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Friday, November 07, 2008

POEMAS BARRETO/XAVIER 47


MÁRIO BARRETO XAVIER nasceu em 26 de abril de 1906 na Granja e faleceu em quatro de dezembro de 1969 em São Paulo. Aparentemente não teve nenhum de seus poemas publicado.

O poema transcrito aqui é de julho de 1936, quando seu pai faleceu na Granja.

MOMENTO

Sinto-me com a moral levantada e resolvo não trabalhar mais.
Os microorganismos pululam com satisfação em volta de mim
entre os papéis, entre as máquinas.

O destino dos secretários perpétuos dos institutos históricos
se afunda no mar amarelo da vida vegetativa.

Contemplo com horror a aritmética
a adição
a subtração
a multiplicação
a divisão
E vejo que o meu ordenado não dá para as encomendas

As máquinas porém
batem na bunda do homem com familiaridade
na certeza de que são mais machas do que ele

Francamente, me diga,
o que Você preferia ser
Um verme ou um vermífugo?

Jul.936.

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Monday, July 28, 2008

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 33


O moço de camisa vermelha

O moço já devia tê-lo visto antes, pois se pode dizer que ele o estava esperando. Sentado a uma mesa do restaurante, bem em frente ao corredor que dava para todos os quartos da pensão, estava aquela figura macilenta, vestindo uma camisa vermelha de malha. Ele o fitava insistentemente, mesmo quando Miguel se movimentava para tomar seu café em uma mesa bem afastada da dele. Após terminar sua refeição e sem que o moço de vermelho tenha deixado de acompanhá-lo com o olhar Miguel nota que o dito cujo não se encontra mais na sala. Ele se encaminha para seu apartamento sendo surpreendido pelo moço que o havia acompanhado silenciosamente até a porta. Miguel estaca e, ao por a chave na fechadura o moço, com um olhar de cabra morta se acerca e tenta dialogar:

- Você faz o que aqui?
- Sou representante.
- Você é de onde?
- Sou de Várzea Pequena.
- E como é o seu nome?
- Pedro, Pedro Silva. E o senhor, o que faz aqui?
- Vim fazer vestibular.
- Pra quê?
- Ciências sociais.
- Ta bom. Boa sorte.

Miguel bate a porta para fugir daqueles olhos lânguidos.

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