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Tuesday, May 05, 2009

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 52


Gripe dos porcos

O Homem mandou convocar uma reunião urgente para tratar do grande problema. Ele havia recebido uma mensagem das autoridades do Ministério da Sanidade Pessoal ordenando que fossem tomadas medidas sobre a gripe dos porcos. Ele queria se ver livre dessa história logo, logo. Na hora aprazada estavam todos reunidos no auditório todo forrado de veludo, sob um silêncio adequado e debaixo de um friozinho agradável de dezoito graus provido por potentes condicionadores de ar “split air” de último modelo. O Homem manda o Outro falar, pois ele já tinha passado todas as instruções recebidas. O Outro começa:

- Vocês sabem que essa tal gripe está preocupando todos os administradores mundiais desde o Barack, passando por Nosso Guia até nós aqui. Agora com essas chuvas e enchentes temos de implementar as medidas recomendadas urgentemente. Já sabemos que essa tal gripe mata, principalmente velhos e crianças o que, diga-se de passagem, melhoraria nossos índices, tipo IDH e por aí vai. Mas as autoridades querem impressionar e impõem à gente medidas urgentes. Lá vai, portanto. E mandou o Naldo, ajudante pessoal, iniciar a projeção do material com suas ordens do qual retiramos algumas:

Mandar os desabrigados construírem barracos em palafitas a beira do Rio para abrigá-los;
Mandar os desabrigados construírem também passarelas de madeira para alcançarem seus barracos;
Distribuir cestas básicas doadas (uma cesta doada será dividida em três) pelas famílias dispostas a tal. As cestas devem conter velas, muitas velas;
Sortear dois terços das cestas entre os nossos amigos que moram perto das margens do Rio (e os que moram longe, também);
Reunir as equipes médicas dos diversos hospitais da cidade em uma das palafitas a qual será dado o nome da mãe do Homem, (não seria melhor o da minha?);
Distribuir garrafinhas de água doadas pelo Senador (qual?);
Vacinar os desabrigados/barracantes com vacinas (dar metade da dose recomendada);
Distribuir/aplicar alguns dos remédios recomendados por meio de vendas sigilosas aos desabrigados\barracantes;
Mandar uma comissão fazer a limpeza dos locais de sepultamento no cemitério e fazer uma listagem dos candidatos;
Fazer um convênio com a empresa funerária para promover os enterramentos a preços populares;
Mandar fazer caixões de diversos tamanhos e vendê-los a um preço módico às famílias dos pretendentes;

Após a reunião o Homem e o Outro se dispõe a visitar, pela primeira vez em anos, a zona conflagrada, mas na última hora o Homem desiste e vai para seu Palácio tomar umas doses de “Cream Whisky”, pois ninguém é de ferro. O Outro não tem coragem de ir sozinho sem ele à visita ou com ele ao uísque. Os participantes se dispersam aptos a cumprir as ordens das autoridades superiores.

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Monday, July 07, 2008

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 30


O galo pedrês

O Seu Miguel morava no Alto dos Pescadores e era conhecido como uma espécie de vidente ou coisa que o valha e interpretava sonhos. Recentemente foram a sua casa três cabos eleitorais de políticos da cidade: o Bebezinho, o Belezinha, e o Bileuzinho. O interessante é que eles foram no mesmo dia e cada um sem saber da intenção do outro. Quando lá chegaram pediram para falar com Seu Miguel, pois queriam contratá-lo para interpretar os sonhos que os “home”, seus patrões, tinham tido, constataram eles agora, no mesmo dia. O vidente diz que interpretará os três sonhos se eles mandarem tapar o buraco que tem bem em frente de sua casa e tirar os porcos que fazem plantão ao lado dela.

Os sonhos dos três candidatos eram espantosamente semelhantes: eles sonharam com um enorme galo pedrês que bicava os três. O animal dava bicadas incessantes ameaçando transformar aquela arrumação num mar de sangue. Seu Manoel disse que o galo pedrês era a representação do povo e dos anseios de liberdade e democracia e as bicadas significavam que a população estava se preparando para uma reação aos desmandos passados, presentes e futuros. O velho vidente adiantou que era impossível acabar com as bicadas do galo pedrês até que a cidade alcançasse um IDH civilizado.

Intrigado com sua própria interpretação Seu Manoel perguntou:

- Escuta aqui gente o que é esse tal de IDH que eu não sei?

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Sunday, June 15, 2008

HISTORIETAS DE SEGUNDA-FEIRA 80


Retorno

Gilmar estava sentado em um bar, esperando o amigo na beira da calçada, olhando para uma porca e seus porquinhos fuçando em uma poça de lama bem ao lado. Quando o amigo chega, ele logo diz:

- Oi Joãzinho! Senta aqui! Faz tempo que a gente não se vê!

- É verdade faz muito tempo mesmo, uns vinte anos se não for mais. Lembro que eu ainda estudava no Colégio quando nos mudamos para Parnaíba. Já faz um tempão...

- Você quer tomar alguma coisa? Pergunta Gilmar enquanto faz sinal para o churrasqueiro que estava preparando espetinhos em uma grelha à beira da calçada. Bem perto de onde trabalhava o Nézinho Joãozinho viu um cachorro deitado no chão. O dono do bar chega e o Gilmar faz as apresentações:

- O João é da cidade e faz muito tempo que não vem aqui. Nézinho prepara uns churrasquinhos e traz uma cerveja bem geladinha para a gente comemorar!

O dono do bar vai buscar a cerveja e logo depois traz na mão os churrasquinhos pedidos e um potinho com farofa seca.

- Eu só lhe vi hoje de manhã, você chegou quando?
- Cheguei a três dias, no domingo. Vim com minha mulher e o meu filho.
- Já casou e já tem filho Joãozinho! É um progresso...
- É, mas eu já estou perto dos trinta. E você Gilmar, casou também? E tem filhos?
- Rapaz casei! E casei bem cedo. Por aqui todo mundo casa logo, num tem o que fazer...

Enquanto Gilmar fala passa um bicicleteiro anunciando, a toda altura, um forró no próximo sábado, de graça, pois é patrocinado pela Secretaria dos Esportes. O barulho diminui e Gilmar continua:

- Pois é rapaz eu não pude nem estudar mais, parei pela metade. Agora eu e a Detinha nós temos emprego na Prefeitura e o pai dela dá uma ajuda pra gente.
- Ah legal! Gilmar eu andei por aí visitando uns parentes e vi que a cidade continua a mesma do meu tempo, parece que não teve melhoria alguma? O que será isso?
- Olha Joãozinho melhorar melhorou, tem umas coisas que não tinha antes e agora tem. Tem as universidades que vêm dar aula aqui e logo, logo nós vamos ter engenheiros formados aqui, vamos ter professores de filosofia, de retórica, vamos ter advogados. É uma melhora danada.
- E o ensino fundamental, das crianças, vai bem? Li ainda outro dia que a cidade tem um alto índice de analfabetismo e o IDH é muito baixo. E parece que tem muita dengue. Será mesmo verdade?
- Olha Joãozinho quando chega nessas coisas de índice aí ninguém se mete. O “homem” não quer e eu estou com ele e não abro. Esses caras lá da capital aparecem aqui para xeretar nossa vida e saem falando mal da gente. Tudo de ruim acontece aqui, é o que eles dizem; não é verdade. Você pode rodar toda a cidade e não vai encontrar um graveto fora do lugar. Agora tem esse negócio dos buracos, mas isso é culpa do governo estadual que não soltou todas as verbas.
Joãozinho muda de conversa e pergunta:
- Gilmar a gente podia ir tomar um banho no rio amanhã, pular da ponte, você topa?
- Topo, vamo!

Os dois amigos terminaram de saborear o churrasquinho e a cerveja e saíram os dois depois de pagarem a conta ao Nezinho.

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Monday, March 17, 2008

HISTÓRIAS DAS TERÇAS 14


Ideagá e o cacimbão

Ideagá, magrinho e fraquinho como era, caminhava pela Rua Velha, debaixo de uma chuva fortíssima, dessas que só caem de dez em dez anos. Subitamente, toda a cidade viu uma claridade que mais parecia uma exibição de fogos de artifício. Não bastasse isso, um violento trovão seguiu esse clarão assombroso. O povo ficou assustado e alguns saíram à procura do pobre Idezinho, como era conhecido Ideagá, uma pessoa bastante conhecida e muito querida de todos. Moradores das redondezas da Rua Velha o tinham visto caminhando logo antes da chuva, perto do cercado da casa de Seu Inásso. Alguém foi até ao cacimbão sem tampa que lá faz ponto e, olhando para a água imunda, onde nadam garrafas pet vazias, pneus de automóvel, pedaços de tábuas, caixas de papelão, e como uma espécie de troféu aos moradores do cacimbão, uma nuvem de mosquitos – não os da dengue, pois eles não gostam de água suja – boiava uma lata vazia do inseticida SBP.

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