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Wednesday, December 03, 2008

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 76


Traíra traiçoeira

Histórias fantásticas tinha o velho Inaço. E eram mesmo, pois nenhuma delas havia acontecido e todos sabiam disso. Ele não se importava de jeito nenhum, queria mesmo era divertir os netos. Uma dessas se passava no tempo dos escravos e rezava assim: O velho só tinha uma escravinha e ela ia casar com o Raimundinho um caboco que trabalhava na casa de seu compadre Chico. Todo mundo estava animado, pois os dois eram muito queridos e depois do casamento o velho Inaço ia alforriar a Clotilde. Na véspera da cerimônia as filhas do velho ficaram muito ocupadas ajeitando o vestido e tudo o mais, mas faltava alguma coisa e era o cabelo da Clotilde que não se arrumava de modo algum. O velho tomou então sebo de carneiro, que vinha em umas latinhas de flandres e passou, ele mesmo, generosamente no cabelo da menina utilizando um pente de casco de tartaruga. Após uns quinze minutos nessa operação ele amarrou as pontas do cabelo da Clotilde em pedras e a deixou sentada em uma cadeira no meio da sala com a recomendação de não pregar os olhos, senão o serviço seria perdido e o cabelo voltaria ao seu normal. Clotilde concordou e o velho Inaço foi dormir. Lá pelo meio da noite ele e todos os de casa ouviram um grande barulho, tipo assim de um rasga mortalha, vindo da sala. Correram e viram a mocinha chorando com o couro da testa partido. Descobriam que ela, morrendo de sono, havia pegado uma traíra!

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Wednesday, October 22, 2008

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 71


Alto, louro, e de olhos azuis

O velho Inaço era pai de quatro moças que, ao chegarem à idade de casar, não tinham conseguido interessar a nenhum dos viajantes que passavam pela cidade, nem aos próprios primos e outros rapazes casadoiros do local. Certa ocasião apareceu na loja do velho um vendedor de tecidos vindo do sul. Quando o moço abriu a mala expôs todo o mostruário e levantou a cabeça e se apresentou às quatros moças que estavam xeretando por ali elas viram que ele era um homenzarrão alto, louro, de olhos azuis e, de imediato interessou às meninas. O velho Inaço viu aquela troca de piscadelas e chamou as quatro filhas para um canto e disse:

- Ôme alto, loro, e dos zói azul não serve para namorar fia minha e se tiver bigode, como esse camarada aí, nem informação é pá dá.

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Wednesday, April 16, 2008

O Povo da Malhadinha/O Povo da Granja 49


Herança

Eles estavam de casamento marcado, os banhos já estavam correndo e não havia, seguramente, jeito de ela não casar com o Níldio, filho do Seu Zequinha, além do que eles já haviam experimentado do fruto proibido. Como todas as moças de seu tempo ela queria logo ter o filho, mas tinha muitos medos. Um desses era que o menino, pois tinha de ser homem, concentrasse todas as cores dela e do Níldio, pois seus pais tinham a linda pele acobreada de seus antepassados da qual sobressaiam sinais tipicamente africanos. Ela recorreu a todas as comadres rezadeiras da Lagoa, da Beira-do-Rio e até do Alto, e todas elas deram-lhe um só conselho: tomar diariamente três colheres, das grandes, de sopa, de leite de magnésia. Era tiro e queda, o menino nasceria com a pele clara e com as feições do Príncipe de Gales.

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