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Wednesday, June 24, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 17


Ricardinho toca gaita de boca

O neto costumava passar os sábados com ele. Eram muito apegados e, quando Jorge ficou com dificuldades para andar, tendo de usar uma bengala, ele gostava de ficar junto ao avô conversando, lembrando de quando ele era pequenininho e mimado por todos. Cresceu, mas os dois continuaram a se gostar. Ricardinho estava bem adiantado no colégio, “culégio” como teria dito seu pai sem que ninguém soubesse de onde ele havia tirado essa pronúncia para uma palavra tão banal. Talvez fosse devido ao tal “verniz cultural” do qual Jorge sempre tinha ouvido falar, mas não sabia o que fosse desde criança e que mais tarde, bem mais tarde, ele aprendeu que não era um simples verniz, mas uma tinta escura e bastante espessa. O menino fazia o primeiro ano do segundo grau em um colégio público, pois os particulares estavam cada vez mais caros. Ele gostava de música, qualquer tipo de música e fazia suas tarefas ouvindo alguma peça clássica ou alguma coisa de bossa nova, ou jaz, ou mesmo esses ritmos bem moderninhos de que o avô não apreciava. Em outros tempos diriam que o interesse do menino por música mostrava que o espírito musical dos Raposo – eles também tinham um espírito musical - havia encarnando nele. Tocava gaita de boca e estava tendo aulas de violão, se bem que suas tias esperassem que ele tocasse piano. Ricardinho também fazia natação e quando o avô caminhava, ele o acompanhava, de vez em quando, nos poucos quilômetros que costumeiramente o velho fazia na Beira-mar.

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Friday, December 19, 2008

POEMAS BARRETO/XAVIER 52

MÁRIO BARRETO XAVIER nasceu na Granja (1906) e era filho de Elisa Barreto Xavier e de Ignácio Xavier. Faleceu em São Paulo em 1969.

Recurso

“Tudo é vedado”
disseram as circunstancias, de olhos claros
agrupadas em torno da cabeça;
cada qual estava sentada numa estrêla,
e eram muitas as estrelas,
e a sua luz, desligada da música,
ardia de sabedoria
ardia de sabedoria.
A cabeça, porém, sorria,
e, muito individualista,
Procurou o canto sem música.

Abr.936.
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Wednesday, October 01, 2008

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 68



Estes homens são uns enganadores

A música fazia as pessoas mexerem os quadris em pleno calor de 40 graus na cidade esburacada, mal cheirosa e destruída. Todos acompanhavam o ritmo alucinante transmitido pelos potentes alto falantes dos carros de som do candidato da oposição. Estes chegavam em grupos de três na Praça da Matriz e transmitiam a mesma música com uma pequena defasagem de tempo, parece até que as transmissões eram cronometradas. Outros carros de som levavam a voz do jovem locutor que arengava as promessas do velho oligarca que, imagina-se, queria despedir-se da vida política: “Vote em Evo Oredales ele colocará água limpa em suas torneiras. Ele criará o atendimento médico de 24 horas. Ele criará o serviço de atendimento a pequenas ocorrências médicas, tipo unha encravada, cisco no olho, etc. Ele criará programas de incentivo ao artesanato. Ele inaugurará a estrada ligando a nossa cidade ao município da Serra e que ele mesmo conseguiu há anos. Ele colocará peixes no Açude Zeca Oredales que servirão de fonte de proteínas para os habitantes das redondezas. Ele dará passagens grátis de ônibus para a praia de Jeri para o povo se divertir. Ele acenderá as candeias ora apagadas.” O locutor terminava seu palavrório convocando o povo para uma reunião logo mais na casa do candidato onde seriam distribuídos mimos às senhorinhas presentes.

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