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Thursday, May 07, 2009

HISTÓRIAS DE JORGE RAPOSO 12


Tereza

Jorge descobriu que estava apaixonado por ela logo nos primeiros dias em que a conheceu. Como ele dizia para a moça, eles entravam “em fase”. Isto durou muito tempo, mas ele não tinha coragem – era covardia mesmo – de falar alguma coisa sobre seus sentimentos. Preferia curtir a dúvida; eu acho que a dúvida era um dos seus alimentos, não preferidos, mas necessários à sua vidinha, pensava ele. Chegou um dia que ele teve coragem e falou para Tereza:

-Olha! Eu vou jogar as cartas na mesa para ver seu jogo.
-Do que você está falando?
-Bobagem você sabe do que vou falar e sabe do que se trata há muito tempo...
-E aí?
-Bom, é o seguinte. Se não falo vou ficar com essa dúvida eterna; se falo posso perder você. É uma sinuca de bico mesmo...
-E porque você não conta? Pode ser que você fique aliviado...
-Eu tenho certeza que vou perder sua amizade se contar.
-Porque você não arrisca?
-Você sabe muito bem que eu não sou de arriscar nada. Sempre quis jogar na certeza de ganhar; por isso não jogo na loteria, nem jogo cartas, nem faço nada que inclua a possibilidade de perda.
-E em que posso lhe ajudar?
-É muito simples, aliás, simples demais. Vou te dizer: nós dois viajamos para Jeri e ficamos lá o tempo que der para eu decidir a te contar.
-E daí?
Dizendo isso ficou calada, calada ao extremo, ao contrário de como se portava: sempre alegre e falando pelos cotovelos como um papagaio.
-Bom daí é o seguinte: vou pedir a você que me responda uma só pergunta quando estivermos lá.
-E por que você não faz logo o raio dessa pergunta?
-Porque eu tenho receio da resposta que vou ouvir!
-Mas como, se você não perguntou ainda? Lá vem tua mania de pensar em algo e achar que é verdadeiro. Nem todas as pessoas pensam da mesma maneira, portanto...
-Ta bem! Esquece da tal viagem. Vou te fazer a pergunta aqui mesmo.
-Ótimo, pois só assim você sai desse enroladinho todo! Diz!
-É o seguinte: Se você me disser agora, jurando pelas Cinco Chagas de Cristo, por Nossa Senhora Aparecida, pelo Padim Padre Cícero e por todos os santos que você tem um namorado, um marido, tem compromisso com alguém... Aí ele disse o resto da frase fatal:
-Se você tem algum gancho me diga agora. Se a resposta for positiva eu me afasto de você e esqueço de você. Esqueço, como? E então?
-Então o que?
-Qual é a tua resposta?
-É! Eu tenho um namorado firme. E ele se chama Miguel, é carioca, alto, louro, bonito, barba escanhoada, atleta, sabe de tudo sobre futebol e baladas. Ele é o cara da minha vida...
Jorge ficou calado, olhando-a nos olhos claros e, aparentemente, sinceros e disse:
-Eu não acredito!
-Pois é eu tinha certeza que você diria isso.
-Ta bom. Não tenho cartas. Chegou minha hora, até a próxima. Acho que vou passar um ótimo fim de semana pondo esse couro para curtir no tanino.

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Tuesday, July 22, 2008

HISTORIETAS DO MEIO DA SEMANA 42

A sinuca do Seu Mateus

Ele viu a Maria chegar e dizer-lhe baixinho:

- Jorginho sua mãe ta lhe procurando já faz é tempo.

- Já vou! E saiu correndo pra casa, só a um pulo do bar.

- Que é que você tava fazendo no Bar do Seu Mateus?

- Nada, Mamãe, só tava lá um pouquinho...

Na verdade ele estava ao lado da sinuca nos fundos do bar. O velho vendia bebidas, refrescos, bolachas e uma porção de bugigangas e tinha essa sinuca. Jogar sinuca era proibido para ele, mas ela o fascinava: o pano de feltro verde, as bolas de cores, a lousa para marcar, tudo lhe dava vontade de jogar. Nunca passou por sua cabeça que aquele simples bater de bolas coloridas traria problemas para sua “cultura”. Mas os de casa pensavam assim; não sua mãe, ela não era Raposo, seus motivos talvez fossem de ordem religiosa. Sem nunca ter pegado num taco, ele acostumou-se a ver os outros jogarem e, quando muito, anotar na lousa os pontos feitos. Ele não podia ficar muito tempo, pois a mãe o controlava bastante.

Quando chegou, a janta já tava na mesa. Se ele demora mais um pouco ficaria sem almoço, pois a regra de sua mãe era: quem não estivesse em casa na hora do almoço passava por “debaixo da mesa”.
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