Saturday, November 06, 2010

A VIDA AVENTUROSA DE TROFIM VASEC EM DIVERSOS CAPÍTULOS – 18


O ENTERRO DE TALZINHO

O povo lá na Ribeira diz que o Talzinho morreu durante uma caçada que fez junto com Trofim Vasec quando uma onça o atacou lá pras bandas do Pará, perto da casa do Zé de França. Ocorre que nem todo mundo acreditava nessa história, pois seu corpo não tinha aparecido. O que se dizia e isso era reforçado pela palavra de Trofim era que a tal onça o havia comido inteirinho como o Jacaré comeu o Ivan, lá pros lados da Rússia. Até nisso o Talzinho era importante: imagine que seu desaparecimento era comparado com o de um nobre russo! (...)


O que é fato é que o Talzinho reapareceu ou ressuscitou, aliás, como já fizera algumas vezes no princípio de sua carreira, ainda com o cheiro trazido das montanhas nevadas da Venezuela. Dessa vez ele apareceu mesmo foi na parede do açude do Pará e, o que é de se salientar, assombrando o povo durante as madrugadas frias. As pessoas que o encontravam relatavam histórias bem estranhas. Em uma delas se dizia que o antigo alcaide reclamava pelo fato de não ter encontrado, depois de ter voltado, nenhuma das dezenas de caixas de uísque que havia deixado em sua casa mal-assombrada. Outra dessas incontáveis histórias era aquela de que seu corpo não fora sepultado como ele havia deixado dito em papel registrado no cartório.

Como seria ele sepultado se seu corpo não havia sido encontrado? As pessoas discutiam na cidade. Muitos de seus amigos na Ribeira e em outros lugares onde ele era conhecido, e eram muitos, procuravam solução para esse dilema: enterrar o amigo que não tinha corpo? Uma das soluções mais engenhosas foi aquela aventada por Trofim Vasec. O nosso amigo eslavo sugeriu que se mandasse fazer um boneco de madeira com todas as características físicas de Talzinho, incluindo todas as peças artificiais que ele portava, e o sepultasse como se fosse o original. A princípio não houve acordo, mas com uma boa argumentação do eslavo logo tudo se resolveu.

O Toquinho, marceneiro de mão-cheia da cidade, foi o encarregado de fazer toda a obra: o boneco de madeira e o caixão. Madeira de primeira foi adquirida na Serraria do Chico Silva e, em poucos dias o Toquinho entregou no Armazém de Trofim a encomenda. Isso foi feito à noite para que ninguém desconfiasse de nada. O Toquinho foi pago com uma verba especial do Banco do Sertão que tinha dinheiro para tudo, inclusive para enterros de bonecos.

No dia seguinte Trofim Vasec reuniu os amigos da cidade e os companheiros da caçada em que Talzinho havia desaparecido e anunciou, do portão do Mercado, que o corpo do amigo, já erodido, havia sido encontrado e seria sepultado da maneira desejada por ele.

O Padre Pedro foi convocado e logo no dia seguinte o caixão com o Talzinho de madeira foi levado para as últimas cerimônias religiosas. Após todas as solenidades a que o morto ilustre tinha direito organizou-se o féretro que saiu da Praça da Igreja e dirigiu-se ao Cemitério. Houve um grande acompanhamento incluindo-se a Banda Alegria de Viver de Mestre Antoninho, formado pela Filarmônica e que tocava as mais belas peças de Souza, o grande compositor americano. Os sinos repicavam o tempo todo até a chegada ao Cemitério. Lá a cerimônia foi simples e só algumas poucas autoridades usaram da palavra, entre essas estava o Peba Preto que era viciado em discursos à beira de sepultura.

Não foram os poucos que observaram que Talzinho não tinha obtido o favor de ser sepultado como ele desejava. Ele passou sua vida dizendo que queria ser sepultado no mausoléu que mandou construir no Pará. Isso certamente daria o que falar por muito tempo ainda.

1 comment:

Blogue Granja Ceará said...

Talzinho ressuscita novamente.

Muito bom conto da ribeira!