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Saturday, April 04, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 66


LÍVIO BARRETO, da Padaria Espiritual, dedicou este poema ao amigo Luiz Felipe de Oliveira, transcrito em seu “Álbum – 1890” e depois incluído em seu único livro “Dolentes”

Peregrina
(A Luiz Felippe)

Vem de longe talvez, talvez de perto...
Não sei d´onde ela vem... Por entre a bruma
Do seu mysterio intimo, ressuma
Um poema de dores encoberto.

Faz-se em torno de si como um dezerto
De onde fugiu toda a alegria; e a bruma
De uma saudade immensa se avoluma
No seu olhar de um brilho vago, incerto...

Canta ao piano, à noite, umas balladas
De umas doces tristezas perfumadas,
E uns versos melancholicos, sentidos.

E vem-lhe d´alma no tropel dos seres
Como que fragmentos de illuzões,
Pedaços, restos de um collar de sonhos!...

Abril 91

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Saturday, March 21, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 64


LÍVIO BARRETO – O Lucas Bizarro da Padaria Espiritual deixou no “Álbum - 1890”, de Luiz Felippe de Oliveira diversos poemas e fragmentos ainda hoje inéditos. Um exemplo é o poema abaixo:

Ocasos

As dolorosas lágrimas vertidas
Na solidão austera e tenebrosa;
Os meus palácios e a visão radiosa
Das minhas torres de luar vestidas,
Todas as minhas ilusões perdidas!
Bem como um sonho em noite silenciosa
Que se desfaz na asa misteriosa
De umas notas ao longe, doloridas...
. . . . . .
Da-se singelo e cândido noivado,
Daquela nossa mística amizade
Desse himeneu suavíssimo, risonho...
Só resta ao coração despedaçado: -
- Na dolorosa noite da saudade
A casta ausência do passado sonho!...

- 24 nov 90 –
A quadro acima é "Hymenaeus Travestido Durante um Sacrifício a Príapo" (1634-1638) de Nicolas Poussin e encontra-se no Museu de Arte de São Paulo

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Saturday, January 17, 2009

POEMAS BARRETO/XAVIER 56


RAUL S. XAVIER (1902 – 1985)

SAUDADE

Tôda a minha desventura
De um mal sem nome provém,
De uma desdita sem cura,
Como a não teve ninguém.

É saudade que perdura
E de muito longe vem
Esta exquisita amargura,
Com sabor até de um bem.

É somente uma lembrança
Daquela vaga esperança,
Que o tempo há muito levou,

Da crença agora perdida,
De uma ilusão mal vivida,
Do que fui e hoje não sou.

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Friday, September 19, 2008

POEMAS BARRETO/XAVIER 40


LÍVIO BARRETO (1870 - 1895)

NOTURNO


Por estas horas da noite,
Lentas e misteriosas,
Quando dos ventos o açoite
Arranca um frêmito às rosas,

E, pensativas, as almas
Se elevam, calmas, piedosas,
Ao sonho, piedosas, calmas,

Do crisol das fantasias
Sobem átomos risonhos:
As pombas das utopias,
As andorinhas dos sonhos.

Amor! Amor! Se despertas
Doiram-se os cimos medonhos
Das penedias desertas.

Velhos amores murmuram
Dentro do meu coração;
São almas presas, procuram
Ao luar a redenção.

E vão (constância que admiro!)
Do sonho à recordação
E da saudade ao suspiro.

Deus a suprema coragem
Uniu à suprema dor:
Dá-me heroísmo a sua imagem
Mas, mata-me o seu amor.

E a alma de luta em luta
Morre de horror em horror
E de cicuta em cicuta.

Velhos amores! Estrela
Das brumas do meu passado!
Brilha na sombra o olhar d´ela
Tão nobre... mas tão magoado!

Cobrem nuvens a amplidão,
Chora o mar desesperado...
Silêncio, meu coração!

-94-

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