Saturday, May 29, 2010

A VIDA AVENTUROSA DE TROFIM VASEC EM DIVERSOS CAPÍTULOS – 7


OS FILHOS DE TROFIM VASEC E DO DR. TAL


Os negócios de Trofim Vasec na Ribeira iam muito bem, principalmente depois que o Coronel Totonho e sua família foram embora para a Capital. O Velho, como o genro o chamava, foi assumir a cadeira de Deputado na Assembléia e tratar de negócios financeiros no Banco do Estado do qual era quase dono. (...)


A princípio, Trofim e Aline ficaram ressabiados, mas conformaram-se com a situação, pois passaram a gerenciar os poucos negócios que o Coronel havia deixado na Ribeira e que de alguma forma lhes eram lucrativos. Eram principalmente negócios de sal dos quais o Narcizo já não cuidava direito; ele tinha deixado roubar pra mais de trinta toneladas de sal lá na Amarração e o Coronel não se conformava. Os negócios que Aline tocava mesmo, lembrar que Trofim tinha seu negócio no Mercado, eram os imobiliários. Eram dezenas de prédios que, alugados, rendiam um grande dinheiro. O Coronel exigia contas bem feitas e prestadas todos os meses. Havia aquele povinho que não gostava de pagar os alugueis e era preciso agir com energia, por exemplo, tomando a força mercadorias dos recalcitrantes. No final tudo se resolvia e o casal embolsava uma boa porcentagem da receita.

Juca Vasec, como é sabido, voltou para a Ribeira logo que se formou em Direito. Voltou para exercer a profissão como todos da família e da cidade esperavam que acontecesse. Não havia bons advogados na cidade e um doutor novo, filho da própria cidade e descendente da nobreza euro-asiática era de se esperar que começasse logo com uma boa banca. Seu pai montou um moderno escritório em uma das casas da Vila que havia recentemente construído na Rua da Independência. Juca iniciou sua prática legal, mas em pouco tempo descobriu que essa não seria sua profissão. Ele preferia a fazenda que seu pai tinha nas redondezas e onde passou a criar gado e cavalos. O gado era de leite, da raça Holandesa preta e branca e os cavalos eram puros mangalargas. Pouco a pouco ele foi deixando de comparecer ao escritório para decepção de seus pais e de todos da Ribeira. Além da fazenda ele passou também a freqüentar o Armazém de seu pai e logo estava assumindo uma posição de destaque na firma.

Passaram-se alguns anos até que seu velho amigo e companheiro de Rio de Janeiro, o Talzinho, voltasse para a Ribeira para fazer não se sabe o que. Ele não tinha aprendido coisa alguma no Sul, a não ser jogar no Cassino da Urca e outras atividades bem menos dignas, apesar de supostamente ter-se diplomado em Medicina. Diziam que ele teria sido o gerente de um dos primeiros motéis a serem instalados na antiga Capital Federal. Se isso era certo não há como provar. Seu pai, o Dr. Tal, procurou o amigo Trofim Vasec e conseguiu que o eslavo financiasse um consultório muito bem montado para Talzinho. Ele era a esperança da cidade em termos de medicina. Talvez com ele, pensavam todos, os índices de mortalidade infantil agora fossem drasticamente reduzidos e o novo índice de desenvolvimento urbano mudasse de lugar na enorme lista dos municípios da Província.

Até parece que os dois amigos haviam combinado o desenrolar de seus destinos: Talzinho logo abandonou a clínica e como sua experiência anterior estava no ramo dos cassinos e casas de tolerância ele resolveu montar um cabaré a que deu o nome de Matel, pois se situava a uns bons cinco quilômetros da cidade na estrada que vai dar no Pará. Esse empreendimento do médico – seria mesmo médico, pois ninguém nunca viu seu diploma – foi verdadeiro sucesso. Toda a rapaziada e, lógico toda a moçada, elogiava muito as instalações bem modernas. Imaginem que havia piscinas e camas giratórias. Talzinho em breve estava rico.

Quanto a Juca este não lhe ficou atrás. Seus cavalos eram cada dia mais solicitados pelos grandes milionários da capital que os adquiriam para as grandes competições no recém criado Hipódromo que, sem nenhum exagero, correspondia em medidas ao de Constantinopla. Suas vacas holandesas davam leite que era processado na própria Várzea; ele produzia muito queijo e manteiga, pois a venda de leite na cidade era mínima, ninguém tomava leite na pequena cidade e assim as sobras eram grandes. Juca montou a Fabrica de Laticínios do Oriente que passou a ser uma verdadeira mina de ouro.

Juca e Talzinho sempre se reuniam para rodadas de pôquer acompanhadas de uísque “Black and White”, preferido de ambos desde os tempos do Rio de Janeiro. Eram companheiros alguns amigos do tempo do Colégio e que, ao contrário deles não tinham tido muito sucesso financeiro, mas tinham o suficiente para perder no jogo, principalmente para Talzinho que era quase um profissional.

1 comment:

Blogue Granja Ceará said...

A realidade povoa as linhas do conto. Não é apenas ficção, é um registro, uma forma de testemunhar a realidade.