ainda ajudava um pouco em casa. No dia seguinte à sua chegada, ao passar pelo quarto dos meninos, vindo do seu, - o Chiquinho já havia levantado - ela vê a Rosilda fazendo uma trouxa do lençol e do pijama do menino. As duas se olham e balançam a cabeça. Ela vai para a mesa da varanda onde já estão todos reunidos, - os que estão na Granja -, para o café da manhã. Após o café ela abre as malas e passa a distribuir as lembrancinhas que trouxera da viagem. Há uma animação geral, pois sabem que a Margarida não esquece ninguém, ao contrário de seus irmãos quando vêem da capital ou mesmo de uma viagem mais longa, nunca trazem presentes para ninguém. São uns pães-duros! Com a mala no chão ela vai tirando as peças de roupas sujas de mistura com as limpas e passando para a Rosilda que tenta separa-las, mas desiste e reúne tudo, finalmente, numa trouxa para lavar. Há seu tempo todos recebem sua lembrancinha: a Mãe ganhou um Escapulário do Carmo, de Roma, o Pai uma piteira de casco de tartaruga, comprada na Estação Termini, a Letícia, a irmã mais nova, ganhou um “gigolete”, na moda por aí afora, o Chiquinho ganhou uma caneta esferográfica das novas. Os outros irmãos estavam em Fortaleza e, por isso, não iriam receber presentes. Margarida trouxe muitas medalhinhas compradas nos diversos santuários em que estivera: São Pedro em Roma, Lourdes e a Igreja da Madeleine em Paris. A Rosilda ganhou uma dourada, assim como a Maria das Graças, a Raimundinha, a Rosa e a Diva. Ela trouxe outros presentes, como pequenos frascos de perfume comprados às dúzias em Paris, na Galeria Lafayette e que faziam um enorme sucesso, esses ela daria para colegas do trabalho. Para ela mesma um montão de blusas e sapatos e broches – não se sabe mesmo onde ela arranjava tanto dinheiro para isso tudo, é o que parecia pensar a Rosilda, sempre observando tudo. Ela tirou da mala também, meio que escondido, uma garrafinha azulada, de vidro, com água benta de Lurdes que, dizem, servia para de um tudo, e um pequeno pacote contendo selos. Quando foi depois do almoço ela foi para a Coletoria, sabendo que deveria ter ido logo pela manhã, mas sem se importar com o possível carão do chefe. Ela foi recebida com alegria e inveja, nesta ordem ou na ordem inversa, tanto fazia, e ficou satisfeita. Ela trouxera presentinhos para as companheiras de trabalho e também para o Seu Quintino.

2

Ninguém imaginaria que o pacotinho com selos que ela escondia, era o presente que a moça tinha trazido para seu chefe. Ele ficou babando quando Margarida passou-lhe o pequeno pacote com o logotipo da Filatélica Delcampe, de Roma, contendo uns selos triangulares da Etiópia, com leões e cobras, em verde, vermelho e azul, raríssimos. Ele era um filatelista e ela era uma das poucas pessoas na cidade que sabia dessa sua mania. Imagine se sabem que Seu Quintino coleciona selos! Ele tinha herdado a paixão por eles de seu pai e de seu avô. Este fora um homem importante no começo do século, pois fora advogado, professor no Liceu e um político, infelizmente oposicionista. Cargos na família eles nunca tiveram e só com o trabalho puderam galgar alguns poucos postos na administração. O forte da família era o ensino – professores e donos de colégios – e participações no comércio. Seu pai fora sócio de uma das grandes firmas importadoras de automóveis da capital. Seu Quintino havia seguido carreira na burocracia estadual, na Secretaria de Fazenda, e tinha chegado a Coletor. Para assumir a Coletoria ele, ou melhor, seu pai teve que dar garantias ao Estado. Ele estava agora em Granja e às vésperas de ser transferido para Fortaleza. Estava satisfeito. Ele havia feito boas amizades na cidade, principalmente entre os comerciantes de quem tinha de cobrar os impostos – sempre mais altos e que os fazia quebrar, ele sabia. O que fazer, pois ele tirava daí o sustento de sua família. Quando a filha do Seu Artur conseguira a colocação na Coletoria ele ficou animado, pois sabia que a família dele era gente muito boa e muito inteligente, se bem que isso não contava muito na maioria dos círculos. Mas ela se mostrou uma garota trabalhadora e os dois se tornaram amigos. Ela sabia de seu pecadilho de filatelista e o estimulava fornecendo-lhe selos que chegavam na correspondência de casa. Ele agradecia com muitas gentilezas. Era por isso que o povo da cidade falava de um caso entre eles – que não tinha nada a ver. Não obstante, Seu Quintino tinha outros pecadilhos entre os quais o de ser um raparigueiro de marca, mas meio enrustido e também gostava de promover festas, sempre no mês de julho, a Festa do Chitão, que durava uma noite inteira de sábado e para a qual ele convidava amigos da cidade e de toda a Zona Norte.

3

Depois da farra da distribuição dos presentes que Margarida tinha promovido pela manhã, Chiquinho e Letícia foram preparar os deveres para as aulas do Colégio. Eles estudavam na parte da tarde e só voltavam depois das seis horas quando seu pai estava voltando da loja e Margarida já tinha chegado da Coletoria. O menino era mirrado, estudioso e já sabia datilografia, pois queria ser funcionário do Banco do Brasil. Ele tinha quase 17 anos e a Letícia andava pelos 14. Essa era danada e só vivia dizendo que queria ser atriz de cinema ou teatro, mas não se preparava para isso, mas como o irmão, já estudava datilografia e se preparava para o que desse e viesse. Emprego na Granja era muito difícil e ir para Fortaleza parece que Seu Artur não iria agüentar mandar mais dois.

Nessa noite o jantar foi puxado à galinha à cabidela, para comemorar a chegada da filha mais velha. Ela gostava de galinha preparada de todo jeito, mas tinha sempre de ser galinha caipira, dos matos, dessas que comem matinhos e pedrinhas, nada dessas galinhas que estão vendendo agora, de aviário, dessas ela não gostava. O jantar foi puxado a vinho, pois a moça gostava de tomar um bom vinho tinto, costume adquirido em suas viagens à Europa, principalmente à Itália, onde nas cantinas come-se tudo, mas sempre acompanhado de um bom vinho da casa, geralmente um Chianti. No jantar o vinho era mesmo nacional, pois na Granja, nada de sofisticado chegava mais, pois os tempos bons mesmos, quando se tinha até vinhos franceses, já tinham passado há muito. A refeição, como era normal em sua casa, foi puxada por uma conversa animada: todos queriam saber o que ela tinha visto, visitado nas estranjas e Margarida querendo saber o que tinha acontecido na pequena cidade. Quem tinha morrido nascido, casado, quem estava de caso e, na família, como iam os estudos dos dois mais novos e que notícias tinham dos outros que estavam em Fortaleza. Da Mãe, ela queria saber como iam as atividades na Igreja e do Pai, como iam os negócios, sempre ruins, como sabia que ele responderia. Sobre política falava-se pouco, pois depois que o novo oligarca tinha tomado o poder o silêncio sobre o assunto na casa de Seu Arthur tinha reinado. O jantar e as conversas estavam demorando, mais do que o normal e o Chiquinho já estava ficando nervoso, pois ele tinha marcado encontro com a Delite e já passava das oito. Ele fez um sinal para Nair, a menina que serve à mesa, e pediu um pouco de doce de caju em calda, tomou um gole dágua um só, e saiu correndo. Sua mãe dá-lhe uma ordem que ele mal ouve:

- Olha lá Chiquinho não vai voltar depois das dez!

- Sim mamãe! Amanhã tenho prova com o Padre Adilson, logo às sete horas!

4

A Delite era colega de turma do menino e os dois se conheciam desde quando eram bem crianças. A menina era uma moreninha, de cabelos lisos e olhos negros, amendoados e parecia uma indiazinha. Ela já era moça feita, como se dizia, e agia como tal. Gostava de se cuidar e de se enfeitar e conseguia encher o Chiquinho de ciúmes com seus olhares e conversas com os outros coleguinhas. Mas, bolinação era só com o Chiquinho, de quem gostava muito mesmo. O que era surpreendente, pois suas colegas todas sabiam que ela era uma namoradeira de marca maior. Nessa noite ela esperava pelo namorado em frente de casa, na Praça da Matriz e quando ele chegou saíram para dar uma volta na Avenida e depois sentaram em um dos bancos mais internos do passeio, já desfigurado. O que eles conversavam depois de terem passado a tarde toda no Colégio era segredo de namorado. Mas o que eles faziam estava quase à vista de todos, pois não escondiam de ninguém seus intensos carinhos. Após uns poucos beijos quentes Delite vira-se para o namorado e, franzindo a testa, pergunta com um sorriso estranho:

- Chiquinho você não está sentindo um cheiro esquisito?

E ele:

- Esquisito como?

E ela:

- Assim como se fosse xixi. Veja aí atrás, pode ser que alguém tenha urinado atrás do banco.

O menino inclinou-se para olhar atrás do banco de cimento frio e, empertigado, disse nervoso:

- Não tem nada aqui atrás! Você ta impressionada com alguma coisa! Não sei por que isso agora.

A menina lhe diz do problema que tem nas narinas, diagnosticado pelo otorrino de Sobral com quem ela se consultara havia uns poucos dias.

- E o que foi que essa besta disse? Falou o menino.

- Ele disse que eu tenho uma rinite crônica que prende os cheiros por muito tempo e desse modo eu sinto mais que as outras pessoas. Ele até passou um remédio para botar no nariz, só uma gotinha em cada narina, todo dia. Ele diz que remédio bom para fazer efeito só precisa de uma dose pequena. Vamos ver, mas eu acho que não estou melhorando depois de quase uma semana.

Chiquinho se desconcerta um pouco com essa história e resolve ir para casa:

- Posso pelo menos lhe dar mais um beijinho?

- Certamente, seu bobo. Disse ela fazendo um muxoxo, sem que ele visse.

5

No dia seguinte o Tio Ângelo – chamavam o velho de “Seu Anjo” - passou em casa e convidou Chiquinho para um fim de semana no Serrote. Esse irmão de seu pai morava na velha fazenda que fora da família e onde criava uns bodes e plantava alguma coisa, além de tirar o carnaubal. Ele dizia que a cera não dava mais lucro, não era como naqueles tempos, mas ele insistia no ofício, o que era um mistério. Sua mulher, a Titia, e ele viviam isolados, mas perto da cidade de modo que estavam sempre de visita ao irmão. O menino era como que o filho que eles não tiveram. No sábado pela manhã o velho passa para pegar o menino que vai à sua garupa e só leva uma muda de roupa, pois na fazenda ele tem tudo de que precisa, pois a Titia insiste em manter lá um monte de roupas e outras coisas dele. É uma viagem curta e logo ao chegar ele vai procurar o Carlito, o filho do morador, seu companheiro de brincadeiras desde muito tempo. Saem os dois para a beira do rio, tomar banho e por as conversas em dia. Quando está na hora do almoço eles ouvem o chamado do Tio Ângelo e saem correndo para lavar as mãos. Hoje o Carlito almoça e janta na Casa Grande. A Titia preparou junto com a Dona Carminha, a mãe do Carlito, uma carne de carneiro cozida e com muito molho de que o Chiquinho gosta muito, principalmente se tiver um osso com tutano. Após se fartar da carne e do arroz branquinho e da farofa de torresmo ele espia logo para ver se tem os doces de sua preferência: o de goiaba em calda, o de banana em rodela, o de mamão com coco. Ele adora doces e faz uma verdadeira salada com eles. Mas não engorda. Não se sabe por quê. Já o Carlito também gosta de doce e come muito e é bem gordinho, aproveitando tudo o que come. A tia é muito preocupada com a saúde do sobrinho e sabe do seu problema noturno, como não podia deixar de saber. Após o almoço os dois meninos saem à procura de algumas cabras que estão desgarradas e só voltam no fim da tarde depois de tomarem um novo banho no rio. À noitinha eles tomam café com leite e comem cuscuz com nata de coalhada. A tia fica olhando para o sobrinho para ver se ele regra o refresco de tamarindo que toma. O Carlito se despede e vai com sua mãe para casa, bem pertinho, pegada ao curral. Antes de sair Dona Carminha arma a rede do Chiquinho no lugar costumeiro na sala bem pegada ao quarto do casal. Ela sabe que a tia do menino vai precisar tê-lo perto nessa noite.

6

Ele entrou no pequeno barco que estava ancorado à beira do rio e, remando com força, leva-o para o meio da correnteza que era forte naquele trecho. Não sabe mesmo porque razão teve de levar a pequena embarcação para o meio do rio, mas o fato é que em pouco tempo perdeu o controle e começou a ficar preocupado. Será que eu vou poder remar para a margem? Pensava ele. Nessa altura ele sente que o barco está fazendo água, que entra por diversos orifícios no fundo. Subitamente ele acorda com um barulho de líquido caindo sobre metal – é o seu xixi caindo na bacia de alumínio que Dona Carminha tinha colocado debaixo de sua rede, de ordem da tia. Ele não podia fazer nada, mesmo porque não houve tempo. Como o dia já tinha amanhecido logo chega a Titia e, com um sorriso maroto, pergunta a ele o que havia acontecido. Ele diz encabulado:

- Eu sonhei que tava remando num barco lá no rio e depois começava a entrar água por baixo...

- E aí você deu uma tremenda mijada, meu filho... Agora eu quero ver se a sua urina é doce. O povo diz quem tem urina doce tem diabetes mija na rede. Pode ser que isso explique esse seu costume, Chiquinho. E aí a gente pode ver se sua doença tem cura ou não. E completando ela diz:

- Será que a Delite já sabe disso? E olhou para ele com ar de mofa. Mudou de assunto e disse:

- Vamos ver que gosto tem...

Toma uma colherinha de chá e mergulha no líquido amarelo citrino que se acumulou na bacia de alumínio e recolhe uma dose. Leva aos lábios, experimenta com a língua e não satisfeita põe o líquido na boca e o engole:

- Chiquinho, é doce, mas não é como doce de goiaba de que você tanto gosta. Acho que você não tem diabete não. E o xixi na rede pode ser que não tenha nada a ver com isso. Você vai ter mesmo que ir ao médico com sua mãe.

7

Incontinência urinária juvenil ou IUJ era este o mal do Chiquinho. Quem disse isso foi o Dr. Zé Maria, de Sobral, ao fim da conversa que teve com o menino e sua mãe.

- E o remédio para isso doutor? O menino ta crescendo e também estragando tudo o que é de rede e lençol e o assoalho que no quarto dele é de taco!

- Não tem muito que fazer, pois a Medicina é moderna, mas é omissa nesses casos. Certamente algumas medidas paliativas podem melhorar o quadro. Falou o Dr. Zé Maria.

- E que medidas são essas, Doutor? Pergunta aflita a Mãe.

- Vejamos: não beber depois das seis da tarde, colocar um urinol de ágata desses altos no quarto, colocar uma bacia de alumínio debaixo da rede, dar três voltas ao redor da mesa do jantar com a rede de dormir sobre a cabeça e rezar para Nossa Senhora do Junco todas as noites, essa parte na presença de todo mundo.

- Mas Dr. Zé Maria, nem uma pílula ou xarope?

- Nada disso! E além do mais uma coisa é certa, quando ele casar isso sara completamente.

- Ta certo Doutor, obrigado. Até a próxima vez.

E dirigindo-se para o filho que estava com os olhos esbugalhados e quase chorando:

- Vambora Chiquinho!

- Chiquinho você nem me contou... Eu soube que você foi ao médico em Sobral com sua mãe?

- E quem foi que lhe contou? Égua, aqui na Granja a gente não pode fazer nada que todo o mundo sabe na hora.

- Menino, eu não sou “todo mundo” não!

- E quem foi que lhe disse?

- Foi a Clarisse da Dona Joaquina. Ela disse que viu vocês no consultório do Dr. Zé Maria.

Flagrado antes de arranjar uma mentira melhor, Chiquinho admitiu ter ido para se consultar de alguma coisa chamada de “Incontinência” e que tinha a ver com problemas do crescimento... Delite olhou para ele e sem acreditar de todo disse:

- Incontinência? Você num ta nem no Exército! Olha lá Chiquinho se você tiver mentindo para mim, nunca mais quero te ver!

- Num tem nada de mentira Delite! É que eu tenho muita coisa pra estudar, você bem sabe, e não to conseguindo. E lá em casa fica todo mundo perguntando como eu vou no Colégio. Agora que a Margarida chegou, eu só queria que você visse, ela quer ver minhas notas a toda hora.

- Bem feito de você num estudar direito...

- Mas eu vou resolver tudo isso.

Eles estavam meio perturbados com essa conversa e não deu tempo de namorar, namorar mesmo como se deve namorar.

Chiquinho fez um pouco de carinho na menina e puxou-a para dar-lhe um beijo e disse:

- Deixa eu ir Delite já estou ficando com sono e preciso estar bem aceso para a aula de amanhã.

8

O menino tinha outros planos e logo que chegou a casa conseguiu encontrar, na Eletrolux, entre garrafas de coca-cola, de cerveja, jarras com suco de tamarindo, feijão de ontem, carne moída e o escambáu, a garrafinha azulada com a água de Lurdes que Margarida havia trazido. Ele olhou para um lado e para o outro e enrolou a garrafa em uma toalhinha e saiu para o banheiro do seu quarto, levando também um abridor de garrafas e uma colherinha das de chá. Trancado no banheiro ele abre a garrafa com cuidado para não marcar a tampa de metal e põe água na colher até enchê-la. Põe o líquido na boca e fica esperando sentir um gosto ou não gosto diferente do gosto de água ao qual ele está acostumado, mexe com a água na boca e, sem mais esperança de sentir alguma coisa sobrenatural (seria?) ele engole aquela esperança líquida de uma só vez. Fecha a garrafa e, pé ante pé, a coloca de volta com precaução na mesma posição na geladeira. Volta para o quarto e deita em sua rede vermelha, que sempre recendia a mijo.

Chiquinho acorda cedo e, sentindo-se como sempre, todo molhado de urina olha para a bacia e vê que ela guarda tanta urina como nos dias anteriores.
À noite ele toma uma outra colherinha de chá da água trazida de Lurdes pela irmã e, novamente, amanhece mijado e, aparentemente a mesma quantidade de urina está na bacia. Isto o deixa chateado, mas não pensa em desistir da experiência: ele quer saber mesmo se os poderes milagrosos da água benta de Lurdes o curarão e decide aumentar a dose, pois não acredita nessa história de que dose pequena é que faz efeito. Chega à noite e ele retoma o ritual de apanhar a garrafinha e tomar uma colher da água, só que agora é uma colher das de sopa que ele ingere. Chega a manhã e ele vê que ainda não foi dessa vez que a urina na bacia diminuiu, mas na quarta noite, depois de tomar, mais duas colheres de sopa ele notou que a mijada tinha sido bem menor do que as anteriores. Resolvido a ir em frente com sua experiência Chiquinho resolve tomar três colheres de sopa; ele apanha a garrafinha de água na Electrolux e a colher de sopa, toma todas as precauções, mas nota uma pequena mossa na tampa e também, coisa que lhe tinha passado despercebida, a água na garrafa está diminuindo. Ele muda o plano original e toma quatro colheres de sopa e com isso, segundo vê, o nível da água desceu perigosamente para quase a metade do que havia antes. Seja o que Deus quiser, pois se a experiência, ou melhor, o milagre funcionar a Margarida vai entender. Quando acorda sente que não está molhado e, olhando para a bacia embaixo da rede, Chiquinho vê que ela está sequinha...

9

Margarida abriu a geladeira e procurou a garrafa de água benta de Lurdes, que havia trazido. Bem escondida, lá no fundo, ela viu a garrafinha azul, puxou-a para frente e logo viu algo de errado, pois o líquido estava quase pela metade. Quando a pegou na mão notou também que havia uma pequena mossa na tampa de metal. Era mais que evidente que alguém tinha aberto e usado, de alguma maneira, o conteúdo da garrafinha.

- Eu acho que foi o Chiquinho; há uns três dias eu vi ele pegando essa garrafinha azul, disse a Rosilda.

- Será? E como anda o xixi dele?

Rosilda disse para a moça:

- Olha Margarida já faz uns dias que ele não mija! Eu não sei o que aconteceu...

- É mesmo? Chama ele aqui!

Daí a pouco chegam o Chiquinho e a Rosilda vem logo atrás. A irmã do menino pergunta:

- Chiquinho o que é que você fez com a água que eu trouxe de Lurdes?

- Eu?

- Sim você mesmo! Aí ela mentiu e disse:

- Eu vi você mexendo na garrafinha azul...

- Ta bom, eu mexi. Mas só tomei umas colherinhas.

- E pra que?

- Ora você mesma disse que essa água é milagrosa e eu queria saber se ela fazia mesmo milagre!

- Você podia ter falado comigo, vai que a água te fazia mal...

- Ta certo, mas agora ta na casa do sem jeito, você me desculpa eu ter tomado sua água.

- Minha água? Oh bestão pra que é que você acha que eu trouxe essa garrafa de água benta lá de Lurdes, na França, a milhares de quilômetros de distância? Ela olhou para o irmão e deu uma gargalhada.

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Friday, August 28, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 86


Mostro hoje mais um poema de LÍVIO BARRETO, poeta granjense nascido em 1870 e falecido em 1895. “Dolentes” é seu único livro publicado.

MÁGOAS

Eu sinto n´alma o fúnebre vazio
Que o ninho sente quando a pomba voa...

JOÃO DE DEUS DO RÊGO


Por que essa flor que encerra a nossa vida,
Na melindrosa ânfora guardada,
Treme, pálida e fria, sacudida.
Por tua mão angélica, de fada?

Por que das minhas utopias santas
O vôo cortas quando as tenho prêsas,
À tua boca e à tua voz – se cantas,
Às tuas mãos e ao teu olhar – se rezas?

Por que deixaste, pérola, a queixosa
Concha cheia de amor e de martírio?
Por que deixaste este luar, ó rosa?
Por que fugiste deste orvalho, ó lírio?

Pois bem, deixa que eu gema e que sucumba
Com teu retrato no meu coração,
E vá de solidão em solidão,
A procurar o amor de tumba em tumba.

Deixa! e nem tentes mais chamar à vida
Meu coração desesperado e frio
Que anda no mar da Dor como um navio
Na escuridão da noite indefinida.

- Granja – Agosto – 92.

O poema mostrado está completo.

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Thursday, August 27, 2009

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 87


ELE PREFERIA O CANTO AO LEITO

No dia do casamento, logo após a cerimônia, o noivo pulou na rede e foi dormir. Quando conseguiram acordá-lo ele resmungou qualquer coisa, levantou-se e escondeu-se em um canto da sala da enorme casa de sua mulher viúva de pouco. Toda vez que ele acordava na rede rapidamente ele se esgueirava para o seu canto que ficava escondido pelo enorme armário que servia de depósito de mantimentos. Essa arrumação durou até sua morte. A viúva ria da besteira do marido, mas não dizia nada. Saia a cavalo para o samba do Tutu e só voltava de manhã.

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Wednesday, August 26, 2009

VISTAS DA GRANJA 107



AQUITEVEAQUIFOIAQUIERA


Dá pra lembrar o que se “esconde” por trás da propaganda do Mercadinho Rotativo?

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O MONSTRO DO LAGO NESS



Nessie, como os escoceses o chamam, é uma "aparição" que anima nativos e turistas que visitam o Loch Ness, na Escócia. Periodicamente o simpático monstro dá as caras no lago e também no noticiário. Hoje há uma notícia, reproduzida no g1, sobre a presença do enorme animal no Google Earth. Veja e leia a matéria no g1.


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Tuesday, August 25, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 97


O RELOJOEIRO E SEU BONIFÁCIO

Ele ouviu um psiu e novamente outro. Parou e virou a cabeça na direção do chamado. Era aquele senhor vestido de branco de cima a baixo que ele sempre via no portão do Mercado Velho mexendo em relógios. A figura aproximou-se e disse:

- Seu Bonifácio eu soube que o Senhor foi assaltado e lhe roubaram aquele relógio que eu lhe vendi no ano passado.

Será verdade, o que vou fazer? Pensou ele, os boatos correm e, na certa todo mundo já sabia do assalto.

– Sim, ele disse. Fui assaltado e me levaram aquele “roskopf” que o Senhor me vendeu...

- Pois é. Eu agora tenho um melhor e mais bonito. Bem diferente daquele que lhe vendi. Quer ver?

– Quero. Mostre aí.

O velho de branco puxou um relógio de algibeira e Seu Bonifácio foi logo se animando. Regateia daqui, regateia dali, o velho deixou o relógio por cem reais. E seu Bonifácio saiu charlando com seu novo Mido feito em Manaus.

O texto está completo e a ilustração está em: http://www.musketeer.ch/watches/roskopf.html

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Monday, August 24, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 67


UM NADO NA PISCINA

Fazia um enorme calor quando Walcy entrou na lojinha à procura de comprar um presente para sua netinha. Ela tem oito anos e é bem sapeca e sempre cobra dele, quando volta de suas viagens, um presente. Nessa tarde, ao ser atendido pela Juliete, a vendedora bonita, ele nota a entrada de uma senhora, ainda bem jovem, bem vestida. Ela não se importa com sua presença e pede à vendedora que lhe mostra uma peça. Ele afasta-se acintosamente, provocando sua reação: - Obrigado... Walcy responde sarcástico: - De nado... A senhora, pensand ser mais sarcástica retruca: - E onde está a piscina? Ele diz: - Ah! Deixa pra lá!



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A ERUPÇÃO DO VESÚVIO


Nesta data (24 de agosto) há 1930 anos deu-se a maior erupção conhecida do vulcão Vesúvio situado nas proximidades de Nápoles, na Itália. Esta erupção destruiu as cidades de Herculano e Pompéia causando a morte de 10 a 25 mil pessoas. Siga os diferentes links para ler mais sobre esse desastre natural velho de quase dois mil anos: em português (wikipedia1), e em inglês (wikipedia2, bbc1, bbc2).

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GETÚLIO VARGAS - 55 ANOS DE SUA MORTE


Há 55 anos, no dia de hoje, Getúlio Vargas, Presidente do Brasil, cometia suicidio em seus aposentos no Palácio do Catete, Rio de Janeiro. Veja o vídeo de matéria apresentada pelo jornal Bom Dia Rio hoje pela manhã.

A imagem é de siaapm.cultura.mg.gov.br

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Sunday, August 23, 2009

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 138


CARTA VALIOSA

Meu caro Ricardo Ruas,

Junto essa carta para o Coronel Bento Reis, que lhe peço mande entregar. Para isso é preciso que você tome certas providências, porque é indispensável que ela seja entregue nas mãos dele, do contrário ele não a receberá nunca. Você mandará um positivo, de forma que vá encontrá-lo deitado na rede no alpendre da casa grande, o que só deverá ser antes de meio-dia, porque depois desta hora ele guarda a carta para ler mais tarde e acaba não lendo nunca. A carta vai aberta para que você tome nota do assunto e depois feche o envelope. Fique de tocaia atrás do tronco daquela mangueira que fica perto do curral para observar a reação do Homem. Peço ainda o favor de me mandar dizer o resultado, isto é, se a carta foi entregue a ele próprio, qual foi a reação dele, o que ele disse, etc. e etc.

Você deve mandar uma carta para mim pelo mesmo positivo contando a reação dele. E também nota das despesas que fizer.

Aguardo com interesse. Seu amigo grato

Eduardo Rios



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PROFESSOR DIAS DA ROCHA - 140 ANOS DE SEU NASCIMENTO


Francisco Dias da Rocha, fundador das Escolas de Farmácia e de Agronomia no Ceará, das quais foi professor, estudioso das Ciências Naturais, fundador do Museu Rocha, completaria 140 anos de vida no dia de hoje. Zenilo Almada seu sobrinho presta-lhe homenagem em um ensaio publicado hoje no Diario do Nordeste (siga o link).

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Saturday, August 22, 2009

CONTOS DA RIBEIRA 5


A HISTÓRIA DO VELHO INAÇO

Corria entre eles aquela história antiga que o velho Inaço contava. Um de seus avós dizia que seu pai havia jogado, todo mundo no Pé da Serra dizia “rogado”, uma praga nas futuras gerações da família: ele disse que todos iriam sofrer de uma das doenças mais terríveis que jamais existiram, e das mais velhas, pois ela certamente já existia no tempo das cavernas. É verdade que de câncer nunca havia morrido ninguém na família dos Raposo e nem de tuberculose, nem de doença do coração, nem de gota. Mas eles sabiam que a praga se referia à doença que muitos de seus tios e primos tinham tido e todos haveriam de ter mais cedo ou mais tarde. (...)



Não era nem preciso dizer o nome, todos a conheciam de dentro de casa, desde muitos anos, quase quatro centenas deles. O menino a pegou na Capital, só podia ser, pois começou a aparecer quando ele estava no Colégio Militar. Não teve jeito, os parentes o mandaram pro Rio de Janeiro, diziam que lá ele iria se tratar e ficar bom. O bichinho acreditou e foi levado, pelo outro irmão, o maiorzinho, que já trabalhava e teve de tirar férias para levá-lo. Assim que chegou, ele foi para a Casa de Saúde, nas Laranjeiras, onde médicos famosos – nesse tempo a família ainda podia pagar por eles – não tiveram conversa, viraram e reviraram o menino pelo avesso e depois lhe deram choques elétricos e de cardiazol. No começo o irmão e parentes – que queriam acompanhar as sessões - viam o pobrezinho quase se quebrar de dor e de se esgoelar, dando gritos terríveis. Passados alguns meses ele melhorou, mas só queria saber de ler, ler e ler. E também de escrever e o que ele escrevia parece que era uma espécie de deglutição do que ele havia lido. A princípio ninguém sabia o que era, mas quando o mais velho, que era muito instruído, até demais, chegou do Rio Grande viu que ele estava escrevendo em grego clássico! Minha nossa, se fosse pelo menos grego moderno, do Pireu, eles poderiam dizer que o menino havia aprendido com o Grego Selatakis, lá na Timonha. O fato é que ele não podia mais ficar no Rio de Janeiro, o velho tinha quebrado, e ele teve de ser embarcado a força em um desses navios do Lóide e quando chegou foi logo internado no Alagadiço. O outro irmão que havia ficado foi quem o levou e todo mundo mal podia imaginar que este daí a pouco, seguiria a mesma trilha do menino. Mas antes havia o outro, aquele que havia levado o menino para o Rio. Como ele tivesse ficado lá, levando uma vida airosa, mesmo sem dinheiro, parece castigo, logo se apaixonou por uma polaca da Rua Conde Lage e queria viver com ela. Ele achava que a jovem poderia se beneficiar de alguma experiência que ele tinha de como representar. Logo pediu demissão do emprego na Casa Inglesa no Forte e matriculou a polaca em aulas de teatro e encheu-a de livros. Como ele vivia não se tinha a menor idéia, talvez o cunhado, um “bon vivant” com uma boa sinecura no Ministério da Fazenda, o tenha sustentado por algum tempo. Ele nunca desconfiou que Aniela, era este o nome da polaca, lhe traísse com um de seus novos amigos cariocas. O final desse relacionamento deu-se quando ele pegou uma blenorragia e daí foi fácil para a doença enreda-lo. Ele também teve de ir para a tal Casa de Saúde, triste nome, pois de saúde não tinha nada, era um verdadeiro inferno na terra. Como é que uma cidade tão bela como o Rio de Janeiro podia ter uma coisa como essa tal de casa de saúde? Ninguém tinha respostas para isso, nem mesmo seu irmão sabido. Agora parece que os Raposo gostavam de lá, dessa casa... Só pode. Esse aí ficou por Laranjeiras, esquecido, por uns bons vinte anos até que chegou ao óbito, como dizem os repórteres das colunas policiais. “Causa mortis”? Falência geral dos órgãos causada por fome, como o Pai. O irmão mais velho, o sabido, continuava colecionando suas borboletas e eles pensavam que ele não se preocupava ou incomodava com nada, mas qual o que, ele vivia tomando o antidepressivo universal e foi assim até morrer, agora não numa casa de saúde, mas numa clínica de repouso. Este é um nome bonito para alguma coisa bem parecida com a Casa de Saúde ou com o Sanatório. No Forte o irmão do meio com sua família criada, mas metido com negócios que nunca davam certo – vender fibra de paco-paco para a Inglaterra, imagine! Foi de prejuízo em prejuízo até que parou num quartinho escuro do Asilo de Alienados, em Porangabussu cujo diretor, o Dr. Brindeiro, fora amigo de seu pai, pois este já estivera, digamos, hospedado lá, por alguns meses, no tempo em que se usava mesmo eram as camisas de força. Esse irmão do meio seria mesmo do meio, pois eles não eram quatro? Bem, ele também teve seus dias de eletro-choque e de insulina e melhorou um pouco, não tanto que as pessoas de casa acreditassem em cura. Não era mesmo uma cura e ele sabia muito bem disso. Ele se aproveitava dessa situação de dúvida e fazia experiências. Elas consistiam em observar o comportamento das pessoas diante dele. Muitas vezes ficava sentadinho em sua cadeira de balançar, pintada de branco, na varanda de casa, com uma toalhinha de lã sobre os joelhos para não pegar a friagem da tardinha, a olhar fixamente para o muro da casa do Seu Gênio, era assim que se chamava o funcionário da firma Booth & Line na cidade, morando em frente. Na parede havia um grafite de uma enorme complexidade que ele queria adivinhar o significado. Aliás, ele fingia querer adivinhar. Ninguém sabia o que significavam as garatujas, nem quem as tinha feito, de modo que fica difícil dizer alguma coisa sobre esse grafite. O que ele fazia era prestar atenção nas pessoas que entravam e saiam de casa e, ao passar por ele sentado em sua cadeira, diziam alguma coisa, como por exemplo: Ô velho chato, não sai dessa cadeira! Ou então: Vai trabalhar home! Ele ouvia isso tudo, mas não guardava rancor, não. Ele sabia que, mais cedo ou mais tarde as pessoas iriam descobrir que ele prestava atenção a tudo que se passava ao seu redor e, quando e se ficasse bom, ele cobraria delas uma explicação. Isto já havia acontecido das outras vezes que a doença o tinha alcançado. Ele nunca tinha recebido explicação de ninguém. O filho desse outro, sobrinho daqueles do Rio e do Rio Grande, ainda quase criança foi visitado pelo diabo da doença. Chamava-se Jorge e era metido a sebo, isto é, os outros achavam assim, mas não, ele era mesmo era picado da tal doença. Da primeira vez que ela chegou de portas adentro, sem pedir licença, o jogou de cama por alguns meses. Imaginem vocês, todos na casa já tinham um como que roteiro de como a doença agia, mas perderam um precioso tempo para levá-lo a um bom médico. Agora havia desses, no Forte, ou assim muita gente dizia. Eram doutores formados na América, na França, no Rio de Janeiro e por aí afora. Novos métodos de tratamento, novos aparelhos, novos testes e o que mais não se sabe, pois esses médicos têm os seus mistérios que não contam pra ninguém. Havia um desses doutores do saber médico que, logo ao atender Jorge em seu consultório, no centro, ordenava que o rapaz despisse a camisa e deitasse ao chão. É, deitasse sobre o assoalho, imundo! Ele ficava lá estiradão no chão e o sábio provavelmente, não certamente, pois ele estava deitado de bruços, ficava a olhar para suas costas sem dizer palavra. Os resultados, benéficos ou não, desse mergulho na poeira do chão do consultório, nunca foram comunicados a ele ou à sua família. Depois de alguns meses ele desistiu dessa terapia terrosa e passou a conversar com um outro doutor. Conversar não é um termo adequado para o relacionamento quase diário de Jorge com esse luminar caboclo. No início da terapia os dois ficavam frente a frente por todo o tempo disponível, - não chegava à uma hora -, ao fim do qual o doutor indicava, por sinais quase imperceptíveis, que a sessão havia chegado ao fim. Após uma dúzia dessas reuniões Jorge resolveu quebrar o gelo e falar, pois de outro modo ele quebraria financeiramente, sem sombra de dúvida, antes de qualquer resultado, positivo ou não. A melhor parte dessa história foi o encontro entre Jorge e esse luminar em uma festinha de aniversário. Ao dirigir-se a ele, o parente do velho Inaço, ouviu: - Eu não me relaciono com ex-pacientes! E virou as costas para Jorge que deu graças aos deuses por tê-lo tirado de seu caminho, muito antes de descer ao mundo silencioso, como finalmente aconteceu. Quando o levaram de volta ao Alagadiço ele só ficou uns poucos meses, pois se acreditava completamente curado, apesar da apreciação sigilosa que o tal luminar havia feito de seu estado para sua mulher; segundo esse laudo não havia cura para o mal de Jorge. O moço, pois ainda era um moço, se sentiu com coragem e forças e resolveu fugir. Certa madrugada ele pulou o muro da Casa de Repouso, era assim que chamavam agora, e ganhou o mundo. Não ganhou o mundo exatamente, mas fugiu de táxi para as brenhas da Serra onde se amasiou com uma menina que era ver uma índia, a Indiazinha, como ele a chamava. Foi nessa época que Jorge achou que tinha evitado à descida ao Hades. Ele que esperasse...

JXF set2008


A figura mostra “As famílias dos bárbaros”, xilogravura de “Cosmographie Universelle” de Munster (Basiléia, 1552).

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Friday, August 21, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 85


LÍVIO BARRETO deixou em seu um único livro publicado, “Dolentes”, o poema de 1894 que mostramos hoje.

NOITE AFORA

Há pouco na matriz deram dez horas.
Calma aparente fora; aqui, soturna,
Triste vigília; a pavidez noturna
Das longas noites lentas, sonhadoras.

Só no meu quarto, a luz da lamparina
Trêmula doira a minha solidão.
Silêncio triste. As dores em surdina
Vão dar meia-noite no meu coração.

Ventos da noite frios, ventos frios
Passam bulhando fora aos assobios,
Zunindo pelas frinchas da parede...

Dormem sorrindo as brancas inocências,
E anda o remorso pelas consciências
Como um lobo perdido, que tem sede.

O texto está completo. O quadro é: Picture Clock with Scene of an Alpine Village Landscape with Clock Mechanism in Church Tower, de C. L. Hoffmeister, 1833

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Thursday, August 20, 2009

VISTAS DA GRANJA 106


AQUITEVEAQUIFOIAQUIERA

Apesar de ser uma cidade antiga a Granja não tem edificações tombadas pelo IPHAN (nem no âmbito estadual, nem tampouco no municipal). Decorrência desse descaso é o que aconteceu com o casarão antigo que foi demolido para dar lugar ao prédio mostrado acima que abriga um “shopping muderno”.

Você sabe que casarão era esse?


O texto está completo.

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Wednesday, August 19, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 24


MUITOS TIOS

Jorge tinha muitos tios e tias; tanto do lado materno como do lado paterno. Seus tios, irmãos de sua mãe eram de uma natureza especial, mas não tinham uma educação esmerada, como sua família paterna falava, entretanto eles eram muito dedicados aos sobrinhos. Todos procuravam agradá-los, principalmente a Jorginho, como também era chamado por eles. Quando iam para a fazenda o levavam para andar a cavalo ou burro, tomar leite mungido no curral e chupar cajus da quinta, apanhados do pé. (...)

Certa vez, porque ainda fizesse xixi na rede, um dos tios chegou a provar de sua urina, pois dizia que ele podia ser diabético e, nessa doença, urinava-se muito e o xixi era doce. O teste deu negativo, mas isso ficou marcado em sua mente e ele achava que fosse resultado da dedicação que seu tio tinha para o sobrinho. Eles nunca o repreendiam mesmo quando havia motivo para isso. Jorginho adorava o Tio Vicente e quando ele passava montado em seu cavalo alazão ou acompanhava as procissões vestido com uma bata branca e com uma fita vermelha em torno do pescoço, o sobrinho o imaginava como um cruzado pronto para invadir a Terra Santa e liquidar os infiéis.

Os tios do lado paterno eram muito trancados, carrancudos e irônicos. Todos da família tinham fama de serem muito irônicos e críticos, aparentando hostilidade contra todo mundo. As pessoas na cidade os tinham como muito instruídos, pois sabiam que liam muito e em diversas línguas; dizem que até grego alguns deles sabiam. O fato é que todo tipo de literatura em português e uma multiplicidade de romances de autores franceses e ingleses eram lidos por eles. Ainda hoje há, em suas casas, livros de poesia em francês ou inglês, com dedicatórias de um para o outro escritas nas mesmas línguas. O pai de Jorge fazia discursos e era convidado a dar explicações e esclarecimentos sobre fatos e acontecimentos políticos ou não, nacionais e internacionais.

A fama de estudiosos e dedicados às artes corria a cidade e talvez o desejo íntimo de todos era alcançar a posição a que tinha chegado um dos irmãos de sua avó: tinha sido um poeta laureado nacionalmente tendo publicado uma dezena de livros. Ninguém das gerações posteriores alcançou o sucesso dele.

Com Jorge alguns deles chegaram a ser intolerantes. Certa vez na Capital, ele já adolescente, um dos tios ao vê-lo e ouvi-lo mastigar uma torrada vociferou:

- Não se deve comer torradas fazendo este barulho todo menino!

O garoto baixou a cabeça assentindo com a afirmação do tio.

Quando Jorge inventou usar uma barba uma de suas tias, toda vez, que ele fazia um gesto de que iria cumprimentá-la com beijinhos na face ela dizia:

-Tira essa barba Jorge! Que coisa feia! E negava as faces para o beijo dele.

A bem da verdade havia entre os tios, uns poucos, eram 15 ao todo, que o
tratavam com certa civilidade. Depois que seu avô perdeu todas as posses os
tios abandonaram a Cidade e foram para o Rio e Belo Horizonte, à procura de
emprego. Jorge não os viu desde então.


A figura acima é: "A Corte dos Nobres – Fac-simile de uma miniatura em um antigo romance de Cavalaria". Séc. XIII (Livraria do Arsenal, Paris).


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Tuesday, August 18, 2009

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 96

BEIJO NA BOCA

Altino andava preocupado, pois sabia que estava gostando da menininha - era mais que uma menininha. Seus amigos eram poucos e poucos ainda eram aqueles com quem ele tinha coragem
de se abrir em assuntos de coração. Ele resolveu de qualquer modo falar com o Isaac para pedir
conselhos: - Rapaz eu vejo e falo todo o santo dia com ela, ela me manda fazer as coisas pra ela,
mas não tenho coragem de falar nada. Cara eu nunca beijei na boca de nenhuma menina e fico
olhando para a dela e imaginando qual macho que já beijou aquela boca! Fico doido! O que é que
eu faço?

O amigo sabendo de sua proximidade servil com Catarina e também que ela nunca se permitiria ser beijada por ele lhe diz:
- Cara, tu tem primeiro de dar pra ela uma barra bem grande de chocolate amargo. Ela gosta desse mais do que nada. Aí ela vai amaciar e logo depois tu começa a passar a mão no braço dela. Se então ela não te der um coice tu pode passar a mão na cintura. Daí pra frente é por tua conta e risco.

O texto está complete e a figura que o encima é: “The knight and his lady – Costumes of the Court of Burgundy in the XIVth Century”, miniatura em “Othea”, poema por Christine de Pisan, Livraria de Bruxelas.


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Monday, August 17, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 66


O AMIGO DO HOMEM

Seu Carrim chegou de viagem e parou a D20 do patrão bem em frente à bodega. Olhou para a padaria da frente e viu a bichinha. Ela sorriu acenando com um pãozinho na mão esquerda e, com a direita, fez-lhe um gesto indecoroso. Seu Carrim não entendeu nada. Ao contar ao patrão este diz: - Todo dia é isso, macho. Essa criatura parece que é maluca, porque ela não dá logo os coices ao invés de pão?


O texto está completo.

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