Wednesday, September 19, 2012

A FILA DEVE ANDAR – HISTORINHAS DAS QUARTAS


O prefeito já não queria mais se reeleger. Há décadas ele era o morubixaba, o manda-chuva da velha cidade, mas tinha ficado enjoado; os ganhos haviam caído muito e ele estava decidido a passar a responsabilidade para outro. (...) 

O Velho, pois assim era chamado por todos, chamou seu vice e disse: 
- Cara, você vai se candidatar no meu lugar! O vice, conhecido por Tiquinho, ficou assombrado com a convocação e retrucou: 
- Seu Prefeito eu não posso. Lembra que eu carrego três processos e os home vão julgar logo, logo... 
- Que é isso companheiro, ta com medo? Vai que eu garanto! Tiquinho foi e se candidatou. Não passou um mês e o Tribunal da Relação mandou um expediente afirmando que ele não podia se candidatar, pois tinha contas a prestar a Justiça. 
- E agora, o que vamos fazer? Perguntou Tiquinho ao Velho. 
- Vamos em frente! Vamos indicar o Secretário das Relações Sociais, o nosso Toinho, para ser o nosso candidato. 
O Tribunal da Relação também negou ao Toinho a autorização para ser o candidato pelas mesmas razões que negara a Tiquinho. 
Ao tomar conhecimento da notícia o Velho afirmou para seu Secretariado reunido no Palácio que a fila deveria andar, pois certamente achariam algum imaculado para ser o candidato e não transformar ainda mais a vila de seus antepassados. 

 FZA 18/9/12

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Sunday, September 16, 2012

ISTO É TUDO TÃO COMUM... - HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 290


Sentados sobre o meio-fio, em frente a  casa em que estavam hospedados, os dois irmãos, já adultos, e vindos do sertão longínquo, observavam as luzes da cidade e o trânsito que, nessa época, era restrito aos bondes, uns poucos carros e  muitas carroças. Eles conversavam animadamente embevecidos com a claridade e a movimentação das pessoas voltando para suas casas. A conversa girava sobre suas impressões da cidade, pois era a primeira vez que visitavam a Capital e se hospedaram na residência do padrinho do rapaz em uma rua central.  O irmão vira-se para a irmã e diz:
- Luiza olha pras luzes e os carros; é tudo tão bonito...  Ela, com um ar definitivo responde:
- Luzimário isto é tudo tão comum...

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Wednesday, September 12, 2012

SUGIRO E O SAMURAI– HISTORINHAS DAS QUARTAS

Sugiro era seu nome e de japonês tinha seu pai o velho Kitamura. O rapaz era muito impressionável e levava as impressões do dia para a cama onde, invariavelmente, sonhava sonhos fantásticos, irreais que gostava de contar para os amigos no boteco de seu Manoel. (...)  

Certa manhã de domingo ele vai para o tal boteco e, depois de pedir uma caninha e um tira gosto de torresmo ele espera pelos amigos que não tardarão a chegar. Quando o Mundinho e o Estanislau chegam, ele logo anuncia o sonho do dia, ou melhor, da noite passada. – Conta, conta! Falam os amigos. Sugiro que você comece do começo, sem essa história de lembrar seus antepassados samurais, avisou Mundinho. – Tudo bem. A história é boa, vocês vão ver. – Conta logo “Japa”, vamo! Foi aí que Sugiro começou a contar o sonho, ou seria pesadelo? Ele falou que estava dormindo em sua cama costumeira quando lá pela madrugada acordou e começou a lembrar do sonho que tivera um pouco antes. Ele estava sendo perseguido por um samurai por alguma coisa que ele não sabia o que fosse; corria em desabalada carreira quando tropeçou em uma pedra dando oportunidade para o bandido (?) alcançá-lo. O samurai, vestindo todas aquelas roupas de samurai, além de estar armado com uma enorme katana reluzente, aproxima-se de Sugiro caído e lhe diz com uma voz de japonês: - O que você faz aí sentado em minha cama? Ato contínuo os dois ficam em pé sobre a cama e o samurai recomeça a perseguir Sugiro. Quando este já estava muito cansado notou que a katana do samurai era de papel dobrado e ele mesmo era simplesmente o reflexo da luz que vinha do poste do outro lado da rua. Os amigos de Sugiro o expulsaram, aos berros, do boteco de seu Manoel.
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Sunday, September 09, 2012

O SENHOR SE DÊ A RESPEITO - HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 290



Esperando ser atendido na lojinha de consertos de óculos e relógios, Adamastor notou que a senhora a sua frente levava cinco relógios de pulso. Logo que o funcionário consertava um ela lhe passava outro. O tempo foi passando e ele ficou cansado de tanto esperar. Um dos relógios da senhora, por seu descuido, quase cai ao chão. Ele consegue segura-lo e dar para ela que responde ao gesto com:
- Obrigado! Daí Adamastor grita para ela:
- Obrigado não, obrigada! A Senhora olha para ele e lhe diz:
- O Senhor quer me ensinar a falar? Eu sou é filha do melhor professor de Português que tinha no Liceu. O Senhor se dê a respeito!

FZA 22/5/12

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Wednesday, September 05, 2012

O SONHO DE SEU CONSTANTINO - HISTORINHAS DAS QUARTAS

Um camarada muito quieto, muito calmo, mas com um defeito que às vezes podia ser prejudicial a ele mesmo. Era assim o Seu Constantino. (...)  

Certa ocasião ele apareceu dizendo que tinha tido um sonho de assombrar. A turma logo pediu para ele contar, mesmo sabendo que era uma invenção. O velho, pois já era um velhinho, passou a relatar que ia caminhando por uma estrada de terra e, subitamente, caia em um buraco enorme, sem fim. Após algum tempo de queda no escuro ele esbarra no fundo que era frio e pegajoso. Ele não sabia o que fosse, mas como era prevenido só saia de casa levando sua lanterna led e, ao acendê-la, viu o que havia no fundo do poço: uma enorme quantidade de corpos humanos em diversos estágios de decomposição. Seu Constantino continuou a contar seu sonho/pesadelo relatando que tentou encontrar alguém conhecido, talvez algum parente ou amigo, sei lá. Após pisar em muitos corpos ele descobriu, sobressaindo sobre a grande massa, com seus enormes e conhecidos braços, a figura do Tião. O velho disse: Vocês se lembram do Tião, aquele camarada viciado em maconha e que morava na beira da Rua do Bispo, lá embaixo perto da praia, não? Não, ninguém lembrava, responderam os amigos. Talvez ele tenha desaparecido. É isso mesmo, diz Seu Constantino. Acontece que ele estava lá embaixo e o que é mais eu lhe pedi para subir comigo pelas paredes do poço. Com ajuda dele eu achava que podia sair e ganhar a liberdade. Dito e feito o Tião me ajudou e eu o ajudei e nós saímos bem pertinho de onde ele morava. 

A essa altura já não havia mais ninguém para ouvir o resto da história ou do sonho de Seu Constantino. Isto foi uma pena, pois Seu Constantino passou a ser requisitado por muitas rodas na cidade para contar esse e outros sonhos de conteúdo religioso, assim dizia o padre Juvêncio.

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